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Entrevista com Christine Röhrig

“Fico feliz em poder traduzir textos que levem as crianças a pensarem por si mesmas”

Entrevista com Christine Röhrig, tradutora do original alemão de Se os tubarões fossem homens, de Bertolt Brecht, com ilustrações de Nelson Cruz.


 

Por Danielle Mendes Sales

 

Danielle Mendes Sales: Como foi a ideia de publicar Se os tubarões fossem homens no Brasil? Você ofereceu o livro à editora ou a Olho de Vidro fez o convite?

Christine Röhrig: Não, a ideia foi do editor, o Marcelo. Ele me procurou depois de ter assistido à peça Galileu Galiei, do Brecht, traduzida por mim e encenada pela atriz Denise Fraga.

Você já conhecia a obra de Brecht antes de traduzir o livro. Acredita que isso tornou seu trabalho de tradução mais tranquilo em algum sentido?

Sim. Fui uma das editoras da coleção "Teatro Completo de Brecht", publicada no Brasil pela extinta editora Paz e Terra. Além de editar, traduzi algumas das peças da coleção.

Levando em consideração que este é um livro para o público infanto-juvenil, houve algum tipo de "cuidado especial" da sua parte durante o processo tradutório?

Na verdade, não (risos). Penso que este texto se adequa a todas as idades e que cada um absorve dele o que estiver ao alcance de seu repertório. Gosto de pensar que é sempre mais frutífero aproximar o leitor do texto que o texto ao leitor.

Quando você traduz para crianças, quais os principais fatores que tem em mente?

Penso sempre nos conteúdos dos quais as crianças podem se apropriar. Procuro tornar o texto fluente, mas não sou a favor de simplificações.

Antes de traduzir esta obra, você traduziu contos dos irmãos Grimm para a Cosac Naify. Você já traduziu outras obras para crianças além destas? Como foram essas experiências?

Sim, já traduzi diversas obras para crianças, entre elas, O anjo da guarda da vovó, de Jutta Bauer, O senhor raposo adora livros, de Franciska Biermann, e o Bambi original de Felix Salten que foi publicado pela Cosac e será reeditado pela Companhia das Letras. Adoro esse universo da literatura infanto-juvenil. Também já escrevi um livro chamado O sorriso de Ana, publicado pela Companhia das Letrinhas. Além disso, fui editora de literatura infantil e juvenil na Cosac Naify, onde conheci o incrível ilustrador Nelson Cruz.

Acredita que sua experiência como autora de livros infantis a auxiliou na tradução desta obra? Como?

Sim, muito. Eu sempre gostei e me diverti muito com a literatura infanto-juvenil. Gosto muito de histórias desde criança, com meus pais e avós sempre me contando histórias. Sempre gostei muito de contar histórias para meus filhos. Adoro histórias desde criança. Sou uma pessoa que adora histórias. Os livros infantis sempre ocuparam um espaço grande na minha vida. Escrever para crianças e jovens é uma coisa que gosto muito de fazer. E, sim, isso ajuda muito na tradução, porque a gente encontra uma linguagem, um ritmo, uma cadência que é diferente do que quando se escreve para adultos. Parece que tem mais graça, pois as crianças e jovens são mais abertos, de certa forma. Eles não têm uma crítica tão forte de certa forma, talvez. Você pode ser mais ousado. Em geral, a literatura infantil é mais engraçada e as coisas que acontecem nela são mais inesperadas. Por isso escrever meu ajuda muito. Porque encontro justamente essa narrativa para esse público que é tão especial, que não tem as mesmas opiniões formadas sobre tudo. São como esponjas, abertos para novidades.

Há alguma particularidade da língua alemã que seja difícil de traduzir para o português, principalmente pensando no leitor-criança?

Várias. É como diz o Caetano Veloso: se você tiver uma ideia incrível, é melhor fazer uma canção, porque está provado que só é possível, filosofar em alemão. A língua alemã tem uma característica que dificulta a tradução para outra língua, que é a de poder juntar palavras e formar uma nova, um novo conceito.

Em termos de contexto, você precisou lidar com alguma questão cultural durante esta tradução?

Não diretamente, mas é evidente que estamos passando por um período muito perigoso de censura velada. Livros importantíssimos estão sendo banidos da escola. Nesse sentido, eu fico muito feliz em poder fazer parte dessa "resistência" e de traduzir textos que levem as crianças a pensarem por si mesmas e a tirarem suas próprias conclusões a respeito de questões polêmicas.

Durante a tradução, você teve acesso às ilustrações? Elas contribuíram para o seu processo tradutório?

Não, somente depois de entregar a tradução é que eu vi as ilustrações, mas adorei. E elas me inspiraram a escrever a peça infantil chamada Bertoldo, o tubarão que queria ser gente, baseada nessa história do Brecht, que ficou em cartaz no Sesc e na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo.

No livro, você diz que traduzir a obra de Brecht “é um desafio, um aprendizado e, sobretudo, um grande prazer”. Você poderia nos contar um grande desafio dessa tradução? E que aprendizado foi tirado dessa experiência?

Sim, um desafio em razão da dificuldade de transpor as ideias de Brecht com a máxima precisão, um aprendizado porque Brecht é um autor que ainda hoje faz todo sentido. Suas ideias e suas propostas sempre me levaram à reflexão e a descobertas de coisas que eu não havia penado antes, e um prazer porque é um autor que admiro muito e que, de tanto lidar com a obra dele, já me é bastante familiar.


Christine Röhrig nasceu e vive em São Paulo. Formada em Jornalismo, já trabalhou em algumas editoras. Traduziu diversos textos literários e peças teatrais de autores alemães, como irmãos Grimm, Johann Wolfgang von Goethe e Bertolt Brecht. Como autora de livros infantis, escreveu o livro O sorriso de Ana e a peça de teatro Mozart apaga a luz.

Danielle Mendes Sales é bacharel em Letras, Tradutor e Intérprete, Inglês e Português, além de licenciada em ambas as línguas. Fez mestrado em Literatura Infantil e Juvenil na Universidade Autônoma de Barcelona e atua no mercado editorial há mais de vinte anos. Em 2020, participou da primeira turma do Programa de Aprimoramento em Tradução Literária da Casa Guilherme de Almeida.

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