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Mesmo cigarro, outra tragada: a nova tradução de Nine Stories por Caetano W. Galindo

Por Kátia Hanna


Uma das imagens mais recorrentes na prosa de J.D. Salinger é a do cigarro. E em todos os contos de Nine Stories lá está ele. No que abre a coletânea, um dos mais tristes e populares do autor, Muriel, a esposa de Seymour Grass, fuma despreocupadamente ao telefone, enquanto conversa com a mãe, alheia ao desfecho trágico que a espera em seu próximo cochilo. Em “O tio Novelo em Connecticut”, as ex-colegas de quarto Eloise e Mary Jane bebem e fumam numa tarde fria, relembrando um passado em que a vida ainda não as havia deixado amargas. No terceiro conto, “Logo antes da guerra com os esquimós”, o entediado Franklin pinça do bolso do pijama “um cigarro que parecia ter passado a noite ali” e o fuma à francesa, inalando pelo nariz a fumaça que havia soltado pela boca. Mary Hudson, a paixão platônica do narrador de “O Gargalhada”, às vezes falava pelos cotovelos, outras “só ficava sentada fumando seus cigarros Hebert Tareyton (com filtros de cortiça)”, quando se reunia com os garotos do Clube dos Comanches. Em “Lá no bote”, patroa e empregada fumam na casa de verão dos Tannenbaum, enquanto o garotinho Lionel se esconde no bote da família, depois de ouvir seu pai ser chamado de judeu sovina. Em “Para Ésme – com amor e sordidez”, as sequelas da guerra atormentam o personagem X, que fuma um cigarro atrás do outro, trancado em seu quarto. No sétimo conto, “Linda a boca, e verdes meus olhos”, “o homem grisalho” e “a garota”, dividem cigarros e mentiras. Em “O período azul de Daumier-Smith”, o divertido e irônico narrador, “sentindo a virtude se esvair”, acende um cigarro na sala dos instrutores de uma escola de arte por correspondência. Na última história, “Teddy”, o pai do garotinho homônimo, fuma na cabine de um navio, enquanto ralha com o filho intelectualmente superdotado.

Embora não se fume o mesmo cigarro duas vezes, a tradução nos permite ler um mesmo livro em línguas, lugares e tempos diferentes. E os leitores brasileiros de J.D. Salinger, desde o ano passado, podem sentir o sabor de uma nova tragada de Nine Stories, na tradução de Caetano W. Galindo, lançada pela editora Todavia.

Nove Histórias, segundo o tradutor, recebeu um ligeiro “banho de loja”[1] em relação à precedente, Nove Estórias, entregue aos leitores brasileiros há mais de 50 anos, na tradução de Jório Dauster e Álvaro Alencar, pela Editora do Autor. O lançamento faz parte de um projeto de reedição das obras de Salinger no Brasil, que inclui The Catcher in the Rye, Franny and Zooe e Raise High the Roofbeam, Carpenters and Seymour, an Introduction, títulos com traduções anteriores no Brasil. Todas as edições da Todavia são de Caetano W. Galindo, um dos mais renomados tradutores da atualidade, ganhador dos prêmios Academia Brasileira de Letras e Jabuti pela tradução de Ulisses, de James Joyce, e professor da Universidade Federal do Paraná.

A necessidade de atualização decorre de traduções serem pensadas para o leitor de agora, explica Galindo, o que difere da criação da grande obra literária; a expectativa do leitor quanto à qualidade de uma tradução literária é outra passado um intervalo de tempo.  Ademais, a tradução “é um projeto editorial – ela tem um mercado, um público e um contrato”, complementa o tradutor.

A declaração de Galindo nos faz pensar em conceitos de André Lefevere[2], pois demonstra como o resultado de uma tradução está longe de ser apenas uma questão de competência linguística.  A patronagem, a ideologia, a crítica e a poética impõem restrições à atuação do tradutor (que as segue ou não) e ao resultado do seu trabalho. “Patronos circunscrevem o espaço ideológico do tradutor; críticos tendem a circunscrever o espaço da poética.”[3]  Em outras palavras, os editores ditam o que pode ser dito, e a crítica como deve ser dito. Lefevere lembra ainda que a tradução não é um processo que existe apenas na cabeça dos tradutores; o texto traduzido existe no olhar do leitor, que, em última instância, é quem decide aceitá-la ou rejeitá-la. Diferentes leitores, portanto, irão exigir diferentes tipos de traduções.

Quando Nine Stories foi publicado nos EUA, em abril de 1953, Salinger havia recentemente se mudado para Cornish, no estado de New Hampshire, aos 34 anos, e já era conhecido por O Apanhador no Campo de Centeio, lançado dois anos antes.  A recepção do livro nos Estados Unidos foi boa, ocupando o nono lugar na lista dos mais vendidos do New York Times, e ficando por três meses entre os vinte primeiros. Na Grã-Bretanha o livro foi lançado com o título For Esmé – with Love and Squalor, and Other Stories. [4]

No Brasil, as obras de Salinger chegaram pela Editora do Autor, fundada em 1960 por Fernando Sabino, Rubem Braga e Walter Acosta. Acosta esteve à frente da editora até recentemente, quando ofereceu à Todavia os direitos de publicação de J.D. Salinger. O clássico O Apanhador teve 19 edições pela editora, com 350 mil cópias vendidas. Franny e Zooe e Nove Estórias foram lançados em 1967, com tiragens bem mais modestas. 

No site da Todavia[5], a missão da editora é descrita como a de “restaurar – em todo o ambiente do livro – a atmosfera uma conversa gentil e letrada entre as gerações” e “apresentar novas traduções de clássicos da literatura”.  No caso das novas traduções de Salinger, a conversa entre gerações é mediada por Galindo, cuja expertise em tradução foi colocada à prova em Ulisses, o que autoriza seu nome para a tradução de clássicos da literatura.

O tom geral que Galindo dá à tradução de Nove Histórias é o de aproximação com o original. Deixando de lado procedimentos como acréscimos, omissões, reconstruções de parágrafos, e utilizando-se mais da tradução literal e de modulações, a nova tradução parece mandar o recado de que o público leitor a qual se destina é exigente e pode muito bem estar com um olho na tradução e o outro no original. 

Não há mais espaço para as notas de rodapé encontradas na tradução anterior, nem para o uso de travessão nos diálogos. Nestes, aliás, uma das marcas da prosa de Salinger, a nova tradução apresenta a recriação de jogos de palavras e soluções que se parecem com alguém falando. Galindo optou por uma formulação “completamente oralizável”, como ele próprio a define.

Em “Um dia perfeito para peixes-banana”, conto que abre a coletânea, o uso de diminutivos  ̶ sofazinho, chinelinho, direitinho, segundinho, tudinho,  miudinhas, maluquinhas, inteirinha, pouquinho, paradinha, barriguinha, pulinhos  ̶  na voz das personagens femininas e do próprio narrador, além da marca de oralidade, empresta ao conto um tom feminino e delicado, de intimidade na conversa de mãe e filha, e de ternura na cena de Seymour e Sybil na praia, contrastando com a brutalidade do final do conto. A solução de Galindo, “Se mói glé?”, para a representação gráfica da oralidade infantil quando Sybil pergunta “See more glass?” é eficaz ao recriar o som do nome do personagem, ainda que não resgate por completo o sobrenome Glass. “Viu mais vidro?”, na tradução precedente, exigiu uma nota de rodapé explicando que no original see more glass é a pronúncia do nome do personagem principal.

A recriação do “oralizável” apresenta soluções criativas como “Nananinanão”, em “Tio novelo em Connecticut”, e de casos de supressão e/ou aglutinação de partes de vocábulos ou de vocábulos inteiros, como em “Que quê cê acha (...)”, “praqueles lado”, na representação da voz empastada das amigas um pouco embriagadas. A conversa das amigas também é regada a gírias como “tapado pra cacete”. Em “Linda boca, e verde meus olhos”, estruturado numa conversa telefônica, “ouvimos”: Chrissake/pelamordedeus,  goddam/cacete, like hell/nem fodendo, ruckus/fuzuê, hit the celing/dar um chilique/, I should left her/eu deveria ter dado um pé na bunda dela/, lemme tellya why /deixaeutecontar/, we’re just mismated as hell/a gente não combina nem a pau.

As escolhas estilísticas dentro de um mesmo campo semântico revelam que a tradução de Galindo está sempre mais colada às opções de Salinger, atitude bem menos observada na tradução anterior. Um bom exemplo são os verbos dicendi. Galindo segue à risca o original, e onde se lê “said”, traduz-se “disse”. Na tradução da Editora do Autor, temos, por exemplo, “corrigiu”, “declarou”, “respondeu”, “comentou”. Nesta nova tradução, nota-se também a preocupação com o layout do texto. Em “Teddy”, as anotações que o garoto faz no diário são preservadas em sua formatação, o que não se observa na tradução anterior.

Se fumar já não está mais em moda como nos EUA do pós-guerra, onde circulavam os personagens de Salinger, a nova tragada de Caetano W. Galindo em Nove Histórias parece que, irá privar, por um bom tempo, outros tradutores de fumar da mesma guimba.


Nove histórias. Trad. Caetano Galindo. São Paulo: Editora Todavia, 2019. 208 p.


[1] A fonte de todas as citações de Caetano W. Galindo é a entrevista do tradutor ao Suplemento Pernambuco, publicada em 21 de setembro de 2019. Disponível em < http://suplementopernambuco.com.br/entrevistas/2354-caetano-galindo-sobre-traduzir-j-d-salinger.html?fbclid=IwAR1y9cpTFXI1D3KcGf9i4Av8k2ywBmnYuTO4IFB-4frb52qHRrhPPWMcW8s>.

[2] LEVEFERE, André. (Org.) Translation/History/Culture – A Sourcebook. London and New York: Routledge, 2003.

[3] Ibidem.

[4]Hamilton, Ian. Em busca de Salinger. Trad. Adalgisa Campos da Silva. Rio de Janeiro: Casa Maria Editorial, 1990.

[5] A nova casa editorial de Salinger no Brasil nasceu em 2017 numa iniciativa dos editores egressos da Companhia das Letras André Conti, Flávio Moura e Leandro Sarmatz, tendo como principal investidor Alfredo Setúbal, no comando da área comercial.


Kátia Hanna é doutora e mestra em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês (área de concentração Tradução) pela Universidade de São Paulo (USP). É professora no curso de Bacharelado em Tradução na Universidade Paulista - UNIP e de Inglês nas Faculdades Tecnológicas do Estado de São Paulo (FATEC) de Itu e de São Roque. Possui experiência em tradução literária e audiovisual.

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