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Mil Sóis revela o poeta Primo Levi

Obra poética do autor de É isto um homem? é publicada pela primeira vez no Brasil


Por Adriana Marcolini

 


 

Apesar de ser mais conhecido por seus livros de prosa, como É isto um homem? (1947) e A trégua (1963) que levaram seu nome a percorrer o mundo, o italiano Primo Levi (1919-1987) foi também poeta – um poeta da dor. Mil Sóis, uma coletânea de seus poemas selecionada e traduzida por Maurício Santana Dias, é o retrato da amargura de um homem que sobreviveu ao inferno do campo de concentração. O livro foi lançado pela editora Todavia em 2019, ano do centenário do nascimento de Levi. Original de Turim, de família judaica, químico de profissão, Levi participou da Resistência italiana contra o fascismo, mas foi detido e enviado para Auschwitz. Sua obra é marcada por esta experiência e consolidou um novo gênero: o testemunho literário do horror.

A editora Todavia brinda o leitor com uma edição bilíngue – uma feliz opção que enriquece o universo linguístico dos que desejam percorrer os meandros do italiano, o idioma original, e do português. Maurício Santana Dias preservou o ritmo do autor e conseguiu expressar com clareza as inquietações de Levi na língua portuguesa do Brasil. Em entrevista concedida a Helena Bressan Carminati, publicada no blog Literatura italiana traduzida no Brasil (https://literatura-italiana.blogspot.com/2019/07/entrevista-com-mauricio-santana-dias_31.html), ao comentar sobre seu ofício, o tradutor salientou que “talvez a maior dificuldade, sobretudo em poesia, seja alcançar simultaneamente a alta condensação semântica e a música interna de cada poema”. E observou: “Levi é um escritor da palavra precisa e clara, que não admite o vago ou o aproximativo. Já se disse que seus textos são como esculpidos na pedra, e o tradutor não pode falhar nesse ponto.”

De fato, os versos de Primo Levi são como que pontiagudos, exatos, cartesianos. Expressam a dor sem recorrer a mecanismos de retórica. É interessante notar que ele sempre datava os poemas, o que dá a impressão de que estivesse escrevendo uma espécie de diário em versos. Muitos de seus poemas são autobiográficos; outros trazem à tona a faceta de cientista do escritor-poeta-químico e fazem alusão ao cosmo, lembrando-nos de que nós, seres humanos, também somos formados por essa matéria infinita que nos envolve como um manto.

Levi chegou a se referir a Auschwitz como um buraco negro e dedicou o poema Estrelas negras, datado de 30 de novembro de 1974, ao campo de concentração. Há referências ao cosmo, ao universo, ao sol e ao céu (“legiões celestes”) nos versos de Estrelas Negras: Ninguém mais cante o amor ou a guerra./A ordem de onde o cosmo ganhava nome se desfez;/As legiões celestes são um emaranhado de monstros,/O universo nos assedia cego, violento e estranho./O sereno está salpicado de horrendos sóis mortos,/Densos sedimentos de átomos triturados./Deles emana apenas um desesperado peso,/Não energia, não mensagens, não partículas, não luz;/A própria luz desaba, rompida por sua gravidade,/E nós, germe humano, vivemos e morremos para nada,/E os céus se revolvem perpetuamente em vão.

Maurício Santana Dias utilizou como texto-base a edição das obras completas de Primo Levi organizada por Marco Belpoliti (Primo Levi: Conversazioni e interviste (1963-1987)), publicada pela editora Einaudi, de Turim, em 1997. Selecionou poemas da coletânea Ad ora incerta (Em hora incerta), escritos entre janeiro de 1946 e junho de 1984, e do livro póstumo Altre poesie, redigidos entre setembro de 1984 e janeiro de 1987. Na introdução a Mil Sóis, o tradutor salienta que Levi não se dedicava à poesia com a mesma regularidade que destinava à prosa. E cita o trecho de uma entrevista incluída no livro de Belpoliti: “[...] Sou um poeta bissexto: no fim das contas, escrevi pouco mais de um poema por ano em minha vida, embora haja períodos em que me venha espontaneamente escrever em versos. Mas se trata de uma atividade que não tem nada a ver com nenhuma outra atividade mental que eu conheça. É algo completamente diferente: é como um cogumelo que cresce numa noite, acorda-se de manhã com uma poesia na mente, ou pelo menos com seu núcleo. Depois é um trabalho de longas variantes e correções  contínuas: e o computador é um instrumento perfeito para isso, para a tristeza de futuros filólogos que não acharão os manuscritos com as sucessivas aproximações.” No poema Um ofício, escrito em 2 de janeiro de 1984, Levi aborda, liricamente, o labor poético. Os versos iniciais refletem o que ele declarou na entrevista mencionada há pouco: Você só tem que esperar, com a caneta pronta:/Os versos zumbem ao redor como falenas bêbadas;/Uma vem até a chama e você a agarra./Claro, não terminou, uma não basta,/Mas já é muito, é o início do trabalho.

A Shoah, ou Holocausto, está presente desde os primeiros poemas, de 1946, quando o escritor já havia sido libertado, e estava de volta à Itália, até outros que vieram à luz muitos anos depois, como Canto dos mortos em vão, de 14 de janeiro de 1985. Nesses versos pungentes, Levi faz referência ao “exército dos mortos em vão”, como os que perderam a vida em Treblinka, Dresden e Hiroshima, os desaparecidos de Buenos Aires e os derrotados de Praga, entre outros. O Holocausto desponta como um raio na sua poesia – e seria difícil não ser assim. Pôr do sol em Fòssoli, de 7 de fevereiro de 1946, remete ao campo de concentração e de trânsito (de onde eram deportados para a Alemanha os judeus italianos e os opositores políticos) que ficava na Emilia Romanha, no norte da Itália: Eu sei o que quer dizer não voltar./Através do arame farpado/Eu vi o sol declinar e morrer;/Senti as palavras do velho poeta/A lacerar minha carne: “Possam os sóis decair e voltar:/Para nós, quando a breve luz se apaga,/Há que dormir uma noite infinita”.

Shemà (“Escuta!” em hebraico), de 1946, escancara a realidade cruel dos campos de concentração e nos confronta com o sofrimento vivido pelos prisioneiros: “Considerai se isto é uma mulher,/Sem cabelos e sem nome/Sem mais força de recordar/Vazios os olhos e frio o ventre/Como uma rã no inverno”. Assim como neste verso, que revela o desamparo da prisioneira comparada a uma rã, os animais estão presentes em vários poemas. Em Segunda-feira o autor também recorre à figura de um deles. Pergunta: “O que é mais triste que um trem?” e responde: “Ou talvez um burro de carga./Está preso entre duas barras/E não pode olhar para o lado./Sua vida é só caminhar”. Em O Canto do Corvo (I) a chegada da ave que, popularmente, simboliza o mau presságio e os acontecimentos sombrios, vem trazer “a terrível nova” que vai tirar a alegria do sono e corromper o pão e o vinho. Já em O Canto do Corvo (II), a ave aparece como alguém de quem é inútil fugir. Na entrevista a Giovanni Tesio, citada por Maurício Santana Dias na introdução, Primo Levi afirmou que tinha uma “curiosidade insatisfeita” em relação às figuras animalescas. “Nos animais há o enorme e o minúsculo, a sabedoria e a loucura, a generosidade e a vileza”, disse. “Cada um deles é uma metáfora, uma hipóstase de todos os vícios e de todas as virtudes dos homens.”

É curioso pensar que o primeiro texto publicado de Primo Levi não tenha sido de prosa, mas um poema: Buna Lager. O poema saiu em junho de 1946 no semanário comunista L’amico del popolo, editado por Silvio Ortona, seu amigo. Foi nesse periódico, informa Maurício Santana Dias, que o autor publicou as cinco partes do texto que dariam corpo a É isto um homem?. Mas ele continuou a escrever poemas, embora sem assiduidade. Publicava em revistas literárias de prestígio, e no fim de 1970 lançou uma edição reduzida com a poesia que havia produzido até então. Em 1984, quando sua produção poética já havia adquirido mais corpo, seus textos líricos foram publicados com o título Ad ora incerta, pela editora Garzanti, de Milão. E agora, finalmente, chegam ao leitor brasileiro.  


Primo Levi: Mil Sóis: Poemas escolhidos. Trad.Maurício Santana Dias.São Paulo: Editora Todavia, 2019. 156 p.


Adriana Marcolini é doutora em Literatura Italiana (2016) pela USP; foi beneficiária de uma bolsa-sanduíche na Itália concedida pela Capes (2014/2015). Graduada em Jornalismo pela PUC-SP, tem experiência profissional no Brasil e no exterior. Foi tradutora do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) em Buenos Aires. Especializou-se em traduções do inglês, espanhol e italiano. É pesquisadora da USP na área das migrações.

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