guilherme
programação
museu
educativo
tradução literária
cinema
publicações
bancos de dados
serviços
expediente edição atual  edições anteriores

Tradução de tragédia: acribia e forma inteligível

Tradução de tragédia: acribia e forma inteligível
Método histórico em Tucídides e método de traduzir tragédia

 


Por Jaa Torrano

 

Na seção intitulada “Metodologia” de sua História da Guerra do Peloponeso, Tucídides usa duas vezes a palavra “acribia” (akribeía, “exatidão”) para se referir à modalidade de verdade visada por sua investigação histórica. Aí expõe as etapas de seu método de levar adiante a investigação e alcançar a verdade dos discursos pronunciados por representantes de cidades ou de facções antes e durante a guerra e a verdade dos fatos mesmos ocorridos nessa guerra.

Quanto aos discursos, o método de reconstituí-los consiste em estabelecer “como me parecia que cada orador teria falado o que cabia sobre as situações sucessivas, atendo-me o mais próximo possível do sentido geral das palavras realmente pronunciadas” (TUC. XXII, 1).

Portanto, o historiador ao investigar procura o aparente e necessário nexo que entrelaça o falante, sua fala, sua situação e seus ouvintes. Tal nexo, pois, produz e unifica o “hipotexto” da História da Guerra do Peloponeso. “Entendo por hipertextualidade toda relação que une um texto B (que chamarei hipertexto) a um texto anterior (que, naturalmente, chamarei hipotexto) do qual ele brota de uma forma que não é a do comentário.” (GENETTE, 2010, s. p.).

Quanto às ações praticadas na guerra, o método aplicado a elas consiste em “registrar não as que conhecia por uma informação casual, nem segundo conjectura minha, mas somente aquelas que eu próprio presenciara e depois de ter pesquisado a fundo sobre cada uma junto de outros, com a maior exatidão (akribeíai) possível.” E o historiador continua: “Muito penoso era o trabalho de pesquisa, porque as testemunhas de cada uma dessas ações não diziam o mesmo sobre os mesmos fatos, mas falavam segundo a simpatia por uma ou por outra parte ou segundo as lembranças que guardavam.” (TUC. XXII, 3). Assim, no registro das ações, o trabalho de pesquisa consiste em procurar o nexo aparente e necessário entre as próprias lembranças e os relatos alheios de modo a tornar provável o registro de umas e de outros. Lembranças próprias e relatos alheios neste caso constituem o “hipotexto” – no sentido antes definido – da História da Guerra do Peloponeso.

Além disso, podemos considerar “arquitexto” a composição e organização dos discursos em forma de “antilogias”, discursos opostos argumento por argumento, bem como os expedientes tomados aos poemas épicos e às tragédias na elaboração das narrativas. Consideramos, pois, “arquitexto” da História da Guerra do Peloponeso as formas de composição e organização do texto comuns a outros gêneros literários, casos em que ocorrem  a intersecção e a coparticipação entre diferentes gêneros literários.

Com esses “hipotextos” e “arquitextos”, o historiador trata de construir um relato da guerra que permita a seus leitores percorrer sob diversos pontos de vista as diversas ocorrências e situações da guerra, de modo que seus leitores possam por si mesmos verificar os aparentes e necessários nexos que reconstituem os diversos discursos proferidos antes e durante a guerra e as diversas narrativas das ações praticadas na guerra, e assim possam por si mesmos constatar e confirmar a “exatidão” (akribeía, “acribia”) do relato apresentado na História da Guerra do Peloponeso.

Vejamos agora como essa acribia, que enfim se comprova na cooperação entre autor e leitor, também se pode construir, verificar e comprovar na tradução de tragédia grega.

A título de comparação do método histórico de Tucídides com o método de traduzir tragédia, podemos considerar “hipotexto” na tragédia grega os elementos próprios do pensamento mítico grego tais como o repertório tradicional de nomes, noções, imagens e fábulas de Deuses e de heróis bem como a sintaxe e a dinâmica inerentes aos elementos desse repertório.

Além disso, podemos considerar “arquitexto” na tragédia grega os cantos corais, os agónes (discursos em que se opõe argumento a argumento, equivalentes às antilogias de Tucídides e dos mestres de retórica), a progressão da narrativa mediante diálogos e ainda os relatos de mensageiros com suas nuances homéricas.

Podemos considerar que na tragédia o nexo aparente e necessário que o tradutor deve reconstituir e reconstruir na tradução é a própria forma inteligível da tragédia.

Como a descrevi em trabalhos anteriores, essa forma inteligível, que deve ser reconstituída e reconstruída na tradução, é relacional e dinâmica, e reside na séptupla relação 1) entre as funções sintáticas das palavras nos versos, 2) entre essas funções sintáticas e os elementos sensíveis que a afetam, tais como paronomásias, aliterações, ritmo e medida, 3) entre ambos esses – funções sintáticas e elementos sensíveis – e os elementos inteligíveis que os informam, tais como as noções próprias da cultura grega e a dinâmica que essas noções impõem à sintaxe das imagens, 4) entre um verso e outro e assim entre os versos, 5) entre conjuntos de versos, 6) entre as partes da tragédia e 7) entre as partes e o todo da tragédia.

Para percorrer as vias e conexões da forma inteligível e deixar-se conduzir pelo dinamismo inerente a ela, o leitor deve estar informado dos constituintes tanto do “hipotexto” quanto do “arquitexto” da tragédia em questão. Nesse sentido, o estudo hermenêutico é parte integrante e solidária da tragédia traduzida.

Ao percorrer e contemplar em todo o seu alcance a forma inteligível reconstituída e reconstruída na tradução, o leitor pode contemplar por si mesmo o nexo aparente e necessário que unifica e significa a tragédia traduzida e assim se tornar contemporâneo dos valores e referências da tragédia, podendo então constatar e comprovar por si mesmo a acribia da tradução. Pode-se, então, dizer, pois, que o leitor da tragédia traduzida se torna destarte contemporâneo dos Deuses, Numes, heróis e concidadãos da tragédia grega clássica.

Se o que já dissemos basta para explicar o sentido funcional e mostrar a função semântica da acribia e da forma inteligível na tradução da tragédia, exemplifiquemos uma e outra com excertos de nossa tradução de Édipo em Colono de Sófocles.

Ao contrário da primeira cena da tragédia Édipo Rei, que mostra a figura magnífica de um Édipo rei salvador, quase divino, destinatário da súplica do sacerdote de Zeus, a primeira cena de Édipo em Colono mostra a figura miserável do ancião cego, mendicante, banido e erradio, que depende do favor alheio para comer e para saber onde se encontra. No primeiro verso a interpelação do ancião cego à filha Antígona e no terceiro verso sua referência a si mesmo com o nome Édipo já identificam as personagens; em resposta ao pai, Antígona descreve o lugar aparentemente sagrado, situa-o na proximidade de Atenas e anuncia a aproximação de um morador local.

Na segunda cena, quando o morador revela que o lugar é consagrado às pavorosas Deusas filhas de Terra e Trevas chamadas (por antífrase) Eumênides (“Benévolas”), o ancião cego, aparentemente desvalido, não só encontra o seu lugar, mas recupera o seu poder tanto de decisão do seu destino (O.C. 45) quanto de barganha com o rei local (O.C. 73).

Na terceira cena, de novo a sós com a filha, Édipo faz uma prece às “Rainhas terríficas” falando em nome de Deus Apolo e identificado com o Deus por vaticínios divinos que em parte se cumprem nesse momento nesse lugar (O.C. 84-110). Nessa súplica de Édipo às Deusas inicia-se a transferência de Édipo do domínio de Apolo para o domínio dos Deuses ctônios Erínies, Perséfone e Hades, dito Zeus subtérreo. Tendo a primeira tragédia Édipo mostrado que toda a vida de Édipo se resume numa cratofania do Deus Apolo, nesse trânsito de um a outro domínio explicita-se a unidade enantiológica de Apolo e das Erínies, na qual os opostos tanto se excluem quanto se implicam, de modo a integração de Édipo nos poderes ctônios ser a consumação da vida de Édipo como cratofania de Apolo.


SÓFOCLES – Édipo em Colono.

Tradução de Jaa Torrano segundo texto de H. Lloyd-Jones e N. G. Wilson.

[PRÓLOGO (1-116)]

 

ÉDIPO:

Filha de cego ancião, Antígona, a que
lugar viemos ou à urbe de que varões?
Quem ao errante Édipo no dia de hoje
acolherá com as dádivas escasseadas,
ao pedir pouco e do pouco ainda menos      5
obter, mas sendo para mim o bastante?
Paciência dores me ensinaram, o longo
tempo convivente e terceiro a nobreza.
Mas, ó filha, se avistas algum assento
na passagem ou no recinto dos Deuses     10
para-me e senta-me para que saibamos
onde estamos. Forasteiros aprendamos
dos nativos e o que ouvirmos façamos.

ANTÍGONA:

Pai desventurado Édipo, torres que
coroam urbe, assim as vejo, longe.             15
É sacro este lugar, supõe-se, pleno
de laurácea, oliva e videira, denso
destes voláteis cantores rouxinóis.
Dobra as pernas nesta rude pedra,
longa via fizeste para um ancião.                20

ÉDIPO:

Senta-me, pois, e preserva o cego.

ANTÍGONA:

Faz tempo não devo aprender isso.

ÉDIPO:

Podes dizer-me onde é que estamos?

ANTÍGONA:

Conheço Atenas, mas o lugar não.

ÉDIPO:

Isso nos diziam todos os caminhantes.        25

ANTÍGONA:

Devo procurar saber que lugar é este?

ÉDIPO:

Sim, filha, se há nele algum habitante.

ANTÍGONA:

Habitado é, mas parece não precisar,
pois aqui vejo um varão perto de nós.

ÉDIPO:

Está vindo para cá e se aproximando?         30

ANTÍGONA:

Já está presente e o que te é oportuno
dizer, diz-lhe, porque o tens defronte.

ÉDIPO:

Hóspede, ouvi desta que vê por mim
e por si que nos vens favorável vigia
do que ainda não podemos explicar.             35 

ESTRANHO:

Antes de outra questão, retira-te daí
pois ocupas lugar que é ilícito pisar.

ÉDIPO:

Que lugar? A que Deus se consagra?

ESTRANHO:

Intocável e inabitável, pois pavorosas
Deusas o têm, filhas de Terra e Trevas.          40

ÉDIPO:

Com que santo nome eu as invocaria?

ESTRANHO:

As que tudo veem Eumênides, o povo
aqui as diria, mas outros nomes alhures.

ÉDIPO:

Que recebam propícias o suplicante
que deste assento eu não sairia mais!            45

ESTRANHO:

Que dizes?

ÉDIPO:

O sinal da minha sorte.

ESTRANHO:

Não tenho a audácia de te remover
sem a urbe antes de expor o que fazes.

ÉDIPO:

Por Deuses, hóspede, não me desonres,
a este errante, no que te suplico dizer.             50

ESTRANHO:

Instrui e não serás por mim desonrado.

ÉDIPO:

Qual é este lugar onde agora estamos?

ESTRANHO:

Tudo o que sei ao me ouvires saberás.
Todo este sítio é sagrado. O venerável
Posídon o tem e ainda o ignífero Deus             55
Titã Prometeu. O ponto que pisas desta
terra se chama umbral de brônzeos pés,
baluarte de Atenas. Os campos vizinhos
proclamam ter o cavaleiro Colono por
seu fundador e deste emprestam nome            60
comum de todos os assim denominados.
Tais tens estes aqui, hóspede, honrados
não no renome, mas antes no convívio.

ÉDIPO:

Decerto moram alguns nestes lugares.

ESTRANHO:

De fato, e deste Deus tomam o nome.              65

ÉDIPO:

Eles têm rei, ou a palavra é do povo?

ESTRANHO:

O rei na cidade exerce este governo.

ÉDIPO:

Quem é o rei da palavra e da força?

ESTRANHO:

Chama-se Teseu, filho do pai Egeu.

ÉDIPO:

Algum núncio vosso poderia ir a ele?                70

ESTRANHO:

Para dizer-lhe algo, ou fazê-lo vir?

ÉDIPO:

Para ter muito se me der um pouco.

ESTRANHO:

Que auxílio virá de um varão cego?

ÉDIPO:

Quanto lhe disser direi clarividente.

ESTRANHO:

Sabes, hóspede, como não errar? Já                75
que és nobre, qual se vê, sem teu Nume,
espera aqui, onde te vi, enquanto eu
irei aos daqui mesmo, não da cidade,
dizer-lhes isto. Eles decidirão se deves
permanecer aqui, ou retomar a viagem.             80

ÉDIPO:

Ó filha, o nosso hóspede já se foi?

ANTÍGONA:

Já se foi, tudo está tranquilo, pai,
podes falar, que estou a sós perto.

ÉDIPO:

Rainhas terríficas, já que primeiro
nesta terra em vossa sede sentei,                      85
não ignoreis Febo e a mim, ele
ao me prever todos aqueles males
falou desta pausa após longo tempo
nesta última região, onde das Deusas
veneráveis teria pouso e hospedagem,              90
aí findaria minha desventurada vida,
instalado daria ganho aos acolhedores
e ruína a quem me expulsou e baniu.
Anunciou que disso me viriam sinais,
ou sismo ou trovão ou clarão de Zeus.               95
Agora reconheço que neste percurso
não há como sem vosso auspício fiel
eu viesse a este recinto, as primeiras
não vos encontraria em meu caminho
eu sóbrio a vós sem vinho, nem teria                100
este venerável rude banco. Ó Deusas,
dai-me conforme vaticínios de Apolo
já o término da vida e algum desfecho,
se não pareço muito pouco por servir
sempre às dores extremas de mortais.              105
Eia, ó doces filhas de prístinas Trevas,
eia, ó da suprema Palas denominada
Atenas, a mais honrada urbe de todas,
tende dó da triste imagem do varão
Édipo, pois já não é a prístina figura.                 110

ANTÍGONA:

Silêncio! Alguns velhos idosos vêm
a caminho, supervisores de tua sede.

ÉDIPO:

Silenciarei. Oculta-me fora da via
no recinto até que possamos saber
que palavras dirão, pois é do saber                    115
que depende a precaução das ações.

 

REFERÊNCIAS:


“Cinco tipo de transtextualidade, dentre os quais a hipertextualidade” In: GENETTE, Gérard. Palimpsestos: a literatura de segunda mão. (s.ed.). Trad. Luciene Guimarães. Belo Horizonte, Edições Viva Voz, 2010.

TUCÍDIDES. História da Guerra do Peloponeso. Trad. Anna Lia Amaral de Almeida Prado. São Paulo, Martins Fontes, 2008.

SOPHOCLIS Fabulae. H. Lloyd-Jones, N. G. Wilson (ed.). Oxford University Press, 1990.


Jaa Torrano é professor titular do departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH-USP, onde leciona língua e literatura grega. Autor de O sentido de Zeus – O mito do mundo e o modo mítico de ser no mundo e A esfera e os dias – Poemas, também publicou, entre outros, os estudos e traduções: Ésquilo – Tragédias, Ésquilo – Orestéia, Eurípides – Bacas, Ésquilo – Prometeu prisioneiro e Hesíodo – Teogonia.

 

voltar
HORÁRIO DE FUNCIONAMENTO DO MUSEU
Agendamento de visita (grupos): 55 11 3672-1391 | 3868-4128
Visitação: Quarta a sábado, das 12h às 16h

CASA GUILHERME DE ALMEIDA
CENTRO DE ESTUDOS DE TRADUÇÃO LITERÁRIA

55 11 3673-1883 | 3803-8525 | contato@casaguilhermedealmeida.org.br
Museu: R. Macapá, 187 - Perdizes | CEP 01251-080 | São Paulo
Anexo: R. Cardoso de Almeida, 1943 | CEP 01251-001 | São Paulo

OUVIDORIA