guilherme
programação
museu
educativo
tradução literária
cinema
publicações
bancos de dados
serviços
expediente edição atual  edições anteriores

DEZ HINOS ÓRFICOS

Rafael Brunhara

Os Hinos Órficos traduzidos para esta pequena antologia tiveram as suas primeiras versões publicadas a partir de outubro de 2012 no blog Primeiros Escritos. Era então a primeira tradução destes poemas em língua portuguesa e visava, como todo o trabalho realizado naquele blog, a divulgação para leitores não-especializados, entretanto sempre buscando manter o rigor e a precisão necessária de uma tradução feita diretamente do grego.
Hoje temos outro cenário, e há pelo menos duas traduções dos Hinos Órficos em português: a de Ordep Serra (Hinos Órficos: Perfumes, São Paulo, Editora Odysseus, 2015) e a de Pedro Barbieri Antunes (Dissertação de mestrado, São Paulo, FFLCH/USP, 2018). No entanto, esta tradução ainda conserva seu objetivo original, sendo econômica nas notas e tomando como critérios máximos clareza, fluência e poeticidade.
A escolha pelo verso livre, embora se distancie do rigor formal do original grego, marcado pelo ritmo de hexâmetros dactílicos, explica-se como uma tentativa de conservar, a cada verso, as imagens e a ordenação do poema. Uma tradução em versos metrificados manteria apenas um dos aspectos mais importantes destes textos, mas se veria forçada a adições, subtrações e encaixes motivados unicamente pelo o ritmo pré-determinado do verso. Com o verso livre acredito preservar a fluência, a potência numinosa dos nomes e as imagens do texto de partida, bem como, quando possível, sugerir a rica melopeia destes poemas.
Também com o objetivo de tornar o texto mais fluente em língua portuguesa, é procedimento comum desta tradução unir epítetos originalmente separados, desde que isso não altere o conteúdo semântico do texto de partida. Um exemplo está no Hino Órfico 9, em que a deusa Lua é chamada “divina rainha lucífera” (v.1). No texto grego editado temos dois epítetos separados por vírgula, theà basíleia (“deusa rainha”) e phaesphóre (“lucífera”).
Exceto pelos nomes já consagrados pela tradição, optei por traduzir os nomes de todas as divindades que tivessem um significado transparente em grego ou que representassem elementos da natureza, conceitos ou abstrações. Entretanto, mantive entre colchetes os nomes gregos vernaculizados. Assim, Ouranos aparecerá traduzido como Céu [Urano], pois a palavra grega é, ao mesmo tempo, um substantivo comum que designa este elemento da natureza e uma divindade que, em português, a tradição convencionou chamar “Urano”. Entretanto, se o Deus em questão não possui um nome vernaculizado conhecido, optei pela simples transliteração dos caracteres gregos. É o caso por exemplo do Hino Órfico 18, a Zeus Relampeante, transliterado apenas por Zeus Keraunos.
Aos interessados por questões filológicas, informo ter seguido o texto grego tal como editado por Wilhelm Quandt (Orphei Hymni, Berlim: Weidmann, 1955), consultando também a edição de Alberto Bernabé (Poetae epici Graeci. Testimonia et fragmenta, Pars II. Orphicorum et Orphicis similium testimonia et fragmenta, Munique: Teubner, 2004-5).


Hino Órfico 1 – Hécate

Ἑκάτης

Εἰνοδίαν Ἑκάτην κλήιζω, τριοδῖτιν, ἐραννήν,
οὐρανίαν χθονίαν τε καὶ εἰναλίαν, κροκόπεπλον,
τυμβιδίαν, ψυχαῖς νεκύων μέτα βακχεύουσαν,
Περσείαν, φιλέρημον, ἀγαλλομένην ἐλάφοισι,
νυκτερίαν, σκυλακῖτιν, ἀμαιμάκετον βασίλειαν, 5
θηρόβρομον, ἄζωστον, ἀπρόσμαχον εἶδος ἔχουσαν,
ταυροπόλον, παντὸς κόσμου κληιδοῦχον ἄνασσαν,
ἡγεμόνην, νύμφην, κουροτρόφον, οὐρεσιφοῖτιν,
λισσόμενος κούρην τελεταῖς ὁσίαισι παρεῖναι
βουκόλωι εὐμενέουσαν ἀεὶ κεχαρηότι θυμῶι. 10

De Hécate

Viária Hécate celebro, Trívia, amável,
celeste, terrestre e marinha, de cróceo véu,
tumular, celebrando baqueus entre almas de mortos,
filha de Perses, amiga do ermo, de cervos ufana,
noturnal, protetora dos cães, rainha inflexível, 5
do frêmito feral, sem cadeias, de forma incombatível,
pastora de touros, soberana detentora das chaves de todo o cosmo,
hegêmone, ninfa, nutriz de jovens, andarilha das montanhas.
Suplico à donzela: compareças aos piedosos ritos,
benfazeja ao boiadeiro e sempre com um grato coração. 10

Hino Órfico 3: Noite [Nyx]

Νυκτός, θυμίαμα δαλούς.

Νύκτα θεῶν γενέτειραν ἀείσομαι ἠδὲ καὶ ἀνδρῶν.
{Νὺξ γένεσις πάντων, ἣν καὶ Κύπριν καλέσωμεν}
κλῦθι, μάκαιρα θεά, κυαναυγής, ἀστεροφεγγής,
ἡσυχίηι χαίρουσα καὶ ἠρεμίηι πολυύπνωι,
εὐφροσύνη, τερπνή, φιλοπάννυχε, μῆτερ ὀνείρων, 5
ληθομέριμν´ † ἀγαθή τε † πόνων ἀνάπαυσιν ἔχουσα,
ὑπνοδότειρα, φίλη πάντων, ἐλάσιππε, † νυχαυγής,
ἡμιτελής, χθονία ἠδ´ οὐρανία πάλιν αὐτή,
ἐγκυκλία, παίκτειρα διώγμασιν ἠεροφοίτοις,
ἣ φάος ἐκπέμπεις ὑπὸ νέρτερα καὶ πάλι φεύγεις 10
εἰς Ἀίδην· δεινὴ γὰρ ἀνάγκη πάντα κρατύνει.
νῦν σε, μάκαιρα, καλῶ, πολυόλβιε, πᾶσι ποθεινή,
εὐάντητε, κλύουσα ἱκετηρίδα φωνὴν
ἔλθοις εὐμενέουσα, φόβους δ´ ἀπόπεμπε νυχαυγεῖς.

De Noite [Nyx], fumigação: tições em chamas.

Noite, genetriz dos deuses e dos homens, cantarei.
{Noite é a gênese de tudo: também a chamemos Cípris}.
Ouve, venturosa deusa, de cintilar sombrio, fulgente d´estrelas,
que se alegra no repouso e na quietude repleta de sono;
prudente, encantadora, vígil amiga, mãe do sonhar, 5
oblívio das preocupações, boa, que tem o conforto das penas,
doadora do sono, amor de todos, auriga que na noite cintila,
incompleta: ei-la subterrânea, ei-la outra vez celeste.
Cíclica, em danças perseguindo errantes do ar,
Luz espalhas pelos ínferos e outra vez foges 10
para o Hades: terrível necessidade que em tudo impera!
Agora, venturosa, chamo-te, multiafortunada, desejada de todos,
acessível, atendendo a minha súplice voz
peço que venhas benfazeja, afasta os temores que na noite cintilam.
Hino Órfico 7: Estrelas

Ἄστρων, θυμίαμα ἀρώματα.

Ἄστρων οὐρανίων ἱερὸν σέλας ἐκπροκαλοῦμαι
εὐιέροις φωναῖσι κικλήσκων δαίμονας ἁγ[ν]ούς.
Ἀστέρες οὐράνιοι, Νυκτὸς φίλα τέκνα μελαίνης,
ἐγκυκλίοις δίναισι † περιθρόνια κυκλέοντες.
ἀνταυγεῖς, πυρόεντες, ἀεὶ γενετῆρες ἁπάντων, 5
μοιρίδιοι, πάσης μοίρης σημάντορες ὄντες,
θνητῶν ἀνθρώπων θείαν διέποντες ἀταρπόν,
ἑπταφαεῖς ζώνας ἐφορώμενοι, ἠερόπλαγκτοι,
οὐράνιοι χθόνιοί τε, πυρίδρομοι, αἰὲν ἀτειρεῖς,
αὐγάζοντες ἀεὶ νυκτὸς ζοφοειδέα πέπλον, 10
μαρμαρυγαῖς στίλβοντες, ἐύφρονες ἐννύχιοί τε·
ἔλθετ´ ἐπ´ εὐιέρου τελετῆς πολυΐστορας ἄθλους
ἐσθλὸν ἐπ´ εὐδόξοις ἔργοις δρόμον ἐκτελέοντες.

De Estrelas, fumigação: ervas aromáticas.

O sacro esplendor das Estrelas celestes eu convoco,
evocando numes puros com sacratíssima voz.
Estrelas celestes, prole amável da Noite negra,
que em cíclicos turbilhões revolvem em volta do trono,
brilhantes, flâmeas, sempre as genetrizes de tudo, 5
fatídicas, revelam os signos de toda a sina
e regem as sendas divinas dos homens mortais.
Perscrutando os sete lúcidos planetas, andarilhas do ar,
celestes e terrestres, correndo como fogo, eternas e indestrutíveis,
irradiando sempre o véu tenebral da Noite, 10
cintilam coruscantes e são benévolas na Noite!
Vinde aos eruditos lavores deste sacratíssimo rito,
perfaz vosso nobre percurso por obras célebres.

Hino Órfico 8: Sol [Hélio]

Εἰς Ἥλιον, θυμίαμα λιβανομάνναν.

Κλῦθι μάκαρ, πανδερκὲς ἔχων αἰώνιον ὄμμα,
Τιτὰν χρυσαυγής, Ὑπερίων, οὐράνιον φῶς,
αὐτοφυής, ἀκάμας, ζώιων ἡδεῖα πρόσοψι,
δεξιὲ μὲν γενέτωρ ἠοῦς, εὐώνυμε νυκτός,
κρᾶσιν ἔχων ὡρῶν, τετραβάμοσι ποσσὶ χορεύων, 5
εὔδρομε, ῥοιζήτωρ, πυρόεις, φαιδρωπέ, διφρευτά,
ῥόμβου ἀπειρεσίου δινεύμασιν οἶμον ἐλαύνων,
εὐσεβέσιν καθοδηγὲ καλῶν, ζαμενὴς ἀσεβοῦσι,
χρυσολύρη, κόσμου τὸν ἐναρμόνιον δρόμον ἕλκων,
ἔργων σημάντωρ ἀγαθῶν, ὡροτρόφε κοῦρε, 10
κοσμοκράτωρ, συρικτά, πυρίδρομε, κυκλοέλικτε,
φωσφόρε, † αἰολόδικτε, φερέσβιε, κάρπιμε Παιάν,
ἀιθαλής, ἀμίαντε, χρόνου πάτερ, ἀθάνατε Ζεῦ,
εὔδιε, πασιφαής, κόσμου τὸ περίδρομον ὄμμα,
σβεννύμενε λάμπων τε καλαῖς ἀκτῖσι φαειναῖς, 15
δεῖκτα δικαιοσύνης, φιλονάματε, δέσποτα κόσμου,
πιστοφύλαξ, αἰεὶ πανυπέρτατε, πᾶσιν ἀρωγέ,
ὄμμα δικαιοσύνης, ζωῆς φῶς· ὦ ἐλάσιππε,
μάστιγι λιγυρῆι τετράορον ἅρμα διώκων·
κλῦθι λόγων, ἡδὺν δὲ βίον μύστηισι πρόφαινε. 20

Para o Sol [Hélio], fumigação: olíbano em grãos.

Ouve-me, venturoso, onividente de olhos eternos,
Titã de áureo cintilar, Hipérion, luz celeste,
incansável gerado por si mesmo, doce visão aos vivos,
à direita engendraste a Aurora, à esquerda a Noite,
temperas as Horas dançando com tuas quadrigas; 5
corredor, silvante, flâmeo de fúlgidos olhos, condutor do carro,
guiando entre rugentes turbilhões sem fim
aos pios levas o bem e aos ímpios, a cólera;
de áurea lira, moves o curso harmonioso do cosmo,
és quem aponta atos de valor, és o jovem que nutre as Horas; 10
imperador do cosmo, chilreante correndo como fogo, circunvolvente
lucífero, de aparência vária, vital, frutuoso Peã,
viçoso sempre, imáculo pai do Tempo [Khronos], Zeus imortal,
serena luz de todos e envolvente olhar do cosmo
a se extinguir e a brilhar em luzentes lindos raios. 15
Exemplo de Retidão [Dikaiosyne], amigo das águas, senhor do cosmo,
guardião da Confiança, sempre sublime, auxiliador de todos,
olho da Retidão [Dikaiosyne], luz da vida; ó cavaleiro,
com estridente açoite impelindo a tua quadriga,
ouve minhas palavras, e mostra a doce vida aos iniciados. 20

Hino Órfico 9: Lua [Selene]

Εἰς Σελήνην, θυμίαμα ἀρώματα.

Κλῦθι, θεὰ βασίλεια, φαεσφόρε, δῖα Σελήνη,
ταυρόκερως † Μήνη, νυκτιδρόμε, ἠεροφοῖτι,
ἐννυχία, δαιδοῦχε, κόρη, εὐάστερε, Μήνη,
αὐξομένη καὶ λειπομένη, θῆλύς τε καὶ ἄρσην,
αὐγάστειρα, φίλιππε, χρόνου μῆτερ, φερέκαρπε, 5
ἠλεκτρίς, βαρύθυμε, καταυγάστειρα, † νυχία,
πανδερκής, φιλάγρυπνε, καλοῖς ἄστροισι βρύουσα,
ἡσυχίηι χαίρουσα καὶ εὐφρόνηι ὀλβιομοίρωι,
λαμπετίη, χαριδῶτι, τελεσφόρε, νυκτὸς ἄγαλμα,
ἀστράρχη, τανύπεπλ´, ἑλικοδρόμε, πάνσοφε κούρη, 10
ἐλθέ, μάκαιρ´, εὔφρων, εὐάστερε, φέγγεϊ τρισσῶι
λαμπομένη, σώζουσα νέους ἱκέτας σέο, κούρη.

Para a Lua [Selene]; fumigação: ervas aromáticas.

Ouve-me, divina rainha lucífera, deusa Selene,
tauricorne Mene, notívaga, errante do ar,
da noite, dadófora donzela, astro bom, Mene,
crescente e minguante, feminina e masculina,
luzente amiga de corcéis, mãe do tempo [Khronos], frutífera, 5
ambarina, de coração pesado, reluzente na Noite,
onividente que ama a vigília, florescente de belas estrelas,
que se alegra no repouso e na riqueza da noite;
a brilhadora caridosa, perfectiva, joia da noite,
princesa das estrelas, de longo véu, circúnvaga, a donzela em tudo sábia. 10
Vem, venturosa, benévola, astro bom, com tríplice fulgor
brilhante salva teus novos suplicantes, donzela.

Hino Órfico 17: Poseidon

Ποσειδῶνος, θυμίαμα σμύρναν.

Κλῦθι, Ποσείδαον γαιήοχε, κυανοχαῖτα,
ἵππιε, χαλκοτόρευτον ἔχων χείρεσσι τρίαιναν,
ὃς ναίεις πόντοιο βαθυστέρνοιο θέμεθλα,
ποντομέδων, ἁλίδουπε, βαρύκτυπε, ἐννοσίγαιε,
κυμοθαλής, χαριδῶτα, τετράορον ἅρμα διώκων, 5
εἰναλίοις ῥοίζοισι τινάσσων ἁλμυρὸν ὕδωρ,
ὃς τριτάτης ἔλαχες μοίρης βαθὺ χεῦμα θαλάσσης,
κύμασι τερπόμενος θηρσίν θ´ ἅμα, πόντιε δαῖμον·
ἕδρανα γῆς σώζοις καὶ νηῶν εὔδρομον ὁρμήν,
εἰρήνην, ὑγίειαν ἄγων ἠδ´ ὄλβον ἀμεμφῆ. 10

De Poseidon: fumigação: mirra

Ouve-me, Poseidon abraça-terra, de escuros cabelos,
equestre, com o tridente lavrado em bronze nas mãos,
que habitas o alicerce do mar de âmago profundo,
senhor das águas a ressoar no salso mar, troante treme-terra,
caridoso de virentes vagas, impelindo a tua quadriga 5
e agitando a água salgada em silvos do mar,
que tiveste por terça parte as profundas águas do mar,
comprazendo-te nas vagas, com tuas bestas, nume dos mares:
Peço, cuida da sede da terra e do bom percurso dos navios,
trazendo saúde, paz e fortuna impecável. 10

Hino Órfico 18: Plutão

Εἰς Πλούτωνα

Ὦ τὸν ὑποχθόνιον ναίων δόμον, ὀμβριμόθυμε,
Ταρτάριον λειμῶνα βαθύσκιον ἠδὲ λιπαυγῆ,
Ζεῦ χθόνιε, σκηπτοῦχε, τάδ´ ἱερὰ δέξο προθύμως,
Πλούτων, ὃς κατέχεις γαίης κληῖδας ἁπάσης,
πλουτοδοτῶν γενεὴν βροτέην καρποῖς ἐνιαυτῶν· 5
ὃς τριτάτης μοίρης ἔλαχες χθόνα παμβασίλειαν,
ἕδρανον ἀθανάτων, θνητῶν στήριγμα κραταιόν·
ὃς θρόνον ἐστήριξας ὑπὸ ζοφοειδέα χῶρον
τηλέπορον {τ´}, ἀκάμαντα, λιπόπνοον, ἄκριτον Ἅιδην
κυάνεόν τ´ Ἀχέρονθ´, ὃς ἔχει ῥιζώματα γαίης· 10
ὃς κρατέεις θνητῶν θανάτου χάριν, ὦ πολυδέγμων
Εὔβουλ´, ἁγνοπόλου Δημήτερος ὅς ποτε παῖδα
νυμφεύσας λειμῶνος ἀποσπαδίην διὰ πόντου
τετρώροις ἵπποισιν ὑπ´ Ἀτθίδος ἤγαγες ἄντρον
δήμου Ἐλευσῖνος, τόθι περ πύλαι εἴσ´ Ἀίδαο. 15
μοῦνος ἔφυς ἀφανῶν ἔργων φανερῶν τε βραβευτής,
ἔνθεε, παντοκράτωρ, ἱερώτατε, ἀγλαότιμε,
σεμνοῖς μυστιπόλοις χαίρων ὁσίοις τε σεβασμοῖς·
ἵλαον ἀγκαλέω σε μολεῖν κεχαρηότα μύσταις.

Para Plutão

Ó Deus de coração brutal, habitante do lar subterrâneo,
tartáreo e profundo prado, lúgubre e lucífugo,
Zeus ctônio, rei cetrado! Acolhe de bom grado estes sacrifícios,
Plutão, que deténs as chaves de toda a terra,
que todo o ano dás a riqueza dos frutos à estirpe mortal, 5
que tiveste por terça parte a terra de tudo rainha,
sede dos imortais, pujante suporte dos mortais;
tu firmaste um trono em tenebrosas terras:
o Hades longínquo, infatigável e sem ventos
e o escuro Aqueronte, que ocupa as raízes da terra; 10
tu, que reges a graça da morte aos mortais, ó hospedeiro de muitos,
Eubulo que a filha da purificante Deméter
um dia esposaste arrebatando-a dos prados e pelo mar
a levaste com tuas quadrigas a um ático antro
no distrito de Elêusis, onde estão os portais do Hades. 15
Só tu nasceste para ser o juiz de atos claros e ocultos,
onipotente divinizado, o mais sagrado, de esplêndidas honras;
alegre aos insignes iniciadores, piedosos e reverendos,
apelo que venhas grato e propício aos iniciados.

Hino Órfico 19: Zeus Relampeante [Zeus Keraunos]

Κεραυνοῦ Διός, θυμίαμα στύρακα.

Ζεῦ πάτερ, ὑψίδρομον πυραυγέα κόσμον ἐλαύνων,
στράπτων αἰθερίου στεροπῆς πανυπέρτατον αἴγλην,
παμμακάρων ἕδρανον θείαις βρονταῖσι τινάσσων,
νάμασι παννεφέλοις στεροπὴν φλεγέθουσαν ἀναίθων,
λαίλαπας, ὄμβρους, πρηστῆρας κρατερούς τε κεραυνούς, 5
βάλλων † ἐς ῥοθίους φλογερούς, βελέεσσι καλύπτων
παμφλέκτους, κρατερούς, φρικώδεας, ὀμβριμοθύμους,
πτηνὸν ὅπλον δεινόν, κλονοκάρδιον, ὀρθοέθειρον,
αἰφνίδιον, βρονταῖον, ἀνίκητον βέλος ἁγνόν,
ῥοίζου ἀπειρεσίου δινεύμασι παμφάγον ὁρμήν, 10
ἄρρηκτον, βαρύθυμον, ἀμαιμάκετον πρηστῆρα
οὐράνιον βέλος ὀξὺ καταιβάτου αἰθαλόεντος,
ὃν καὶ γαῖα πέφρικε θάλασσά τε παμφανόωντα,
καὶ θῆρες πτήσσουσιν, ὅταν κτύπος οὖας ἐσέλθηι·
μαρμαίρει δὲ πρόσωπ´ αὐγαῖς, σμαραγεῖ δὲ κεραυνὸς 15
αἰθέρος ἐν γυάλοισι· διαρρήξας δὲ χιτῶνα
οὐράνιον προκάλυμμα † βάλλεις ἀργῆτα κεραυνόν.
ἀλλά, μάκαρ, θυμὸν [...] κύμασι πόντου
ἠδ´ ὀρέων κορυφαῖσι· τὸ σὸν κράτος ἴσμεν ἅπαντες.
ἀλλὰ χαρεὶς λοιβαῖσι δίδου φρεσὶν αἴσιμα πάντα 20
ζωήν τ´ ὀλβιόθυμον, ὁμοῦ θ´ ὑγίειαν ἄνασσαν
εἰρήνην τε θεόν, κουροτρόφον, ἀγλαότιμον,
καὶ βίον εὐθύμοισιν ἀεὶ θάλλοντα λογισμοῖς.

De Zeus Relampeante [Zeus Keraunos], fumigação: estoraque.

Zeus pai, que conduzes o alto curso do coruscante cosmo,
fulgurante no sublime resplendor de teu raio etéreo,
vibrando com divinos trovões a sede dos panventurosos,
abrasando todos os nebulosos fluxos de água com o raio flamante,
lançando tormentas, chuvas, pujantes procelas, relâmpagos 5
e encobrindo a terra com flechas em flamas rompentes,
todas em chamas, pujantes, frementes, brutais.
Terrível arma alada que perturba o coração, arrepiante,
súbita, trovejante, invencível e pura flecha,
de ímpeto voraz em silvantes turbilhões sem fim, 10
invulnerável e opressora procela irrepelível,
aguda flecha celeste do cadente flamante,
toda brilhante, fazes fremer a terra e o mar,
as feras se encolhem quando ouvem teu fragor;
as luzes iluminam suas faces, o trovão estronda 15
nos vales do Éter; rompendo o véu
que reveste o céu, tu lanças o relâmpago de fogo;
Vamos, venturoso, o coração (...) nas ondas do mar
e nos picos das montanhas, todos conhecemos teu poder;
alegra-te com as libações, e dá-nos tudo que faz bem ao espírito: 20
uma vida próspera, com saúde soberana,
paz divina, nutriz de jovens, de esplêndidas honras,
e uma existência feliz, sempre florida pela razão.

Hino Órfico 30: Dioniso

Διονύσου, θυμίαμα στύρακα.

Κικλήσκω Διόνυσον ἐρίβρομον, εὐαστῆρα,
πρωτόγονον, διφυῆ, τρίγονον, Βακχεῖον ἄνακτα,
ἄγριον, ἄρρητον, κρύφιον, δικέρωτα, δίμορφον,
κισσόβρυον, ταυρωπόν, Ἀρήιον, εὔιον, ἁγνόν,
ὠμάδιον, τριετῆ, βοτρυηφόρον, ἐρνεσίπεπλον. 5
Εὐβουλεῦ, πολύβουλε, Διὸς καὶ Περσεφονείης
ἀρρήτοις λέκτροισι τεκνωθείς, ἄμβροτε δαῖμον·
κλῦθι, μάκαρ, φωνῆς, ἡδὺς δ´ ἐπίπνευσον ἀμεμ[φ]ής
εὐμενὲς ἦτορ ἔχων, σὺν ἐυζώνοισι τιθήναις.

De Dioniso, fumigação: estoraque

Invoco Dioniso o clamoroso a bradar evoés,
primogênito de duas naturezas e três vezes nascido, Báquico soberano;
feroz e inefável, oculto, bicórneo, biforme,
hederoso de táureo olhar, guerreiro, evoé puro deus
omófago, trienal, vinífero de véu vernal; 5
Eubuleu de muitos conselhos, por Zeus e Perséfone
em leito inefável gerado, nume imortal!
Ouve-me a voz, venturoso, sê para nós impecável alento
com peito benfazejo junto às tuas nutrizes de bela cintura.

Hino Órfico 87: Morte [Thanatos]

<Θανάτου>, θυμίαμα μάνναν.

Κλῦθί μευ, ὃς πάντων θνητῶν οἴηκα κρατύνεις
πᾶσι διδοὺς † χρόνον ἁγνόν †, ὅσων † πόρρωθ´ ὑπάρχεις·
σὸς γὰρ ὕπνος ψυχῆς θραύει καὶ σώματος ὁλκόν,
ἡνίκ´ ἂν ἐκλύηις φύσεως κεκρατημένα δεσμὰ
τὸν μακρὸν ζώιοισι φέρων αἰώνιον ὕπνον, 5
κοινὸς μὲν πάντων, ἄδικος δ´ ἐνίοισιν ὑπάρχων,
ἐν ταχυτῆτι βίου παύων νεοήλικας ἀκμάς·
ἐν σοὶ γὰρ μούνωι πάντων τὸ κριθὲν τελεοῦται·
οὔτε γὰρ εὐχαῖσιν πείθηι μόνος οὔτε λιταῖσιν.
ἀλλά, μάκαρ, μακροῖσι χρόνοις ζωῆς σε πελάζειν 10
αἰτοῦμαι, θυσίαις<ι> καὶ εὐχωλαῖς λιτανεύων,
ὡς ἂν ἔοι γέρας ἐσθλὸν ἐν ἀνθρώποισι τὸ γῆρας.

De Morte [Thanatos], fumigação: incenso

Ouve-me, tu, que reges o leme de todos os mortais
e outorgas sagrado tempo a todos de quem te afastas;
teu sono fratura a alma e o corpo que se arrasta
sempre que desfazes as poderosas prisões da natureza
e aos seres vivos trazes longo sono eterno; 5
comum a todos, mas injusto a alguns,
quando cessas célere o viço da vida jovem;
só em ti se dá o último veredito de tudo:
só tu não te persuades com preces ou súplicas.
Vamos, venturoso Deus, depois de muitos anos peço 10
que te aproximes, com sacrifícios e preces imploro:
ser velho valha de valoroso prêmio entre os homens.

voltar
HORÁRIO DE FUNCIONAMENTO DO MUSEU
Agendamento de visita (grupos): 55 11 3672-1391 | 3868-4128
Visitação: de terça-feira a domingo, das 10h às 18h.
Atividades culturais e educativas: de terça a sexta-feira, das 19h às 21h, e aos finais de semana, das 10h às 19h
(consultar programação).

CASA GUILHERME DE ALMEIDA
CENTRO DE ESTUDOS DE TRADUÇÃO LITERÁRIA

55 11 3673-1883 | 3803-8525 | contato@casaguilhermedealmeida.org.br
Museu: R. Macapá, 187 - Perdizes | CEP 01251-080 | São Paulo
Anexo: R. Cardoso de Almeida, 1943 | CEP 01251-001 | São Paulo

OUVIDORIA