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Três modos de recepção dos clássicos

C. Leonardo B. Antunes [1]


RESUMO: Apresentarei três exemplos dos trabalhos que venho desenvolvendo em frentes diferentes, mas correlatas: uma tradução poética da Ilíada usando decassílabos duplos; um coro do Édipo Tirano, traduzido a partir de uma abordagem de recriação radical; e um poema próprio, inspirado no conflito entre Aquiles e Agamêmnon, poema esse que irá compor o épico Miríade, que estou criando.

PALAVRAS-CHAVE
: Ilíada, Édipo Tirano, tradução poética, recriação radical, recepção.

ABSTRACT
: I will present three examples of the works that I have been developing on different, but correlated, front lines: a poetic translation of the Iliad using double “decassílabos”; a chorus from Oedipus Tyrannus, translated through radical recreation; and a poem of my own, inspired on the conflict between Achilles and Agamemnon, a poem that will be part of the Myriad, an epic that I am creating.

KEYWORDS
: Iliad, Oedipus Tyrannus, poetic translation, radical recreation, reception.


Aproveitando o tema proposto, tradução e também recepção dos clássicos via produção poética própria, apresentarei três exemplos dos trabalhos que venho desenvolvendo em frentes diferentes, mas correlatas.

Em primeiro lugar, trago um exemplo do meu projeto mais recente: uma tradução da Ilíada em decassílabos duplos. A proposta do projeto é bastante simples: produzir uma nova tradução da Ilíada, que fique num entre-lugar (a meu ver ainda não ocupado) situado à meia distância das excelentes traduções que já temos: de um lado, as poéticas; de outro, as prosaicas. Os dois lados têm contribuições excelentes para a recepção do texto homérico, entrelaçando-se numa teia de possibilidades de leituras e de experiências estéticas da épica antiga. Porém, parece-me que há esse entre-lugar, ainda não preenchido, para uma tradução com preocupações estéticas (à semelhança das traduções poéticas) e que seja ao mesmo tempo clara e legível (como as traduções prosaicas). Essa é minha motivação para trazer a público mais uma tradução de uma obra já tão traduzida.

O método escolhido, como já mencionado, é o de traduzir cada hexâmetro dactílico de Homero por dois decassílabos vernáculos. Antes de chegar a essa solução, testei outras. Experimentei, primeiro, um verso bárbaro de 14 sílabas, que me parece ser a extensão adequada para verter Homero; porém, achei que o verso não soava bem, tampouco natural. Em seguida, traduzi um trecho usando um hexâmetro dactílico com possibilidade de troqueu para emular os espondeus gregos, como Rodrigo Gonçalves e Guilherme Gontijo Flores têm usado (GONÇALVES e GONTIJO FLORES, 2017), e semelhante ao que Marcelo Tápia propôs em seu doutorado (FERNANDES, 2012); porém, achei que as soluções a que eu próprio estava chegando não distariam suficientemente de Carlos Alberto Nunes para justificar o trabalho. Por fim, inspirado na solução de André Malta (2000 e 2006), que traduziu cantos da Ilíada usando duas redondilhas para emular o hexâmetro homérico, decidi usar dois decassílabos. Há pelo menos quatro vantagens no uso dessa solução: 1) o decassílabo é o metro canônico da épica em Português; 2) dois decassílabos oferecem espaço suficiente para dar conta do conteúdo semântico, dentro de um trabalho também preocupado com a estética, sem precisar de inversões, termos despropositadamente raros e outras artificialidades que comprometessem a clareza; 3) a articulação interna do hexâmetro dactílico, dividido em dois hemistíquios, em muitos casos já organiza o conteúdo do verso em duas partes, que ficam recriadas em Português em dois versos distintos; 4) poderia usar decassílabos quantos fossem necessários, como fez Odorico (só que, ao contrário dele, expandindo a linguagem em vez de concentrá-la), mas preferi manter a correspondência 2 para 1, pois ela facilita a citação e a consulta de versos em relação ao texto grego.

Essa é a proposta, então, em termos gerais. Seguem os primeiros 21 versos do Canto I, que, na tradução, se tornam 42.


Ira de Aquiles, filho de Peleu,

deusa, concede que eu celebre em canto,

ira fatal que aos acaios impôs

uma miríade de sofrimentos;

muitas almas de força e valentia

fez descender para a casa de Hades;

almas de heróis cujos corpos sem vida

relegou como espólio para os cães

e de banquete às aves de rapina.

Assim cumpria-se o plano de Zeus

desde o primeiro momento em que os dois

por força da discórdia se apartaram,

o Atrida, soberano de varões,

e o filho de Peleu, divino Aquiles.

Quem dentre os deuses incitou os dois,

por meio da discórdia, a contenderem?

Foi o nascido de Leto e de Zeus,

que, movido por raiva contra o rei,

fez com que sobre as tropas avançasse

terrível peste – o povo perecia –

pela desonra que sofrera Crises,

o sacerdote, por ação do Atrida.

Isso ocorreu no dia em que ele fora

até as rápidas naves aqueias

a fim de libertar a sua filha,

carregando um resgate imensurável

e tendo em suas mãos sinais divinos,

lauréis de Apolo, flecheiro infalível,

entrelaçados em seu cetro de ouro.

Pedia para todos os aqueus,

mas sobretudo para os dois Atridas,

comandantes de povos e varões:

"Filhos de Atreu e vós outros acaios,

guerreiros de cnêmides bem-feitas,

que para vós concedam os divinos,

possuidores de olímpicas moradas,

saquear a priâmea cidadela

e ter um bom retorno para casa.

Mas libertai minha filha querida,

aceitando os resgates que vos trago.

Sede tementes ao filho de Zeus,

o arqueiro de infalível mira, Apolo."


Na sequência, apresento, o primeiro coro do Édipo Tirano. Nesse caso, adotei a abordagem da recriação radical, criando primeiro uma melodia para o grego, respeitando a duração das sílabas poéticas, e depois realizando uma tradução que coubesse nesse ritmo e nessa melodia. É um tipo de trabalho que venho realizando desde 2005, muito por apoio de Marcelo Tápia, que me estimulou quando lhe apresentei as primeiras melodias que compunha àquela época. O próprio Tápia já se aventurava também em trabalhos semelhantes, que vem realizando desde então. Esse mesmo tipo de procedimento também tem sido usado com grande êxito pelo Pecora Loca, conjunto musical liderado por Rodrigo Gonçalves e Guilherme Gontijo Flores.

Segue, então, o primeiro coro do Édipo Tirano (vv. 151-215):[2]

Doce mensagem de Zeus, quem és tu que da pluridourada

Pitó vieste à esplêndida

Tebas? Tremo em temor: coração pelo medo agitado.

Iéio Délio Peã!

Pasmo diante de ti, sem saber se me é

nova ou de mais estações que enfim tu me cobras a dívida.

Diz-me, ambrosíaca voz que nasceste à dourada Esperança!

 

Chamo-te, filha de Zeus, por primeiro, ambrosíaca Atena

com tua irmã, a sísmica

Ártemis que se assentou em seu cíclico trono na praça

e Febo certeiro também. Oh!

Tríplice abrigo da morte, revinde-me!

Caso num dia anterior em prol da cidade, solícitos,

vós afastastes o ardor do flagelo, de novo mostrai-vos!

 

Ai! Incontáveis são os males que eu

Nem na mente eu encontro uma arma

para a defesa; nem vejo crescerem os

frutos mais da terra famosa; nem filhos

da dor do parto, gritante, às mulheres resultam.

Tu podes ver um depois doutro qual pássaro alado,

mais do que fogo invencível ir rápido

pro cais do deus poente.

 

É incontável na cidade a dor.

Jazem seus filhos sem lamento ao chão,

exalando insepultos a morte.

Jovens esposas e mães já grisalhas se

juntam com seus gritos em torno aos altares

gemendo em súplica à custa de lúgubres penas.

Lampeja o peã junto de doloríferas vozes;

nisso a áurea filha de Zeus encaminha-nos

força de bela face.

 

Ares furibundo, que sem seu brônzeo escudo agora vem

queimar-me envolvido em gritos, te suplico

de novo longe desta pátria rápido

partires ou para o grande leito de Anfitrite

ou para as inóspitas ondas

lá dos mares trácios,

pois, se algo a noite não findar,

logo o dia vem e o faz.

Ó tu, que tens poder

sobre os raios rútilos,

Zeus pai, sob o teu relâmpago o aniquila!

 

Senhor Liceu, das auritrançadas cordas do arco teu

quero ver voarem tuas indomáveis flechas,

dispostas para a ajuda junto às rútilas

chamas que Ártemis lança sobre as montanhas lícias.

Invoco o de áureas láureas,

que dá nome à terra,

purpúreo Baco de evoé,

misto às suas mênades,

para aliar-se a nós

com brilhante tocha a arder

no embate do deus sem honra dentre deuses!

 

Por fim, apresento o poema de número 002 da minha Miríade, um épico composto em torno do número 10: serão 100 histórias, cada uma com 10 estrofes de 10 versos de 10 sílabas, totalizando 10.000 versos. Como sabem, em Grego, “miríade” significa tanto um número muito grande (como dizemos “milhões”, por exemplo), como também o número 10.000. Serão histórias contemporâneas, com protagonistas variados, muitas vezes fazendo referências e apropriações clássicas.

Segue, então, o poema 002, um pastiche da Ilíada:

 

I

Otávio Augusto Motta, 33,

conhecido por todos no escritório

como "o melhor dentre os publicitários",

não lera nunca a "Ilíada" de Homero,

mas seu coach lhe havia dito a história,

que conhecera de segunda mão

por meio de um resumo no best-seller

"Liberte seu guerreiro interior:

5 macetes do heroísmo grego

para alcançar melhores resultados".


II

Por conta disso e por se ter achado

o mais perfeito duplo para Aquiles,

deixou-se finalmente acometer

pela fúria que há tempos refreava

usando psicotrópicos diversos.

Partiu para o trabalho àquele dia

deixando de tomar seu Rivotril,

cansado após três meses de projeto,

durante os quais, segundo contaria,

levou nas costas toda a sua equipe.


III

Quando o gerente veio lhe dizer,

no meio da reunião de time,

que os resultados foram muito abaixo

do que a diretoria projetara,

Otávio inicialmente apenas riu:

um riso baixo, irreverente, insano,

que foi crescendo junto à inquietude

de seus colegas e de seu gerente.

Depois o seu semblante escureceu

conforme ele se ergueu de seu assento.


IV

Com os punhos cerrados sobre a mesa

e olhar vertendo cólera incontida,

Otávio Augusto Motta, 33,

então bradou a todos o seguinte:

"De novo vem o grande sem-vergonha

tentar tomar um pouco mais de nós!

Há tempos já devia ter lhe dito

as verdades que habitam no meu peito:

jamais o vi fazendo as horas extras

que já nos fazem parte da rotina.


V

Quando eu ou algum outro dos designers

resolve um case com enorme insight

depois de muitas horas batalhando,

é dele todo o bônus de dezembro,

é dele toda a fama nas revistas.

Mas, quando, por acaso do destino

ou por capricho de um cliente chato,

o plano não se cumpre qual se espera,

é nosso todo o job que se estende,

é nossa toda a fúria dos de cima.


VI

Que mérito diria que ele tem?

Nenhum sequer, exceto ter nascido

filho do presidente desta empresa.

Não fosse o sangue azul de suas veias,

jamais teria o cargo que hoje tem.

Muito pelo contrário, pois carece

de excelência até para pilotar

a fotocopiadora ou cafeteira.

Tamanho afirmo ser o despreparo

desse homem que se diz melhor que nós.


VII

Mas basta desse tratamento injusto!

Já não mais eu me subordinarei

a alguém em muito inferior a mim!

E pelo meu iPad Pro perfaço

enorme jura, que se cumprirá:

enquanto não pagarem horas extras

e não me ressarcirem todo o bônus

que esse traste levou injustamente,

não tocarei em nada do projeto,

que, com a minha ausência, afundará.


VIII

E digo mais: enquanto não trocarem

a liderança dessa nossa equipe,

não obedecerei ao meu gerente.

Que assim se faça tudo quanto disse

ou não me chamo Otávio Augusto Motta

nem sou mais o melhor publicitário."

Por um momento, em grande desconforto,

permaneceram todos em silêncio

enquanto Otávio Augusto se sentava

de novo em seu assento junto à mesa.


IX

Depois com um sinal do seu gerente,

chegaram seguranças, que escoltaram

Otávio para fora do edifício,

aonde nunca mais logrou entrar.

Por mais que reclamasse seus direitos,

ninguém lhe deu ouvidos nem ali

nem mesmo nos processos posteriores

que moveu sem sucesso contra a empresa.

Por mais que fosse bom no que fazia,

nunca mais teve ofertas de trabalho.


X

Otávio Augusto Motta, 33,

não lera nunca a Ilíada de Homero

de fato, nem teria lucro em lê-la.

Saber de seu resumo já lhe trouxe

problemas excessivamente grandes.

Teria tido mais proveito ao certo

com um psicanalista que com coach;

com ler, em vez da Ilíada o jornal

do sindicato (a que não pertencia)

falando da reforma trabalhista.



REFERÊNCIAS

GONÇALVES, Rodrigo Tadeu; GONTIJO FLORES, Guilherme. Algo infiel – corpo performance tradução. São Paulo: n-1 Edições, 2017.

FERNANDES, Marcelo Tápia. Diferentes percursos de tradução poética como paradigmas metodológicos de recriação poética: Um estudo propositivo sobre linguagem, poesia e tradução. 2012. Tese (Doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo,São Paulo, 2012.

MALTA, André. O resgate do cadáver: o último canto da Ilíada. São Paulo: Humanitas, 2000.
1. A selvagem perdição: erro e ruína na Ilíada. São Paulo: Odysseus, 2006.

SÓFOCLES. Édipo Tirano. Tradução de Leonardo Antunes. São Paulo: Todavia, 2018.

[1] Professor de Língua e Literatura Grega na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Dedica-se atualmente a traduzir e musicar a poesia grega antiga.

[2] Performance disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=d3EvOdXZ_V8. A tradução agora encontra-se publicada pela Editora Todavia (2018).

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