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Oswald de Andrade: um tradutor antropófago

Edgar Rosa Vieira Filho [1]

 

Diferentemente de outros escritores modernistas, como é o caso de Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Clarice Lispector e Carlos Drummond de Andrade, entre outros, Oswald não fizera da tradução uma tarefa recorrente. Há, entretanto, críticos que afirmam ser a obra oswaldiana marcada pela tradução, não propriamente por aquela interlingual, a tradução stricto senso, mas pela tradução intralingual, que se dá entre textos escritos numa mesma língua, e também pela chamada tradução intersemiótica, que se dá entre textos constituídos de diferentes linguagens. Na elaboração crítica de Marília Garcia:

A imagem do antropófago possibilita visualizar esta relação com a tradução, e aqui utilizo o termo tradução já de forma mais ampla, não somente interlinguística, mas intralinguística e ‘intersemiótica, para usar os conceitos de Jakobson. No caso de Oswald de Andrade, é possível pensar em suas traduções e colagem feitas sobre o português dos cronistas da época da colonização (tradução intralinguística), ou em suas releituras dos movimentos modernistas europeus, como o cubismo (tradução intersemiótica). (GARCIA, 2015, p. 45).

 

A obra oswaldiana, salienta também Haroldo de Campos (1985, p. 24-25), é reconhecidamente marcada pela utilização do “ready made linguístico”, observado tanto nos seus poemas-paródias, “em que peças obrigatórias dos florilégios nacionais, como a ‘Canção do exílio’ de Gonçalves Dias ou ‘Meus oito anos’ de Casimiro de Abreu, são reescritas com um sem-cerimônia lustral”, como nos seus recortes e remontagens dos relatos dos primeiros cronistas, nos quais textos históricos “se convertem em cápsulas de poesia viva, dotadas da alta voltagem lírica ou saboroso tempero irônico”.

Não seria de todo inapropriado afirmarmos, assim como pontua a pesquisadora Marília Garcia (2015, p. 45)e sugere o crítico Haroldo de Campos, que a tradução intralingual, ou a reescrita da apropriação, possam ser tomadas como componentes significativos da poética do escrever de Oswald de Andrade. Propõe-se então, por meio da apreciação da sua prática tradutória interlinguística, tentar compreender a poética do traduzir que guia sua prática tradutória stricto senso.

Não é fácil encontrar na obra de Oswald reflexões ou problematizações sobre o ato tradutório. Não se pode afirmar, portanto, que o autor pensasse a tradução como um tipo de operação antropofágica. Tal aproximação parecia ser impensável naquele contexto, uma vez que, nele, a tradução era tomada como uma operação estritamente linguística resguardada pelo pacto da fidelidade a que se submetia o tradutor. Há, no entanto, na sua troca de correspondência com o tradutor de línguas românicas Samuel Putnam uma referência à operação tradutória que nos permitiria fazer ilações sobre a visão do autor a respeito dessa prática:

 

Você está naturalmente e oficialmente autorizado a fazer o que quiser com toda a minha obra, traduzir, reproduzir, criticar, etc, etc. Quanto à antologia, se quiser ouvir minha opinião, deve inserir os constituintes da semana de 22 até a Antropofagia representada por “Macunaíma” de Mario de Andrade, “Cobra Norato” de Raul Bopp e meu “Serafim Ponte Grande”. Não esquecer os grandes poetas epígonos, Carlos Drummond, Vinícius, Murilo Mendes. [...] A recuperação da prosa está hoje nas mãos de Clarice Lispector (Perto do Coração Selvagem – O Lustre) e Guimarães Rosa (Sagarana). (Nossa ênfase).[2]

 

Como podemos observar, Oswald parece não se mostrar consumido pelo resultado ou pormenores da prática tradutória de sua obra. Tradução seria para o autor apenas um dos processos pelos quais o seu texto deveria passar para que fosse divulgado em outro sistema literário, assim como a reprodução e a crítica. Ademais, ao fazer sugestões sobre autores e obras brasileiras que, na sua opinião, seriam indispensáveis a compor a antologia organizada por Putnam, Oswald parece estar interessado em colaborar para a devoração crítica desse tradutor/crítico.


A experiência Modernista

Apesar de não ter feito da tradução um ofício, Oswald teve uma experiência bastante interessante como tradutor. Participou, junto a outros tradutores, do projeto de tradução de poemas do escritor e crítico chileno Arturo Torres-Rioseco (1897-1971) em meados da década de 1940. Patrocinado pela Fundação Rockefeller, Rioseco, que era professor na Universidade da Califórnia, esteve no Brasil pelo período de um ano, a fim de preparar uma seleção de clássicos brasileiros que se publicaria em inglês. Sobre a visita que ainda se daria, Oswald escreve, para o jornal Correio da Manhã de 7 maio de 1944 o seguinte texto:

Manda-nos para estudar a nossa literatura e anunciá-la um crítico. É o intelectual chileno Arturo Torres Rioseco que há muitos anos reside, atua e leciona na Califórnia. Acresce que Rioseco vem permanecer entre nós um ano. [...] Suas relações já estão travadas com os nossos poetas e romancistas. E mesmo a sua obra já é conhecida. Alguns dos seus poemas vão ser agora traduzidos por um grupo nacional, do qual participo ao lado de Carlos Drummond de Andrade, de Cecília Meirelles e de outros. (ANDRADE, 2007, p. 141).

 

O projeto mencionado por Oswald se concretizou no livro Arturo Torres-Rioseco: Poesias, publicado pela editora Globo em 1945. Além dos dois poetas mencionados por Oswald, o volume traz traduções de Ana Amélia Queiroz Carneiro de Mendonça, Aurélio Buarque de Holanda, Jorge de Lima, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Marques Rebelo, Murilo Mendes e Vinícius de Moraes. Conta também com a introdução da poeta chilena Gabriela Mistral.

Oswald parece ter sido um dos idealizadores desse projeto de tradução. A análise da correspondência enviada por Torres Rioseco ao autor antes da publicação do livro revelará que o escritor chileno se mostrava bastante entusiasmado com o projeto. A leitura nos leva a supor que Rioseco confiara a Oswald a tradução de seus poemas ou a distribuição dos originais a tradutores:

 

Mi querido amigo:
Infinitas gracias por el articulo sobre mi persona y gracias por la promesa de traducir esos poemas. El caso es que yo debo entregar los originales de este libro dentro de dos semanas, de manera que le ruego me mande dentro de ese tiempo aunque fuera uno de los poemas traducidos.[3]

 

Em outra carta datada de 8 de julho do mesmo ano, Torres-Rioseco pede a Oswald que lhe envie as traduções com urgência:

Quiero decirle que mi Antologia ya va a la Imprenta esta semana. Mándeme hoy mismo las traducciones, pues es indispensable que ud. aparezca en este libro. Mándeme también datos biográficos suyos para um ensayo que haré sobre su labor literário. (Grifos do poeta).[4]

 

Publicado aproximadamente dezesseis anos após o Manifesto Antropófago e pelo fato de ter tido como tradutores escritores atuantes na vanguarda modernista, talvez o livro Arturo Torres-Rioseco: Poesias possa parecer o exemplo mais óbvio do que, posteriormente, entender-se-ia por tradução antropofágica. Tal vislumbre requer extrema cautela, uma vez que a concepção de tradução como um processo intricado, que relaciona sistemas não apenas linguísticos, mas culturais, parecia ainda não haver sido problematizada no Brasil até a década de 1970.

Outro aspecto que nos permite fazer ilações a respeito do paradigma de tradução recorrente na época é o fato do livro não apresentar os poemas originais em língua espanhola. Aliás, vale mencionar que à época não era comum fazer-se publicações bilíngues, o que também coincide com o fato dos estudos da tradução serem no Brasil ainda praticamente inexistentes. Estando o projeto, portanto, exclusivamente focado na divulgação da poesia de Arturo Torres-Rioseco, e não na problematização da prática tradutória dos poetas brasileiros.

Apresentaremos a seguir o poema original e sua tradução proposta por Oswald de Andrade. É preciso esclarecer a dificuldade de se definir de modo preciso os contornos de sua poética do traduzir pautando-se apenas na observação do seu produto, haja vista que Oswald não escreveu paratextos ou teorizou a sua prática tradutória. Outro agravante está no fato de que a produção tradutória oswaldiana stricto senso, até onde temos registro, restringe-se a esse único poema.


Oswald de Andrade tradutor de Arturo Torres-Rioseco

Tendo como temática a recordação, o poema “Hechos pasados”, de Arturo Tores-Rioseco, revela a caótica evocação de memórias gravadas no subconsciente do eu do poema, na tentativa, aos moldes proustianos, de sobrepor os tempos presente e passado. Como veremos a seguir, Oswald parece produzir dois movimentos na sua tradução, ora expande as memórias apresentadas no texto original ora insere novas memórias.

Embora não tenha sido um tradutor atuante, verificar-se-á que Oswald propõe uma tradução artisticamente interessante. Valeu-se de diferentes técnicas ao traduzir, e a sua proposta, ainda que bastante literal em alguns versos, não se guiou tão somente pela literalidade, a despeito da proximidade linguística entre os dois idiomas.

Para facilitar percepção do leitor, destacamos em itálico tanto os versos apagados pelo tradutor no poema de partida, como as expansões ou inserções realizadas por Oswald no texto reescrito. Ademais, marcamos com espaços vazios no texto original os momentos em que há essas expansões ou inserções. A simples contagem de versos do poema original em contraste com a tradução oswaldiana verificará a inserção de trinta e três novos versos no poema traduzido e o apagamento ou transformação de três versos do poema de partida.



 

 

Nota-se, entre os inúmeros apontamentos que uma análise mais detida nos permitiria fazer, que a figura feminina, trazida de modo mais discreto nas memórias-imagens do poema original, parece ganhar destaque nas expansões/inserções oswaldianas no poema traduzido. Já na primeira expansão, Oswald traz a figura das “amas que pintam as unhas aos domingos”, na metade do poema traz a figura da mulher casada e infiel, e dedica ainda toda uma estrofe, na sua última inserção, a diversas figuras femininas (virgens, noivas e mulheres mortas).

Vale observar que as escolhas de Oswald ao reescrever o poema parecem ir sempre na direção de tentar aproximar o texto que reescreve do contexto para o qual reescreve, ou seja, tenta aproximá-lo dos leitores inseridos na sua época e na sua cultura. Percebe-se na tradução, portanto, um movimento do poeta-tradutor para reduzir as distâncias entre o texto de partida e a comunidade que o recebe, uma espécie mesmo de ajustamento, que se dá pela apropriação da poética criadora do texto de partida e pela sua reativação de modo a operar uma familiarização das referências, ou mesmo criar novas referências para o leitor da tradução. Apoiando-se nessa necessidade de se aproximar texto e contexto, é que Oswald parece ter se permitido um certo desprendimento do poema original.

A crítica de tradução contemporânea certamente atribuiria ao produto de sua prática tradutória o título de adaptação, recriação ou mesmo transcriação – como aquela teorizada por Haroldo de Campos. Antes de pensarmos na adequação de tais designações, vale a pena lembrar que a tradução proposta por Oswald teve o aval do próprio Arturo Torres-Rioseco e veio a integrar uma antologia de poemas ditos traduzidos, ao lado de outras traduções bastante literais, ou não tão criativas.

Não há dúvida de que Oswald tenha atuado no que poderíamos chamar de expansão criativa do poema original por meio da apropriação do seu dispositivo de criação. Se considerarmos o seu desprendimento ao traduzir como um movimento que atua na dessacralização e visa a apropriação tanto da temática como dos mecanismos de criação do texto original, movimento que parece mimetizar aquele mesmo embate de que se ocupou a antropofagia modernista, então poderíamos compreender essa única experiência oswaldiana no campo da tradução como uma prática também antropofágica.

Ressalta-se, à guisa de conclusão, nossa alegria em poder compartilhar com a comunidade literária a descoberta da breve, porém muito significativa, atuação oswaldiana como tradutor. A constatação de que Oswald, em meados da década de 1940, produzira uma reescrita complexa ao traduzir a poesia de Arturo Torres-Rioseco alimenta a nossa hipótese de que fragmentos de um sentimento antropofágico podem ser observados na sua poética do traduzir.




REFERÊNCIAS

ANDRADE, Oswald de. Telefonema / Oswald de Andrade; organização, introdução e notas: Vera Maria Chalmers. 2ª. ed. São Paulo: Globo, 2007.

CAMPOS, Haroldo de. Uma poética da radicalidade. In: Cadernos de poesia do aluno Oswald (poesias reunidas). São Paulo: Círculo do livro, 1985.

GARCIA, Marília. Tinha uma tradução no meio do caminho. non plus, São Paulo, n. 7, p. 43-53, 2015.

TORRES-RIOSECO, Arturo. Arturo Torres-Rioseco: Poesias. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1945.

  1. Antología general. Ciudad de México: Fondo de Cultura Económica, 1969.

 

[1] Mestre em Literatura e Crítica Literária. Doutorando do programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos, Literários e Tradutológicos em Francês da Universidade de São Paulo

[2] Carta depositada no acervo de Oswald de Andrade no Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulálio (CEDAE), Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas. Código de referência: BR UNICAMP IEL/CEDAE OA 02 1 00125

[3] Carta depositada no acervo de Oswald de Andrade no Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulálio (CEDAE). Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas. Código de referência: BR UNICAMP IEL/CEDAE OA 02 2 00300  

[4] Carta depositada no acervo de Oswald de Andrade no Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulálio (CEDAE). Instituto de Estudos da Linguagem ad Universidade Estadual de Campinas. Código de referência: BR UNICAMP IEL/CEDAE OA 02 2 00303 

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