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Traduzindo fantasia: os desafios do gênero diante de um público cada vez mais exigente

Por Ana Beatriz Omuro



     

 

Acredito ser necessário, inicialmente, justificar a escolha deste título para ser o objeto de minha resenha. Nocturna, da estadunidense Maya Montayne, publicado no Brasil pela Editora Seguinte e traduzido por Flávia Souto Maior, é um romance de fantasia voltado para o público jovem adulto e o primeiro de uma trilogia. Nesse sentido, é muito parecido com o livro que me propus a traduzir ao longo do programa, The Rise of Kyoshi, de F. C. Yee: ambos são ambientados em um universo fantástico, cada um com suas particularidades e, embora não sejam estilisticamente inovadores, apresentam seus próprios desafios. Ainda que a fantasia seja considerada um gênero “menor”, especialmente aquela destinada ao público jovem, escrever uma boa história do tipo não é tarefa fácil – e tampouco é traduzi-la.

Em primeiro lugar, universos fantásticos quase sempre trazem consigo vocábulos próprios para designar pessoas, lugares, objetos, fenômenos e práticas, como magia, por exemplo. Quando se trata de antropônimos e topônimos, o procedimento mais comum nas traduções brasileiras, ao menos nas mais recentes, é o de mantê-los como no texto original, salvo algumas exceções. No caso de Nocturna, os nomes de personagens permaneceram os mesmos, mas a maior parte dos nomes de lugares foi traduzida ou adaptada, opção que considerei acertada por parte da tradutora, em parte por serem acompanhados pelo uso de gentílicos. Com exceção do reino onde se passa a história – Castallan, cujos cidadãos são chamados, tanto em inglês como em português, de castallanos, gentílico que funcionou perfeitamente em nossa língua devido à sua origem obviamente derivada do espanhol castellano, de sufixo igual ao do português castelhano – os nomes de outras localidades e seus respectivos gentílicos exigiam alterações para que funcionassem aqui. O reino inimigo de Castallan é chamado, no original, de Englass e seus habitantes, de englassen. Como a referência aqui é, claramente, a Inglaterra (em inglês, England), considerei adequadas as traduções propostas: Inglésia e inglésios, respectivamente. Manteve-se a associação que a autora certamente buscava sugerir aos leitores. Bastante diferente – e curiosa – foi a solução encontrada pela tradutora para o nome do reino de Uppskala. Em português, ele foi nomeado de Sofistícia, gentílico sofisticiano. Além de possuir boa sonoridade, a terminação “-cia” do nome é evocativa de outros topônimos, como Galícia, Grécia ou Croácia, evitando estranhamentos.

Além dos topônimos mencionados, acredito que é importante também comentar a tradução dos nomes dados às diferentes regiões da capital de Castallan, a cidade de San Cristóbal. Ela é dividida em cinco anéis, alguns dos quais possuem nomes bastante peculiares, associados à classe social de seus habitantes. Especificamente, cito os dois mais exteriores, que abrigam a parcela mais pobre da população: The Pinch e The Bash, traduzidos como Aperto e Tranco, respectivamente. À primeira vista, os nomes causam certo estranhamento. O contexto, no entanto, revela que são bastante adequados. Como substantivo, pinch é comumente utilizado com o sentido de “pitada” – uma pitada de sal (a pinch of salt), por exemplo. Entretanto, um outro significado da palavra em inglês é o de uma situação de estresse ou dificuldade extrema, especialmente no aspecto financeiro, que em português pode ser chamada de “aperto”. Por sua vez, bash tem o sentido de “forte batida” ou “forte golpe”. Neste caso, a tradutora tomou a liberdade de adotar um outro nome para a área. “Tranco”, assim como “aperto”, também é um termo usado para falar de uma situação difícil, penosa. Como nomeiam as regiões mais pobres da cidade, cujos moradores vivem em condições precárias, penso que a autora foi feliz em suas escolhas. Uma vez inserido no universo da história, estes nomes – simples, mas sugestivos – passam a fazer sentido e, mais importante, funcionam.

Uma outra característica de textos do gênero da fantasia é a presença de muitas cenas de ação. Ao tradutor apresenta-se o desafio de manter o dinamismo que estas passagens requerem, o que é particularmente difícil na transposição da narrativa do inglês para o português. Em parte, isso se deve ao fato de que o primeiro idioma possui um vocabulário mais rico no que se refere a termos de ação e movimento, o que exige do tradutor a capacidade de fazer adaptações não só lexicais, mas também sintáticas, e buscar alternativas para que o texto preserve seu caráter dinâmico e transmita ao leitor os acontecimentos da cena da maneira mais clara e fiel possível. Neste quesito, a tradução foi, de modo geral, bem-sucedida, pecando apenas na repetição de palavras em alguns momentos, de forma pontual. A título de exemplo, há um parágrafo em que o verbo “agarrar” aparece duas vezes, bem próximas entre si. Em inglês, a autora usou os verbos “to grip” e “to grab”. Este último poderia ter sido substituído por “segurar”. Como nos outros trechos em que isso acontece, no entanto, me parece apenas um lapso, natural e facilmente corrigível, a que todo profissional está sujeito. De resto, a tradutora foi capaz de manter o ritmo das cenas de ação sem comprometer sua clareza. Destaco em especial os capítulos finais.

Durante minha leitura, observei também um “problema” apontado por meus colegas em minha tradução de The Rise of Kyoshi. Trata-se do uso dos pronomes “dele(s)/dela(s)” em situações em que se pode utilizar, sem problemas, as formas “seu(s)/sua(s)”. É claro, nossa preocupação é sempre a de evitar a ambiguidade, o que nos leva a empregar, com frequência, os primeiros. Vejo agora que é preciso atentar para a real necessidade deste artifício de nossa língua. Não se pode dizer que o uso de “dele(s)/dela(s)” é um erro, mas trata-se de uma opção que, às vezes, compromete a sonoridade e o ritmo da frase. Mais uma vez, cabe ressaltar que é um problema de fácil correção.

Outra grande preocupação que tive em minha tradução – e que acredito ser compartilhada por todos os tradutores – é a de garantir que o texto soe natural ao leitor, que “soe fluente”. Desejamos, ironicamente, que ele não pareça traduzido. Este é talvez o fator mais importante, ou ao menos o mais aparente, para a avaliação da qualidade de uma tradução. Evitamos o chamado “tradutês” – uma linguagem artificial, pouco orgânica e estranha apesar de utilizar palavras familiares. Este é um problema comumente encontrado não só em traduções de livros, mas também em legendas de filmes e séries, particularmente naqueles de maior apelo comercial. Acredito que, por serem obras de menor prestígio do ponto de vista artístico, o cuidado dispensado a elas é, em muitos casos, menor. Isto talvez seja resultado da combinação de uma maior demanda, o que exige maior rapidez no processo de publicação, à crença de que o público-alvo desses produtos é menos crítico em relação ao que consome. Em minha experiência, vejo exatamente o oposto: esses leitores estão cada vez mais críticos e esperam uma tradução de qualidade. É claro que não se trata de uma crítica especializada, mas isso não quer dizer que deve ser ignorada. Dito isso, o “tradutês” não é um problema encontrado nesta obra. O texto nem sempre me agradou, mas atribuo isto, em grande parte, ao original. Ele apresentava problemas que não são da alçada da tradução e, portanto, não discutirei aqui.

Termino esta resenha reiterando: nós, tradutores, não devemos subestimar textos tidos como “menores” em virtude de seu gênero ou público-alvo. Como tem ficado claro ao longo das discussões realizadas ao longo do programa e demonstrado pelas resenhas de meus colegas, cada obra suscita questões que, embora diversas em sua natureza, são igualmente desafiadoras. Um bom tradutor deve encarar seu texto com respeito e seriedade, qualquer que seja seu tipo.


Maya Montayne: Nocturna. Trad. Flávia Souto Maior. São Paulo: Editora Seguinte/Companhia das Letras, 2019. 474 p.


Ana Beatriz Omuro formou-se em Letras - Português/Japonês pela Universidade de São Paulo em 2018. Atualmente trabalha com revisão e tradução, com foco em títulos voltados para o público jovem.

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