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Na expectativa de uma ascensão abstrata, o inesperado de uma alegoria mundana

Por Vera Carvalho


 

Esta resenha da tradução da obra Elevation de Stephen King foi feita na intenção de analisar as escolhas da tradutora Regiane Winarski.

O livro traz um conto fantástico que aborda o fenômeno vivido por Scott Carey, de perda de peso com características insólitas, visto que a balança mais precisa não indica qualquer alteração quando Scott se pesa com ou sem roupas. Além disso, a redução do peso não é percebida na aparência dele. Paralelamente, o conto trata da relação de Scott com um casal de vizinhas que se instalou na cidade pouco tempo antes.

Após uma primeira leitura da tradução, ficou a impressão de que faltou um fato ou detalhe importante. Pareceu haver uma fragilidade na composição do conto ou alguma questão relacionada à tradução. No cotejo entre tradução e original foi possível confirmar que a história desenrola-se muito rapidamente e parecem faltar detalhes aos personagens. Mas algumas questões tradutórias também ficaram evidentes.

A tradução é, em geral, bem cuidada, segue o pressuposto da fidelidade ao original trazendo-o para bom português, e demonstra atenção aos registros de fala, às expressões idiomáticas, aos aspectos cotidianos e culturais presentes na obra, sem descaracterizar o contexto, e de maneira autêntica.

Esse cuidado pôde ser observado na tradução muito acertada da expressão “stuffed string” (p. 3) por “varapau” (p. 9), bem como “‘I’ll be dipped in pitch’” (p. 9) que em português tornou-se: “macacos me mordam” (p. 14). Da mesma forma, a tradução de lesbians, modificada pelo autor para retratar a maneira como as crianças referiam-se às vizinhas de Scott, “lesbeans” (p. 67), foi habilmente transposta para “lésbecas” (p. 61).

Outra opção que chamou atenção foi a tradução da expressão usada pelo dr. Bob ao comentar que a esposa tinha muitas atividades fora de casa: “That woman hops around like a hen on a hot griddle” (p. 3), traduzida tal e qual: “Aquela mulher pula por aí que nem galinha em chapa quente” (p. 8). A tradução pareceu incômoda num primeiro momento, pelo fato de a palavra “galinha” carregar um sentido pejorativo entre nós, o que não se observa, na mesma proporção, com a palavra em inglês “hen”. Para evitar esse peso teria sido mais cuidadoso algo como: “aquela mulher não sabe ficar parada” ou “aquela mulher tem rodinhas nos pés”. No entanto, ao reler a expressão, pode-se concluir que a opção da tradutora foi a melhor escolha, por manter a imagem e o humor originais.

É evidente que ao longo do trabalho houve uma preocupação em manter o registro dos diálogos, que de maneira geral foram adequados e transpuseram a oralidade esperada. No entanto, houve algumas poucas passagens que escaparam a essa postura. Isso foi visível, por exemplo, antes da corrida anual, na fala: “‘Oh, you bet,’ Mike said. ‘And she’s got her old number. 19. We saved it for her special.’” (p. 71), e traduzida como: “— Ah, com certeza — disse Mike. — E ela está com seu antigo número...” (p. 64).

Nesse trecho, é possível reconhecer um aspecto mais formal dado pelo uso do pronome “seu”, o que teria sido possível evitar com a exclusão do pronome, por exemplo: “... ela recebeu o número que costumava usar”. Essa opção resolveria também o duplo sentido do mesmo pronome “seu”, que induz o leitor a pausar para entender se “seu” refere-se ao interlocutor ou à corredora que recebeu o número19.

A principal questão tradutória suscitada no cotejo com o original foi o uso de “ascensão” como tradução para o título “elevation”, em lugar de “elevação”, opção que teria sido a mais provável e, em minha opinião, a mais adequada.

Embora haja ampla interseção entre os significados de “ascensão” e “elevação”, a primeira não se ajustou plenamente ao substantivo “elevation” e, ainda menos quando se tratou do verbo “elevate”. Isso porque o verbo “ascender” é pouco usado entre nós, especialmente no registro informal. Foi possível notar que a tradutora evitou o verbo “ascender” no início do conto, mas o utilizou três vezes nas últimaspáginas.

Essa postura levou à perda das primeiras alusões ao título, alusões essas feitas ao longo de todo o conto, e utilizadas pelo autor como um artifício para agregar a ideia de progressão do fenômeno vivenciado por Scott. Isso pôde ser observado no original já na primeira vez que o personagem sente-se mais ágil, subindo e descendo os degraus do coreto, que é também a primeira menção ao verbo elevated: “his pulse was only slightly elevated” (p. 46), traduzido como: “sua pulsação só tinha se acelerado de leve” (p. 44).

Essa ideia de leveza e elevação é reforçada algumas páginas adiante, quando o autor resgata o momento e a sensação: “Lembrou-se de quando subiu e desceu correndo os degraus do coreto”, quando sentiu algo: “Não um fôlego, nem mesmo um  barato,  exatamente,  mas  algo  como  um  sentimento  de  ascensão”  (p.  82).  A expressão  “sentimento  de  ascensão”  utilizada  pela  tradutora  vai  além  do  que  foi escrito  pelo  autor:  “an  elevation”  (p.  94),  conduzindo  a  uma  emoção  inexistente nessa passagem específicado original, e omitindoa ideia de “ascensãofísica”.

Como já foi dito, o esforço em evitar o uso de “ascender” nas primeiras páginas,  não existiu no final do conto, quando o mesmo verbo foi utilizado três vezes. Entendo que a tradutora adotou essa nova postura pelo fato de que no final do conto já não pairavam dúvidas quanto à elevação física do personagem. Ou seja, mesmo que ainda soasse impreciso ou estranho no contexto, o verbo “ascender” já não soava confuso no final do conto, pois o fenômeno extraordinário que acometeu Scott já estava categoricamenteevidenciado.

Uma prova disso é a estranheza aparente em algumas passagens, por  exemplo: quando perguntado sobre como se sentia, Scott se lembra de correr, de ganhar fôlego, de que “o mundo se revelou através da glória normalmente escondida das coisas banais” e responde à pergunta de maneira quase pernóstica: “— Ascendendo” (p. 111). Em contrapartida, no original constava simplesmente: “‘Elevated’” (p.130).

Assim, como resultado da escolha de “ascensão” para o título, perdeu-se a ideia de progressão e, consequentemente, parte da sutileza com que a sensação corpórea de Scott despertou nele a disposição de ajudar as vizinhas (na superação dos problemas criados pelo preconceito contra elas na comunidade de Castle Rock). E perdeu-se também, no final do conto, a simplicidade damensagem.

Muito embora o título em português sugerisse, num primeiro momento anterior à leitura, uma situação completamente diferente, ligada à espiritualidade, o desenrolar do conto surpreendeu pela mensagem tão inesperadamente profana e, por que não dizer, tão essencial.

O esforço do personagem para se manter no chão foi também o esforço do autor para manter o conto, ainda que fantástico, no plano terreno e, assim, progressivamente, inserir a questão maior, igualmente mundana, de fazer o bem aqui e agora.

Mas é importante salientar que, embora essa escolha tenha dificultado a compreensão do desenvolvimento do original, e com certeza também o trabalho de tradução, não comprometeu irremediavelmente o entendimento da obra traduzida, nem invalidou a notória habilidade e o mérito da tradutora. Sabemos que, no Brasil, os títulos raramente são definidos pelo tradutor. Em geral, é o editor quem “bate o martelo”, já que além do conteúdo estão envolvidas outras questões editoriais que não caberia discutir aqui.


Stephen King: Ascensão. Trad. Regiane Winarski. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2019. 124p.


Vera Carvalho é graduada em História com mestrado sobre o abandono de crianças na cidade de São Paulo. Editora de conteúdo, revisora e, desde 2003, tradutora científica. Iniciou estudos de tradução literária no Programa Formativo da Casa Guilherme de Almeida e, em 2020, integrou a primeira turma do Programa de Aprimoramento. Atualmente dedica-se à tradução de obras do escritor ítalo-americano Francis Marion Crawford.

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