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Sylvia Plath ressurge com a publicação da obra inédita “Mary Ventura e o Nono Reino”

Por Dinaura Julles


 

A publicação de uma obra inédita de Sylvia Plath, transformada em mito da poesia do século XX, é mais um capítulo na imprevisível vida e obra da jovem intelectual que se suicidou aos 30 anos.

Ícone entre as feministas inglesas e americanas do final dos anos 1960, ela chegou à fama mais pela vida conjugal conturbada com o famoso poeta Ted Hughes e pela história de traições, maus tratos, desencontros e solidão do que pela sua inteligência e perspicácia. Como prova de seu talento precoce, foi publicada recentemente no Brasil a história breve “Mary Ventura e o Nono Reino”, na competente tradução de Bruna Beber.

Escrita quando Sylvia Plath tinha vinte anos, a “fábula simbólica e obscura”, conforme definida pela própria autora, permaneceu inédita desde então. Ali já se revelava o traço melancólico e o talento precoce de quem teve seu primeiro poema publicado aos 11 anos de idade na sessão infantil do Boston Herald.

Nascida em Boston, em 27 de outubro de 1932, era filha de Otto Plath, professor da Universidade de Boston, e de Aurélia Schober, 21 anos mais nova que o marido. Com oito anos de idade ficou órfã de pai, episódio que repercutiria em sua obra.

Em 1950, matriculou-se na Universidade Smith College. Em 1953, teve sua primeira crise de depressão e tentou o suicídio. Após tratamento, recuperou-se e formou-se com louvor, em 1955. Ganhadora de uma bolsa de estudos, foi para Universidade de Cambridge, na Inglaterra. No ano seguinte, conheceu o poeta inglês Ted Hughes, com quem se casou em junho do mesmo ano.

Em 1957, o casal retornou aos Estados Unidos e Sylvia Plath foi lecionar no Smith College.

Em 1960, após descobrir que estava grávida e diante da atribulada vida conjugal, voltou para a Inglaterra, para a pequena cidade de North Tawton, em Denvon. Publicou sua primeira coletânea de poemas chamada “The Colossus”. Nesse mesmo ano nasceu Frieda. Em 1962, nasceu Nicholas, seu segundo filho. Publicou “Daddy”, onde relata o difícil relacionamento que teve com o pai e que se insinua na cena de abandono familiar da história de Mary Ventura.

O clima sombrio da história cujo título leva o nome de uma amiga do ensino médio de Sylvia Plath estará presente em outras obras, como na novela semiautobiográfica The Bell Jar (A Redoma de Vidro), sobre o tempo em que ela trabalhou para a revista Mademoiselle, em Nova York. Publicado sob o pseudônimo de Victoria Lucas, esse seu único romance ra relata a sua luta pessoal contra a depressão, que acabou vencedora. No dia 11 de fevereiro desse mesmo ano, Sylvia Plath cometeu o suicídio abrindo o gás da cozinha.

Em 2003, foi lançado o filme britânico Sylvia, do gênero drama romântico-biográfico, com Gwyneth Paltrow no papel principal, retratando a relação conturbada do casal até a morte da escritora. Na versão brasileira, o filme foi lançado com o título de Sylvia – Paixão Além das Palavras.

O desfecho da vida de Sylvia Plath foi assim descrito por Joana Emídio Marques, em Observador “A poetisa americana Sylvia Plath vivia na casa que tinha pertencido a Yeats, em Primrose Hill, Londres. Deitou os filhos no quarto do primeiro andar, esperou que eles adormecessem, abriu-lhes a janela do quarto, calafetou as portas, deixou pão com manteiga e leite na mesa de cabeceira desceu para a cozinha, enfiou a cabeça no forno do fogão e abriu o gás.

O suicídio fez dela, que era apenas uma jovem de 30 anos, um mito. Não entre os acadêmicos ou os intelectuais, mas entre as feministas inglesas e americanas do final dos anos 1960. A sua poesia tornou-se secundária ao que foi a sua vida conjugal com o famoso poeta Ted Hughes, as traições, os maus tratos, a solidão, os desencontros fizeram dela a bandeira perfeita da luta feminista: a bela, jovem e promissora poetisa mata-se devido à infidelidade conjugal. E assim, Sylvia Plath começou a ser lida não como a talentosa que era — e é — mas como uma vítima. No filme Annie Hall, Woody Allen resume a história de forma lapidar: “Uma boa poetisa cujo trágico suicídio foi interpretado como ‘romântico’ por uma mentalidade adolescente.”

Após a morte da escritora, Ted Hughes se encarregou de reunir sua obra em Poemas Completos. Herdeiro da propriedade de Sylvia, Hughes foi acusado de impedir que alguns de seus trabalhos fossem publicados.

Mas não foi esse o motivo para “Mary Ventura and the Ninth Kingdom” ter permanecido inédita até 2009. Sylvia Plath, então com 20 anos, ofereceu a história originalmente à revista Mademoiselle, a publicação cujo prêmio de escrita ela havia conquistado no ano anterior e onde ela estagiaria no verão seguinte, enquanto escrevia The Bell Jar, mas foi rejeitada. Dois anos depois, Sylvia revisou o final da história para torná-la menos sinistra, mais aberta. A versão que está foi publicada no ano passado é o original considerado irritante, o mais rico e, na opinião da editora britânica Faber, que lançou a história em brochura no Reino Unido em 3 de janeiro, “a melhor”.

Nos Estados Unidos, Mary Venturafoi publicada pela HarperCollins em um momento de redescoberta de mulheres escritoras esquecidas, como Lucia Berlin, Katheleen Collins, e também de maior reconhecimento de autoras como Clarice Lispector, Shirley Jackson, Pauli Murray e Lorraine Hansberry.

“Mary Ventura e o Nono Reino” se passa durante uma viagem de trem em que uma menina é enviada sozinha, pelos pais, para um destino desconhecido, como uma possível referência à morte do pai na infância de Sylvia. A personagem da história sente-se em perigo e conta com a ajuda de uma mulher mais velha para fugir do trem, correndo a pé, já que a viagem vai se tornado cada vez mais aterradora. Cada parada do trem acontece em um “Reino”, identificado apenas pela numeração e pelo clima assustador.

Trata-se de uma viagem sem volta, uma história alegórica passível de diversas interpretações, desde a presença inevitável da morte, a “velha senhora” que estará no destino final do conto e da vida de Sylvia Plath, até os dilemas da trajetória para a vida adulta, quando se assume o controle do próprio destino.

É um conto carregado de referências sutis ao ambiente, às personagens principais e aos passageiros e funcionários do trem, com a grande riqueza visual característica do estilo da autora,como na aparição recorrente da cor vermelha.

Para fazer a tradução de uma obra desse tipo, a Editora Globo optou pela tradutora que afirma: “Não sei dizer o quanto é tradução e o quanto é algum tipo de criação. As coisas se misturam, é sempre um equilíbrio”. Bruna Beber, escritora e tradutora, que traduziu de Shakespeare a uma série de 11 obras para o público infanto-juvenil, muitas delas de nomes fundamentais como Dr. Seuss e Lewis Carroll, transformou “The Nine Kingdoms” nos “Nove Reinos” de Mary Ventura.

Autora dos livros de poesia “a fila sem fim dos demônios descontentes” (2006),”balés” (2009),”rapapés & apupos” (2012), “Rua da Padaria” (2013) e “Ladainha” (2017) e de um infantil, “Zebrosinha” (2013), tem também como qualificações o mestrado em Teoria e História Literária pela Unicamp. Seus poemas já foram publicados também em antologias e sites na Alemanha, na Argentina, na Espanha, nos Estados Unidos, na Itália, no México e em Portugal. Traduziu autores como Neil Gaiman e Eileen Myles, entre outros. Participou como autora convidada de diversos eventos literários no Brasil e no exterior, entre os mais recentes a Flip, em 2013, e a Göteborg Book Fair, em 2014, na Suécia, integrando a comissão oficial de escritores que representaram o Brasil.

Também realiza trabalhos em artes visuais, e inaugurou, em fevereiro de 2016, sua primeira exposição individual, a Brinquedos Espalhados, no Oi Futuro (Ipanema, RJ), dentro do projeto Programa Poesia Visual.

O talento para lidar com a estética visual permitiu a Bruna Beber usar as palavras para criar imagens expressivas na tradução de Mary Ventura, como “o ponteiro do relógio encurtou mais um minuto” (the hand of the clock clipped off another minute), “a mulher chegara atabalhoada pelo corredor, corada e esbaforida” (the woman had come lurching down the aisle, puffing and red-faced), “acima do nível do mar de reprovação” (level after blue level of reproach) e “o ar era puro vapor” (the air was thick of steam).

Outra característica da tradução é o uso de registros de linguagem diferenciados para os personagens, com a opção por expressões informais em português, quando aplicável. É saboroso encontrar “Olha a bala, pipoca, amendoim, quem vai querer bala, pipoca, amendoim” (candy, pop-corn, cash-you nuts; get your candy, pop-corn, cash-you nuts), “pirralho malcriado” (damn brat), “rodo por aí desde sempre” (I’ve been traveling here and there as long as I can remember), “acertou na mosca” (you have hit upon it).

Alguns pequenos deslizes em termos mais específicos, como “arrematado por pregos de cobre” referindo-se ao estofamento ficaria mais bem traduzido como por tachinhas de cobre (riveted with brass nails) e moldura da janela seria preferível à “caixilho”, já que este se refere à esquadria externa da janela (next to the windowframe).

Em essência, a tradução de Bruna Beber permite ao leitor brasileiro ter uma experiência bem próxima à do leitor do original de Sylvia Plath, a poeta que optou por ser artista e artífice da palavra, além de ser veículo de transformação da dor e da angústia na grande arte da literatura.

Além da beleza do texto traduzido, a história mereceu uma bonita edição no Brasil, com capa dura, layout primoroso e impressão offset em papel espesso, de gramatura bem elevada. “Mary Ventura e o Nono Reino” resultou em uma aventura ao mundo interior de Sylvia Plath e em uma valiosa experiência no reino da estética.


Sylvia Plath: Mary Ventura e o Nono Reino. Trad. Bruna Beber. Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, Editora Globo, 2019. 47 p.


Dinaura Julles é tradutora com 30 anos de experiência, formada  em Jornalismo (Cásper Líbero), Tradução (PUC)  e pós-graduação em Tradução (USP). Especializada em traduções financeiras, jurídicas e jornalísticas. Traduziu cinco livros da série TED Books, publicados pela Editora Alaúde. Ministra a Oficina de Tradução de Textos da Área Jurídico-Financeira na PUC-SP.

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