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Traduzindo BAKXAI por As Bacas

Jaa Torrano[1]

Refletindo sobre a experiência de traduzir duas vezes a tragédia BAKXAI de Eurípides com o título “As Bacas”, verifiquei que o ato de traduzir tem uma quádrupla referência e, portanto, poderíamos dizer que o esforço de traduzir consiste numa quádrupla emulação: com o texto original, com os estudiosos e comentadores do texto original, com os demais tradutores do mesmo texto original e – last but not least – consigo mesmo. Qual a natureza de cada uma dessas quatro referências, e qual a interligação, senão a interação, entre elas?

A primeira referência é o texto original e a emulação neste caso consiste em reconstruir em português a forma inteligível da tragédia, de modo a reatualizar a visão de mundo trágica e assim dar ao leitor condições de tornar-se contemporâneo dos Deuses, dos Numes e dos heróis. Que é essa forma inteligível que nos dá acesso à visão de mundo trágica e nos permite alcançar a referência dos Deuses?

Essa forma inteligível é relacional e dinâmica, ela reside na séptupla relação 1) entre as funções sintáticas das palavras nos versos, 2) entre essas funções sintáticas e os elementos sensíveis que a afetam, tais como paronomásias, aliterações, ritmo e medida, 3) entre ambos – funções sintáticas e elementos sensíveis – e os elementos inteligíveis que os informam, tais como noções próprias da cultura grega, 4) entre os versos, 5) entre conjuntos de versos, 6) entre as partes da tragédia e 7) entre as partes e o todo da tragédia. Essa forma relacional e dinâmica, inteligível, é a via a ser percorrida pela inteligência da tragédia – e neste caso “da tragédia” é tanto adjunto adnominal quanto complemento nominal, ou seja, genitivo tanto subjetivo quanto objetivo – e, portanto, essa dupla inteligência da tragédia discerne e arbitra o que incluir e o que excluir do itinerário dessa via cujo percurso a constitui em sua duplicidade de objetividade e de subjetividade, subjetividade cujo sujeito não é mais somente o tradutor, mas, sim, também a tragédia mesma a ser traduzida. 

A segunda referência são os estudiosos e comentadores da tragédia e, neste caso, a emulação reside no esforço heurístico e sinóptico de superar numa apresentação sintética e concreta – poética –, a apresentação analítica e abstrata – prosaica – da tragédia em questão. Por certo, esta segunda referência resulta de uma prévia triagem, pois nem todos os comentadores são referenciais, uma vez que são prisioneiros da perspectiva de seu tempo e de sua formação e, assim, são capazes de ver na tragédia somente o que o seu próprio viés epocal e ideológico lhes permite, sendo, pois, necessária uma triagem que os selecione segundo um critério de validade e pertinência dos comentários. Ainda que impertinentes e inúteis à compreensão da tragédia, os comentários sempre interessam à história de sua recepção, mas – a meu ver – o compromisso da tradução é somente com o sentido originário da tragédia.

A terceira referência são os demais tradutores em línguas modernas, e a emulação neste caso se resolve na tentativa de descobrir a forma e os recursos pelos quais se obtém e se garante a mais abrangente síntese da mais sinóptica concretitude e, portanto, a mais mimética similaridade com a forma inteligível original no resultado da tradução. As traduções que mais se desviam desse escopo de reproduzir a forma inteligível são as que recorrem à perífrase e à adaptação. Em geral, tendem a ser perifrásicas as traduções em prosa, e adaptativas as em versos, mas os versos traduzidos, quando não buscam refletir a morfossintaxe dos originais, tendem a ser tão perifrásicos quão adaptativos.

A quarta referência é o anterior resultado da própria tradução no reiterado esforço de reproduzir a forma inteligível para tornar ainda mais transparente a visão de mundo trágica e ainda mais acessível ao leitor o que possam ser os Deuses, os Numes e a vida heroica como referências existenciais e, sobretudo, os diversos modos trágicos de interlocução do mundo. A meu ver, esta quarta referência, se não fosse uma compulsão obsessiva por uma miragem, incorporaria a pulsão de vida heroica à atividade da tradução, e assim distinguiria o tradutor compulsivo-obsessivo-heroico das modalidades de tradutor: principiante, diletante, tilintante e venal, o que não vale a pena explicitar para não disponibilizar carapuças.

Ao traduzir a tragédia BAKXAI de Eurípides, a opção de transpor o nome BAKXAI por As Bacas visa reproduzir em português o jogo metamórfico da epifania do Deus Baco, que, “mudada a forma de Deus na de mortal” (Eur. Ba. 4), manifesta-se tanto na figura de homem como chefe do seu tíaso quanto nas figuras de mulheres como integrantes do seu tíaso. A meu ver, essa variação do nome divino Bákkhos/Bákkai constitui uma imagem léxica da natureza metamórfica das epifanias do Deus e por isso deve ser preservada na tradução. Nenhum tradutor lusófono, antes ou depois de minha primeira tradução, atentou para esse valor icástico do título desta tragédia, porque suas traduções têm outros e diversos propósitos. No entanto, nesta minha segunda tradução dessa tragédia, pareceu-me imprescindível manter vernaculizado no título o nome grego em vez de substitui-lo pelo equivalente latino “bacante”. 

Além de Bákkhos (Baco), Diónysos (Dioniso) e de Brómios (Brômio), o Deus é também chamado Bakkheús (Baqueu), Bakkheîos (Báquio) e Bákkhios (Báquio). É possível que Diónysos signifique “filho de Zeus” (Diòs paîs, Ba. 1) e a etimologia moderna respaldaria a proclamação prologal do Deus, ponto básico, repetido treze vezes ao longo da tragédia (Ba. 84, 366, 417, 466, 522, 550, 581, 603, 725, 859, 1037, 1042, 1341). Brómios significa “Atroador”. Bákkhos designa o Deus, o cultor e em geral toda pessoa inspirada, e ainda o ramo empunhado pelos iniciados, e por vezes o vinho, e no feminino, as cultoras. Nessa tragédia de Eurípides, o nome do Deus aparece ainda com variações de sufixo:  Bakkheús, em que -eus é um sufixo que indica agente, e Bakkheîos e Bákkios, em que -ios é um sufixo que indica relação. O culto é chamado Bákkheuma, Bákkheusis e Bakkheía; na segunda tradução, ignorei a variação do sufixo (-ma indica resultado ou objeto da ação, -sis indica ação, e -ia indica qualidade) e vernaculizei somente a forma “Baqueia”, que usei em todos os casos. Para designar a ação do culto, há o verbo bakkheúo, que no particípio presente bakkeúon traduzi por “bacante” (Ba. 76); e no imperativo presente (bákkheue, Ba. 313) e no indicativo futuro (bakkheúseis, Ba. 343) traduzi por “sê Baco”, pois neste caso o futuro indica uma ordem dada com impaciência; bakkheuet’ aeí, “ser Baco sempre” (Ba. 807). Com sentido próximo de bakkheúo, há o verbo katabakkhioûmai, que no imperativo presente katabakkhioûsthe traduzi “debacai-vos”, valendo-me da relíquia latina decalcada no étimo grego. Com prefixo ek- em vez de katá-, o verbo ekbakkheúo: exebakkheúthe, “debacou” (Ba. 1295).

Na primeira tradução, o termo órgia, plural de órgion, verti por “trabalhos”, valendo-me do sentido usual dessa palavra nos cultos afro-brasileiros e da cognação etimológica entre órgion e érgon (“trabalho”). Mas na segunda tradução, preferi traduzir órgia por “rituais” e “ritos”, porque assim me pareceu mais imediatamente compreensível, sem compromisso com o sincretismo. Já a palavra telestás mantive traduzida por “mistérios” nas duas primeiras ocorrências (Ba. 21, 73), mas em seguida ainda traduzi também por “ritos” (Ba. 238, 260). Mantive também a tradução de mainádes por “loucas” (Ba. 52, 102, 224, 570, 601, 829, 915, etc.), dada a evidente cognação e conexão com maníais, (“loucas” por “loucuras”, Ba. 33), mainómenoi, “enlouquecendo-se” (Ba. 130), maniôdes, “louco” (Ba. 299), memenótas, “enlouquecidos” (Ba. 301), etc.

Euoî, exclamação de júbilo da festa de Baco, aportuguesou-se “evoé” desde o século XVIII. O epíteto de Dioniso, Eúios, “celebrado com euoî (evoé)”, se vernaculiza “Évio”; como adjetivo, “évio” se aplica também a objetos e localidades, no mesmo sentido de bakkhikós, “báquico”.

As duas ocorrências da importante palavra hamartía (Ba. 29, 1121) traduzi por “desacerto” em ambas as traduções. Na primeira ocorrência, Dioniso a usa para reportar como as irmãs de Sêmele entendiam a união dela com Zeus: unida a um mortal, atribuía a Zeus esse “desacerto do leito”; na segunda ocorrência, Penteu, buscando evitar morte iminente por dilaceração, a usa para descrever sua própria atitude anterior perante o Deus; entre ambas as ocorrências, intervém a justiça divina, que se dá a conhecer aos que a sofrem (cf. Ésquilo, Ag. 249-240).

Na primeira tradução, traduzi nártex por “hástea” (Ba. 113, 251, etc.); na segunda tradução, por “férula”, por dois motivos: a palavra portuguesa “férula” designa tanto essa planta quanto, por metonímia, o bastão episcopal, outrora.

Eliminei o termo “nébrida”, usado na primeira tradução, substituindo-o, na segunda tradução, por “pele de corça”, já que “nébrida” não consta nos dicionários de português, mas, ainda que sem entrada nos dicionários, não foi possível substituir e eliminar “tíaso” (thíasos) na designação do grupo báquico.

Preferi traduzir o nome da Deusa Hosía por “Licitude” (Ba. 370), e tenho traduzido o adjetivo hósios sistematicamente por “lícito”, porque há nessa noção grega de piedade um sentido de admissibilidade e de permissibilidade e, ao contrário, se diz anósios o que não se admite nem se permite. Natália Correia traduz por “Piedade”, Maria Helena da Rocha Pereira por “Reverência”, Eudoro de Sousa por “Santidade”, Mário da Gama Kury por “Devoção”, Trajano Vieira por “Pureza”, mas a meu ver nenhuma dessa soluções dá conta do sentido de estar livre de interdição e assim liberado para a graça divina (cf. Jeanne Roux, 1972, II, p. 375).

Para exemplificar o que entendo por forma inteligível e por acribia na tradução da forma inteligível, citarei e comentarei estes versos de minhas traduções, mas sem apresentar, para economizar tempo, o correspondente nas de meus predecessores.

1ª) A sapiência não é sabedoria, / ter-se por imortal também não. / Breve é a vida, e assim / quem a perseguir grandezas / não colheria o presente? Eis / modos próprios de loucos / e de quem, a meu ver, / tem malignos desígnios. / [...] / O que o povo humilde / crê e põe em prática, / possa eu acolher. (Ba. 395-402, 430-432, cf. texto de Jeanne Roux).

2ª) O hábil não é sábio, / e ter-se por imortal. / Breve a vida, por isso / quem ávido de grandezas / não colheria o presente? / Tais são modos de loucos / e, a meu ver, de malévolos. / [...] / O que vulgo pensa e pratica, / isso eu aprovaria. (Ba. 395-402, 430-432, cf. texto de J. Diggle).

 

Tò sophón (“sapiência” / “o hábil”), termo culto, próprio do pensamento técnico, designa o saber sofístico e requintado, enquanto sophía (“sabedoria” / “sábio”), palavra comum do vocabulário corrente, designa a sabedoria comum. Os versos 395-396 associam tò sophón (“sapiência” / “o hábil”) e tò te mè thnetà phroneîn (“ter-se por imortal”) na negação do predicado de sophía; excluídos da sabedoria comum, ambos são apodados de “modos de loucos e, a meu ver, de malévolos”. Ambiguamente, a loucura, que na forma beatífica é um dom de Baco aos seus cultores, aqui tem um sentido pejorativo, contraposto à sabedoria báquica, e associado à malevolência e à ganância de grandezas, implicando assim a perda dos bens presentes e da vida. Após distinguir essa sabedoria comum tanto do saber sofístico e requintado quanto da soberba aristocrática e tirânica de se crer igual aos Deuses, a nota democrática, própria da tragédia enquanto forma de educação estatal promovida pela democracia ateniense, consiste tanto na identificação dessa sabedoria comum com as crenças e práticas cultuais do “vulgo” (tò plethos ... tò phaulóteron, Ba. 430) quanto na asserção de possível aprovação do coro a tais crenças e práticas.

Observe-se que a diferença mais evidente entre a primeira e a segunda tradução é a busca de maior concisão e de maior clareza, preservadas assim a integridade icástica do verso e a acribia das noções próprias do pensamento mítico.

Naturalmente, considero a minha última tradução superior a todas as anteriores, não porque seja a melhor, mas porque as julgo segundo os critérios com que fiz a minha própria. Considero todas as anteriores o tesouro possível em tempos de penúria e um mapa muito útil por mostrar o traçado dos caminhos que passam por perto, ainda que nos deixem nos descaminhos. A todas elas, a minha gratidão e o meu reconhecimento. Antes de chegar até mim, tive que me contentar com a hospitalidade de tetos baixos e com a companhia do desterro.


TRADUÇÕES EM PORTUGUÊS

CORREIA, Natália. In: Eurípedes. Ifigênia em Áulis, Electra, As Bacantes. Porto: Civilização, 1969.

KURY, Mário da Gama. In: Eurípides. Ifigênia em Áulis, As Fenícias, As Bacantes. Rio de Janeiro: Zahar, 1993 [diversas reedições, impressas e digitais].

PEREIRA, Maira Helena da Rocha; MACHADO, Maria de Fátima M. In: Eurípides. Alceste, Andrómaca, Íon, As Bacantes. Lisboa: Verbo, 1973, p. 225-343. [Reeditado em Eurípides. As bacantes. Lisboa: Edições 70, 1992].

SOUSA, Eudoro de. In: Eurípedes. As Bacantes de Eurípides. São Paulo: Duas Cidades, 1974 [Reeditada em: Eurípides: Bacantes. São Paulo: Hedra, 2010].

TORRANO, Jaa. In: Eurípides. Bacas. São Paulo: Hucitec, 1995.

VIEIRA, Trajano. . In: As Bacantes de Eurípides. São Paulo: Perspectiva, 2003.


EDIÇÕES CRÍTICAS E COMENTÁRIOS

DIGGLE, James. Euripidis Fabulae. 3 vols. Oxford Classical Texts. Oxford University Press, 1984, 1981, 1994.

ROUX, Jeanne. Euripide Les Bacchantes. 2 vols. Paris: Les Belles Lettres,  1970, 1972.


[1] professor titular do departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH-USP, onde leciona língua e literatura grega. Autor de O sentido de Zeus – O mito do mundo e o modo mítico de ser no mundo e A esfera e os dias – Poemas.

 

 

 

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