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Uma tradução Meiakóvski

Por Maria Leopoldina Morais Veiga


 

Ler Maiakóvski não é fácil. Entender Maiakóvski também não. Só por isso o propósito de Letícia Mei já valeria o elogio. Mas ela merece recebê-lo não só pela coragem, mas também porque conseguiu desvendar, transpor e revelar para os leitores de língua portuguesa a originalidade e a força deste poeta controverso.

O que dizer de Maiakóvski – ele era intenso! Tudo nele era impactante, seu porte alto, sua voz potente, sua vontade tenaz. O período em que viveu foi marcado por efervescência política e “todas as obras de Maiakóvski são ancoradas em seu momento histórico”[1]. Ele escolheu aderir às mudanças e sobretudo decidiu brigar por elas. Queria mudar tudo: a vida, a ordem, a poesia e o modo de amar.

“Sobre Isto” é um poema lírico inspirado no amor que viveu com Lília Brik, musa/vilã na relação com o poeta, uma mulher do seu tempo, que vinda de família abastada, abraçou os ideais revolucionários. A proposta de assumir uma atitude diante da vida em sintonia com as ideias que propagavam foi a pedra de toque que os aproximou. Engana-se quem pensa que “Sobre Isto” trata do amor de dois, para dois. O poema, embora o mais lírico entre os que compôs, fala de vários amores: familiar, social, vital. Nele, Maiakóvski critica o modo de vida da sociedade anterior e as relações humanas nos moldes antigos, propõe um novo horizonte, onde tudo, absolutamente tudo, deve ser novo. Nas passagens mais líricas, também aí, conserva a atitude militante, mantém a força e a ousadia, marca de seus poemas engajados. Afinal, um militante, um comunista como ele se propôs a ser, tinha que atuar 24 horas, tratando de todos os temas.  Esse novo jeito de amar, livre, verdadeiro, autêntico, engajado, “a nova sociedade exige uma nova abordagem do amor”[2], ainda não se pode nomear; é um “isto” a construir para depois batizar.

Apaixonar-se é desregrar-se, é lançar-se ao novo, é canalizar todas as energias ao objeto, romper fronteiras. E em época de reviravolta social, as questões de início teóricas, precisam ainda validar-se. É nesse ponto que tanto Lília quanto Maiakóvski, ambos dispostos a romper com os antigos valores e hábitos para viver um amor pleno, segundo a “nova ordem”, traíram o próprio discurso. Ele, não conseguiu livrar-se do ciúme, do sentimento de posse, marca da sociedade onde se formou, reforçado, talvez, pelo ambiente caucasiano onde nasceu. Lília, coerente com suas concepções, exerceu o direito de ser livre, inclusive para amar, mas apesar disso, nunca deixou de instigar Maiakóvski a permanecer por perto, aceitando e, muitas vezes incentivando, que ele assumisse seus compromissos de ordem material.

O campo de batalha que foi a vida de Maiakóvski, suas críticas, suas propostas, seus medos, suas lembranças, suas referências, suas paixões, sua ternura, sua energia, estão todas plasmadas nesse poema que ele considerava sua obra-prima. A tradução em português registra, conserva, carrega, entrega todos esses aspectos.

À primeira vista, russo e português parecem idiomas impossíveis de combinar, devido principalmente aos diferentes alfabetos. É uma falsa impressão. A fonética, um dos elementos base da poesia, aproxima muito os dois idiomas pela grande quantidade de vogais. Em russo há dez, das quais quatro simbolizam ditongos, e estas ainda variam segundo a tonicidade, ampliando a possibilidade de rimas e aliterações. A ocorrência de palavras no russo, de diferentes classes, com tônicas além da terceira, representa um desafio que se impõe à tarefa de   conservar o ritmo do original. Letícia explorou com competência as possibilidades dos dois “instrumentos” harmonizando-os na composição da melodia em português. “Chegou mais perto/porte de Komsomol”; “...que só resta parar/e a ferida ferir/Numa romança ultracigana se fundir”; ”...as coroinhas/do papel de parede/coroam sozinhas os parentes”; “Meus parentes?!/S-i-i-i-m -/são uns tipos diferentes”; “Sou, digamos, um urso, falando curto e grosso.../Mas são possíveis os versos.../Esfolam até o osso?!”; “Os versos/e os dias já não têm a mesma sorte./Congelam as pedras./Arrepio de morte.”; “/Lanço-me no gorjeio,/pela escala musical/Os olhos em cheio/no alvo final!”; “Para desculpar o abuso/o patrão explica aos clientes:/- É russo! –“; “Ficou biruta!/Somos prostitutas.”; “Levanto à sombra do Sena,/uma cinza cena de cinema”.

Em relação à forma a distância é maior. A especificidade e prefixação dos verbos, a prolixa adjetivação de substantivos e advérbios e a frequência de palavras polissílabas, dificultam. Mas também neste quesito a tradução de “Sobre Isto” conseguiu quase empatar, considerando-se, neste caso, o empate como o resultado ideal, a representação do ajuste estreito, sem sobras. Driblando as dificuldades, Letícia fez jus à sua proposta tradutória, de “recuperação das marcas estilísticas do original. Marcas que permitem perceber não apenas o caráter de vanguarda do poeta, sua relação com a escrita e suas convenções, mas também a flutuação do estado de espírito de Maiakóvski ao escrever”.[3]  Representante do Futurismo russo, Maiakóvski usa e abusa de neologismos, composições que unem variadas classes de palavras, para acumular força, expressar-se de maneira sintética, cortante, causar impacto, obrigar a pensar de outro modo. Este recurso, marca do poeta, cujo nome, ironicamente é também uma composição - Vlad, do verbo vladiêt (dominar) + i (e) + mir (mundo) - ao mesmo tempo que se põe como um enorme problema, abre ao tradutor a oportunidade de criar, de exercitar o conceito de “transcriação” inaugurado por Haroldo de Campos. Essas palavras inventadas apresentam-se ao tradutor, e em menor medida também ao leitor, como momentos de contato. Para vertê-las é preciso primeiro “esquartejá-las”, captar-lhes o sentido, para logo “resolvê-las” e reproduzir a fusão. Cabe destacar o cuidado com que a tradutora se dispôs a explicar, em notas, tanto o “esquartejamento”, que pode servir inclusive ao leitor de russo, quanto as razões que nortearam as suas “soluções”. O leitor precisa também “experimentar” os neologismos, não basta lê-los, é preciso entendê-los, descobri-los. Eis alguns exemplos: “...bandeirando a terra com o fogo sedescarlate” (seda+escarlate); “com caninos minha aparência ursifiquei” (fiz-me urso); “febrilizo (sinto febre) na almofada gelada”; “ensobriou (ficou sóbrio) e se mandou”; “e fende as cabeçadormecidas” – ou dormentestas, opção preterida registrada na nota); “num triunfo clariflamejanteetc.

“Sobre Isto” traz inúmeras referências: a obras literárias, a escritores, a lugares e a muitas ruas de Moscou. A tradução explica, detalhadamente, em notas, cada referência. Durante a leitura, principalmente tratando-se de poesia, o vai-e-vem do texto às notas, pode representar um incômodo e, talvez, seja para o leitor comum, o único senão. Mas se considerarmos que esta tradução foi defendida como dissertação de mestrado, as notas certamente representaram, para os avaliadores, um diferencial, que enriquecem a compreensão, aportam informações reveladoras e são mérito da tradutora.

E por fim, a tradução traz também uma seleção de cartas, bilhetes trocados entre Maiakóvski e Lília durante os dois meses que se propuseram a ficar afastados “dar um tempo”, como se diria hoje em dia, para depois, talvez, resgatar a relação, propósito que não vingou. As cartas de Maiakóvski revelam uma curiosidade: o mestre da palavra, aquele que tece com elas um jogo consciente e preciso, escreve cartas e bilhetes em desacordo com a norma culta. Mas isso, ao invés de desmérito, revela um poeta humano, vulnerável aos desgovernos do amor em contraponto com a idealização do artista.

Maiakóvski é grande. Esta tradução fez jus a ele. É uma tradução, à maneira do poeta, Meiakóvski.


Vladimir Maiakóvski: Sobre Isto. Trad. de Letícia Mei. São Paulo: Editora 34, 2018; 239 p.

[1] “Sobre Isto”, posfácio, Letícia Mei, pág. 108, Ed. 34, São Paulo, 2018.

[2] Idem, pág. 115.

[3] Idem, pág. 8.


Maria Leopoldina Morais Veiga, paulista, morou na ex-União Soviética e na Rússia pós-soviética de 1986 a 1993. Graduou-se em Jornalismo pela Universidade Estatal de Rostov-sobre-o-Don/Rússia. É professora de russo, espanhol e português para estrangeiros. Concluiu o Programa Formativo para Tradutores Literários da CGA em 2019 e a primeira edição do Programa de Aprimoramento em Tradução Literária em 2020.

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