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Narrativas em Libras como traduções intersemióticas com elementos da linguagem cinematográfica

Por Saulo Vieira

 

Este texto, realizado a partir de minha pesquisa de mestrado na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), trata a presença de traços da linguagem cinematográfica nas expressões narrativas em Língua Brasileira de Sinais (Libras). Esta pesquisa traz muito da minha vivência, porque, sendo eu uma pessoa surda, utilizo a comunicação visual. Nós, os surdos, nos comunicamos através da Libras, que são da modalidade visuo-espacial, da mesma forma que a linguagem cinematográfica se utiliza também da modalidade (técnica) visual na sua comunicação com o público.

A história de vida de parte dos surdos é semelhante à minha história, pois desde que nasci tive contato com a comunidade surda. Tive a experiência do contato visual, da cultura surda e de histórias visuais durante minha vida. Eu me formei em Letras-Libras e me tornei professor de Libras. Quando me interessei em pesquisar na área dos Estudos de Tradução, era de suma importância a minha relação com a tradução em Libras, e, também, como eu sou surdo, desejo pesquisar com especial ênfase o uso dos espaços visuais, para investigar a construção das expressões imagéticas.

Diante disso, o objetivo deste texto é comparar elementos da linguagem cinematográfica e as narrativas utilizadas no visual vernacular da Libras. O visual vernacular (VV) é um termo especializada na área da literatura surda que representa a arte sistematizada, uma criação visual estética das línguas de sinais. Trata-se de uma forma de articular os sinais, relacionando ao espaço os classificadores, as técnicas de performance, incorporando a representação dos objetos, animais e pessoas além das ações da mídia cinematográfica (BAUMAN, 2006). Para analisar, utilizando o software ELAN, tais aspectos foram selecionadas, a partir de características em comum, três narrativas em Libras e foram observadas categorias específicas da linguagem cinematográfica, como planos e ângulos. Os três vídeos narrativos que constituem a base de dados deste trabalho e foram produzidos em Libras – O papagaio rei, do autor Bruno Ramos, Bolinha de ping-pong, do autor Rimar Segala e Voo sobre o Rio, da autora Fernanda Machado, podem ser acessados no YouTube. Essas narrativas foram produzidas em Libras através do uso da experiência visual, vivenciada no cotidiano, como, por exemplo, em acontecimentos na cultura surda ou na cultura ouvinte, e foram construídas em Libras por meio de contação de histórias (MOURÃO, 2011; STROBEL,2008).

As narrativas em Libras se multiplicaram dentro das comunidades surdas através dos recursos tecnológicos, como a webcam, câmera, filmadora, apps e redes sociais na internet (HESSEL, 2015, p. 15). A partir disso, foram sendo divulgadas muitas informações geradas em diversos contextos sociais, com situações ocorridas dentro e até mesmo fora da cultura surda. As narrativas são produzidas em diversos contextos: por usuários surdos envolvidos com a cultura surda, que situam momentos históricos dos surdos; por usuários de Libras que, apropriando-se das características da Libras, traduzem ou interpretam alguns textos de outra língua; por surdos ou usuários de Libras que adaptam as narrativas de outra língua para Libras, transpondo elementos culturais; por usuários de Libras surdos ou ouvintes que traduzem textos de outras línguas; por surdos que produzem, autoralmente, seus próprios textos. As expressões sinalizadas que os surdos veem através da tradução intersemiótica do filme estimulam os canais visuais, despertando atenção maior daquele que oassiste.

Conforme Vieira (2016), a tradução intersemiótica é utilizar um signo verbal para sistemas de signos não-verbais, observando que isso é importante, pois existem sistemas de signos linguísticos que empregam a comunicação através dos signos visuais, isto é, as línguas de sinais. Esse tipo de tradução serve como subsídio para a compreensão do sinal pela semiótica e, assim, mostra como acontece o processo linguístico que busca o entendimento visual à medida que se imagina o significado da Língua de Sinais. Como as estratégias de textos literários em Libras têm como organização a maneira de expressar de várias técnicas visuais, suas narrativas literárias têm uma relação com o estudo da percepção visual e da imaginação. Algumas das narrativas em Libras são feitas através das filmagens que servem para divulgar a comunidade surda, em vídeo pela internet. A divulgação dos vídeos mostra a importância da visualização das narrativas dos surdos, pois abre a possibilidade de se aprender Libras, conhecer sinais novos e assim perceber e divulgar o uso da comunicação em Libras nos mais diversosespaços.

Na educação dos surdos, é importante mostrar aos alunos as produções e narrativas em Libras, para que eles possam conhecer e, incentivados, venham a produzir novas literaturas surdas. Isso vale principalmente para as crianças e adolescentes que frequentam as escolas, pois essa experiência é importante para a construção da sua língua, da sua identidade e da sua cultura surda (KARNOPP,2010).

Sinalizar é uma arte visual em que se representa a expressão corporal e pela qual podem-se representar os tipos dos planos da linguagem cinematográfica, para melhor fazer compreender as cenas e enfatizar determinada informação ou personagem. Bauman (2006) defende que os autores surdos, em sua fluência na Libras, por si só, expressam manifestações linguísticas que permitem a observação de diferentes perspectivas, que podemos chamar de cenas. Assim, essas cenas podem apresentar os usos de vários tipos de planos da linguagem cinematográfica, imaginação do autor que os espectadores imaginem a ação que os autores surdos emLibras.

A linguagem cinematográfica, para Bernadet (1980), é uma escolha de seleções de filmagem onde a personagem esteja perto ou longe, movimentando-se ou não. Podem-se utilizar o ângulo ou os planos, bem como montagens, de modo a se representar a ficção no cinema. Desta forma, a linguagem cinematográfica – com seus planos, movimentos, dimensões, ângulos e edição – é usada como forma de comunicação do cinema. Isso influencia como os espectadores se sensibilizam com o filme e revelam a melhor forma possível de utilizar o ambiente.

Os surdos mostram em vídeo suas narrativas em Libras, da mesma forma que um cineasta usa os aspectos da linguagem cinematográfica. Para criar uma estrutura da Libras que possa contar uma história considerada uma construção imagética e caracterizar o papel da personagem, o autor utiliza características de apresentação visual, o antropomorfismo, o classificador, ritmo, troca de papel de personagem, expressão facial/corporal e entre outros (BAHAN, 2006). O que demonstra a utilização de elementos das linguagens cinematográficas em Libras é o fato de ser possível mostrar formas e objetos, atingindo-se assim a imagem que o autor quer apresentar na história.

A comunidade surda tem a subjetividade de percepção visual e tem o costume de expressar e demonstrar o uso dos espaços da Libras, contribuindo com a prática da percepção visual, do imaginário e também a prática de expressar o uso de sinais nos usos dos espaços, como as técnicas visuais cinéticas da forma de sinalizar em planos, ângulos, movimentos e edições. Os aspectos imagéticos visuais da linguagem cinematográfica têm diversos tipos de usos nas sinalizações nos espaços e estilos narrativos, pois mais atraente, como arte visual. As apresentações de diferentes tipos de planoslinguagem cinematográfica tornam-se visíveis em Libras sem o câmera, pois as produções visuais sinalizadas em Libras já apresentam uma linguagem cinematográfica, que vai transmitindo diversas sensações para os espectadores. Para se identificarem os tipos de planos das diferentes perspectivas da produção de narrativas em Libras, foram analisados os variados tipos de planos cinematográficos inseridos nessas narrativas. No desenvolvimento da pesquisa, com a experiência de estudos realizados e convivendo com a comunidade surda, identificamos que o uso da Libras, em diferentes espaços e formas, apresenta técnicas visuais próprias da linguagem cinematográfica por meio das informações de narrativas visuais, utilizando-se de espaços, locomovendo-se os braços e movimentando-se o corpo.

Além da presença dos diversos tipos de planos, os filmes e as narrativas em Libras se assemelham estruturalmente a filmes, já que tanto a gramática da Libras quanto as produções cinematográficas possuem regras que lhes conferem coerência interna, o que as caracteriza como vernáculo visual. Bauman (2006) destaca que Bernard Bragg, como artista surdo, usa técnicas cinéticas visuais, e Metz (1974) apud Bauman (2006) relata que as línguas de sinais possuem três aspectos cinematográficas, ângulos, shot (tomada) e edição. Para eles, a Língua de Sinais possui a capacidade das expressões imagéticas cinematográficas dentro das narrativas em Libras através do uso das artes visual e espacial.

O problema de pesquisa foi elaborado da seguinte maneira: Quais os tipos de planos são usados e em qual frequência aparecem nestas narrativas em Libras O Papagaio Rei, Bolinha de ping-pong e Voo sobre o Rio? Ao longo da pesquisa, outras perguntas foram sendo criadas, como: O que é linguagem cinematográfica em Libras? Quais sãos os tipos dos planos da Linguagem cinematográfica? Como é que se identifica a expressão imagética na narrativa em Libras, relacionando os tipos dos planos da linguagem cinematográfica? Assim, com os problemas formulados, percebi que é complexo o desenvolvimento dos problemas, mas também é interessante encontrar respostas para eles.

As narrativas pesquisadas foram retiradas de registros postados em vídeos do YouTube e divulgados pela comunidade surda, vídeos estes feitos por artistas envolvidos nas histórias dos surdos, sendo assim formas de literatura surda. Durante a pesquisa, contatou-se que há expressões imagéticas nas narrativas em Libras nestas produções de vídeos brasileiros que apontam diversas inovações e características imagéticas visuais próprias desta língua. Na análise das três narrativas acima mencionadas, foi possível verificar a recorrência dos usos dos planos nas narrativas analisadas e classificar os tipos de planos da linguagem cinematográfica que foram utilizados nas narrativas, identificando-se semelhanças e diferenças. Havia alguns planos de Linguagem Cinematográfica nos três vídeos de narrativas em Libras selecionadas, seguindo a ótica da intersemiótica. As categorias dos planos são: 1) Plano Grande Geral, 2) Plano Geral, 3) Plano Geral Aberto, 4) Plano Geral Fechado, 5) Plano Situação, 6) Plano Inteiro, 7) Plano Americano, 8) Plano Médio, 9) Plano Próximo, 10) Plano Primeiro, 11) Plano Super close, 12) Plano Detalhe, 13) Plano Master, 14) Plano Sequência, 15) Plano Conjunto Aberto, 16) Plano Conjunto Fechado, 17) Contra Plongée, 18) Plongée, 19) Plano Frontal, 20) Plano Subjetivo, 21) Plano Oblíquo, 22) Plano Zenital, 23)Plano Reação e 24) Plano Reflexivo. Pude identificar 484 usos dos planos da linguagem cinematográfica nas narrativas analisadas. Acredito que, em outras narrativas em Libras, como as expressões visuais sinalizadas, devem também ter o uso dos tipos de planos, pois precisam mobilizar as expressões imagéticas através dos espaços para os espectadores perceberem a sensibilização visual.

Na análise das Por outro lado, as narrativas em Libras dos vídeos é diferente são diferentes, no entanto, das do cinema, onde existem mais tipos de câmeras, que focam geram diversos planos, ângulos ou montagem e não . Há é um apenas um enquadramento de várias câmeras fixas, filmando um do espaço para de expressão do sinalizante, que consiste em um palmo acima da cabeça, lateral com braços semi-abertos e do tronco até o quadril. Desta forma há a necessidade básica dos planos da linguagem cinematográfica, encontrada no próprio uso das expressões em Libras, necessitando uma multiplicidade de câmeras, possibilitando uma variedade de enquadramentos, dando espaço para a criatividade do autor e sua riqueza imaginativa, ao usar as estratégias da sua língua já contém os elementos necessários a tal proeza.

No vídeo das três narrativas contem quase todos os planos, alguns não possuí nas narrativas e outras possui, porém nas três narrativas não se encontrou os seguintes planos: Plano Geral Aberto e Plano Master, porque apresentam um enquadramento diferente que talvez a Libras não expressou pela própria característica da expressão sinalizada, mas isso é uma investigação futura. Portanto, em Libras, seria necessário e fundamental que o autor surdo possa contar as narrativas para o seu receptor através dos planos da linguagemcinematográfica.

A narrativa em Libras apresenta várias formas de perceber o mundo visual próprias de uma Língua de Sinais, ou seja, os surdos expressam as suas emoções através de suas experiências visuais, vivenciadas por meio da percepção imagética e têm, culturalmente, o prazer e a necessidade de contar suas histórias nessa linguagem, utilizando o espaço visual e os movimentos por meio de planos da linguagem cinematográfica. Sendo assim, é perceptível que suas narrativas expressam a riqueza da percepção visual como ferramenta em prol do objetivo de transmitir suas subjetividades.

Além disso, as produções narrativas que se utilizam das ferramentas da linguagem cinematográfica em Libras atraem os receptores surdos, pois os autores surdos que contam as suas narrativas conseguem se expressar e representar diversos tipos de personagens, usando o antropomorfismo, classificadores, diálogos entre os personagens de forma eficiente e transmitindo com mais concretude e de modo artístico as suas experiências.

Por isso, é importante divulgar tais narrativas nas escolas para informar e incentivar a leitura de literaturas sinalizadas para pessoas surdas, motivando assim um empoderamento surdo e contribuindo para a disseminação da identidade surda.


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