guilherme
programação
museu
educativo
tradução literária
cinema
publicações
bancos de dados
serviços
expediente edição atual  edições anteriores

Mark Twain no reino do tesouro

Três contos do clássico escritor americano em torno do dinheiro, em tradução anotada


Por Ana Lúcia Kfouri

 

Muito se especula sobre Mark Twain no âmbito popular. No âmbito acadêmico, no entanto, Mark Twain e sua obra são amplamente estudados. No imaginário do leitor comum, o romancista estadunidense é mais conhecido por ser o pai das personagens Tom Sawyer e Huckleberry Finn. No entanto, para pesquisadores e leitores ávidos por uma nova literatura de um tradicional autor, Twain vai além dos dois protagonistas juvenis.

Profundo questionador da natureza humana, Twain teve, e ainda tem, muito a contribuir para enriquecer a cultura do leitor brasileiro por meio de traduções e novas traduções da sua vasta obra, que historicamente auxiliou não só o sistema literário de seu país de origem, mas também o de países em que suas obras foram traduzidas. Dono de uma retórica extremamente irônica, não poupou críticas e comentários ferinos ao governo vigente na época e à participação dos Estados Unidos em guerras e tomadas de terras. No campo da literatura foi igualmente sarcástico em críticas e costumes de sua época e hoje é canônico no sistema literário estadunidense.


A coautora Vera Lúcia Ramos

Vera Lúcia não poderia deixar de ser uma excelente tradutora das histórias do autor. Preocupada em analisar a prosa aliada ao estilo de escrever de Twain, Vera tem mestrado e doutorado versando sobre a obra do romancista. Não apenas a paixão pelo trabalho, mas também o valor literário do autor acabaram por levar Vera a se especializar nele, tornando-a uma boa tradutora de Twain. Bom domínio dos dois idiomas aliado a uma estratégia e abordagem de tradução coerentes fizeram do texto uma agradável leitura em português.


A obra traduzida

Contos de Mark Twain foi traduzido por Vera Lúcia Ramos para a coleção Tradução em Contexto, da Editora Lexikos de São Paulo. A coleção abarca diferentes obras dos mais variados autores já em domínio público, ou seja, obras clássicas na maioria das vezes. No entanto, ela não deixa de prestigiar autores menos conhecidos, o que imprime frescor ao mercado editorial brasileiro. A intenção por trás do projeto é oferecer ao leitor brasileiro as obras e,igualmente, brindar professores, seja em nível universitário ou ensino médio. As edições são bilíngues, o que permite o cotejo imediato para o leitor interessado em saber qual solução foi encontrada para um determinado desafio de tradução, seja lexical ou sintático. Além disso, a edição, com textos em português e inglês lado a lado, facilita não somente a leitura, mas principalmente o aprendizado, seja de língua ou prática detradução.

Para aqueles que desejam conhecer um pouco mais do universo de Twain, o volume de contos propicia uma ótima diversão. Para aqueles que estudam tradução, além dos textos nos dois idiomas, os livros da série contêm notas e exercícios. As notas, que aparecem ao lado do texto, são de fácil localização. Vale comentar que um inconveniente dessas notas é o tamanho da fonte, bem reduzido em relação ao tamanho da fonte do texto, o que pode se tornar cansativo e desestimular a leitura. Apesar do desconforto físico, as notas são bastante relevantes e esclarecedoras, pois versam sobre estratégias e a abordagem de tradução adotadas e também sobre aspectos culturais e linguísticos. Os exercícios apresentados têm respostas e são divididos entre questões de compreensão e questões para reflexão.

Contos de Mark Twain é o primeiro volume, lançado em novembro de 2018, da série Tradução em Contexto, que assim foi denominada porque os contos escolhidos estão sempre inseridos em um mesmo contexto. No caso de Contos de Mark Twain, o contexto temático é dinheiro e o livro compreende três histórias: “A nota de 1 milhão de libras”, “O legado de US$ 30.000,00” e “Os fatos sobre o recente festival de crimes de Connecticut”.


Os contos traduzidos

“A nota de 1 milhão de libras” conta a história de um homem que, de repente, se vê diante da fortuna em uma nota só. Por trás do o tema central da narrativa, há a crítica social e comportamental das pessoas frente ao dinheiro e às posses materiais. A ganância, a hipocrisia e o interesse próprio não fugiram ao escrutínio de Twain. Da mesma forma, não fogem à tradutora o estilo, a intenção e o espírito do texto do autor.

Nem sempre Vera Lúcia se prende à letra propriamente dita do texto de Twain. Em vários momentos prefere passar ao leitor do português o cerne da intenção de Mark Twain, como, por exemplo, em “não tinha ninguém no mundo e só dependia da minha sagacidade” que é a tradução de "I was alone in the world, and had nothing to depend upon but my wits", trecho no qual Vera Lúcia em nota de tradução explica sua escolha de “sagacidade” para traduzir wits. O leitor atencioso também pode perceber o ajuste sintático da estrutura do texto original com o conectivo but para “só”, estrutura que aparece com frequência no texto de Twain e para qual a tradutora apresenta variadas e boas soluções, resultando em um texto literário atraente. No entanto, nota-se também a opção de traduzir nothing por “ninguém”, talvez para manter a naturalidade com que o falante de português usa sua língua, mas nada impediria de ser traduzido por “nada” . São escolhas tradutórias que se justificam nas notas de tradução, pelas quais Vera Lúcia explica os momentos de perdas e compensações.

O segundo conto, “O legado de US$ 30.000,00”, contém ironia e igual crítica ao comportamento humano frente aos recursos financeiros e materiais. A história é centrada nas relações familiares entre marido, mulher e filhos, na qual há uma interessante inversão de papéis, principalmente para a época: é a mulher quem comanda a casa e controlatodo o dinheiro da família, enquanto o marido é caracterizado como um ser apático e dependente dela. Neste conto em particular, Twain faz uso de bastantes vocábulos e jargão financeiro, o que exige da tradutora ampla pesquisa e resulta também em notas explicativas. Apesar de o texto original datar do século XIX, muito se encontra a contemporaneidade do século XX e início do XXI, justamente por trazer o tema das relações e natureza humanas com odinheiro. Vera Lúcia na tradução é hábil ao apresentar um texto em português que prende a atenção em toda coerência interna que o conto contém.

A temática atual é percebida não obstante os termos técnicos financeiros remeterem à época em que o conto foi concebido. Aparecem, por exemplo, termos em inglês como bookkeeper, traduzido como “contador”. Percebemos que a tradução optou por usar o mais contemporâneo termo “contador” em vez do mais antigo “guarda-livros”, e essa tendência permanece ao longo do texto traduzido mantendo a coerência interna com a abordagem tradutória escolhida, que aproxima o leitor de uma leitura mais facilitada e fluente com seu tempo.

O terceiro e último conto, “Os fatos sobre o recente festival de crimes de Connecticut”, é a história em que o contexto do dinheiro está menos explícito; no entanto, não deixa de estar subjacente. A narrativa lembra um conto policial, o que mostra a versatilidade de Twain em criar um mundo imaginário para todos os gostos. A escolha da história para compor o livro também foi muito feliz. Da mesma forma com que traduziu os dois primeiros contos, Vera Lúcia mantém o controle e traz ao leitor outra tradução cuja coerência interna com as abordagens tradutórias estão presentes.

Como fez ao longo de toda tradução do livro, Vera evitou elementos estrangeirizantes, evitando unidades de medida como pés e milhas e convertendo-as para metros ou quilômetros, a fim de aproximar as medidas para o referencial mental do leitor brasileiro. Consistentemente, o uso de adjetivos no livro é apropriado e de acordo com o que faz o autor no texto original, assim como o emprego de léxico e sintaxe em geral.

Em suma, a tradução traz um pouco do mundo de Mark Twain de forma agradável e coerente, principalmente quando o leitor escolhe fazer o cotejo entre o texto originalmente escrito em inglês com sua tradução.

Seguindo nesse modelo, com escolhas de autores relevantes e com tradução segura, a série Tradução em Contexto tem tudo para presentear o leitor com algo novo a cada ano.


Mark Twain: Contos de Mark Twain. Trad. Vera Lúcia Ramos. São Paulo: Editora Lexikos, 2018. 272 p.


Ana Lúcia Kfouri é mestre na área de Letras com ênfase em Estudos da Tradução, com foco em tradução literária, especialmente tradução de oralidade e socioleto literário. Possui graduação em Letras Tradução/Interpretação. É tradutora literária e jurídica. Tem experiência na área de Letras e Tradução, ministrando oficinas de tradução literária. É membro do grupo de Estudos de Tradução e Adaptação (GREAT) da Universidade de São Paulo (USP-CNPq). Concluiu os cursos oferecidos pela Casa Guilherme de Almeida: Formação e Aprimoramento de Tradutores Literários.

voltar
HORÁRIO DE FUNCIONAMENTO DO MUSEU
Agendamento de visita (grupos): 55 11 3672-1391 | 3868-4128
Visitação: Terça a domingo, das 10h às 18h

CASA GUILHERME DE ALMEIDA
CENTRO DE ESTUDOS DE TRADUÇÃO LITERÁRIA

55 11 3673-1883 | 3803-8525 | contato@casaguilhermedealmeida.org.br
Museu: R. Macapá, 187 - Perdizes | CEP 01251-080 | São Paulo
Anexo: R. Cardoso de Almeida, 1943 | CEP 01251-001 | São Paulo

MAPA DO SITE

Este site utiliza cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência em nossos serviços. Ao utilizar nossos serviços, você concorda com tal monitoramento.
Consulte sobre os Cookies e a Política de Privacidade para obter mais informações.

ACEITAR