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Mais um Ian McEwan pelas mãos de Jorio Dauster

Por Edilene Pereira Possibom

 


 

O romance Machines like me (and people like you), do premiado escritor inglês Ian McEwan, foi traduzido por Jorio Dauster e publicado no Brasil em 2019 pela Companhia das Letras, com o título Máquinas como eu (e gente como vocês).

A história se passa na década de 1980 numa realidade alternativa, onde a ciência e tecnologia estavam em um nível muito mais desenvolvido se comparado aos dias atuais. No romance, o matemático inglês Alan Turing é atuante no desenvolvimento da internet e na criação de robôs cuja aparência física é igual à dos humanos. Alterações de fatos históricos e sociais também compõem este cenário (o Reino Unido perdeu a Guerra das Malvinas, por exemplo).

Nesse universo, os personagens centrais Charlie e Miranda passam a conviver com Adão, o robô que fora adquirido como companhia e que além de ocupar-se dos afazeres domésticos, possui a capacidade de armazenar informações, discutir sobre qualquer assunto e solucionar qualquer tipo de problema. A indefinição dos limites de uma mente artificial, bem como questões morais e éticas, passam a influenciar no convívio de todos.

Este é o nono livro de Ian McEwan traduzido para a língua portuguesa por Jorio Dauster. Ao fazermos o cotejo entre o texto em inglês e a tradução, notamos que as escolhas do tradutor buscam trazer o texto fonte para mais próximo do leitor brasileiro.

Nos trechos a seguir, o tradutor fez a conversão do sistema de pesos e medidas inglês para o sistema internacional de medidas usado no Brasil:

[...] We are twelve miles away from Shakespeare’s hometown, in what will come to be known as a ‘bog-standard’ comprehensive school. [...] (Machines like me, 19)

[...] Estamos a pouco menos de vinte quilômetros da cidade natal de Shakespeare, no que viria a ficar conhecido como um grupo escolar “meia-boca”. [...] (Máquinas como eu, 23) (grifos meus)

[...] It was the night of a storm engulfing the entire country as it rolled in from the Atlantic. A 70 mph gale. Stinging rain thrashed the windowpanes and penetrated one of the rotten frames and dripped into a bucket. [...] (Machines like me, 88)

[...] Uma tempestade vinda do Atlântico engolfava todo o país. Ventos de cento e dez quilômetros por hora. Gotas pesadas de chuva fustigavam as janelas, penetravam por uma moldura podre e pingavam num balde [...] (Máquinas como eu, 129) (grifos meus)

[...] Each device cost five years’ wages of a dustman. Unlike Adam, it had an exoskeleton and weighed 350 pounds. [...] (Machines like me, 92)

[...] Cada autômato custava o salário de um lixeiro em cinco anos. Ao contrário de Adão, eles tinham um exoesqueleto e pesava cento e sessenta quilos. [...] (Máquinas como eu, 136) (grifos meus)

My car dated from the mid-sixties, a British Leyland Urbala, the first model to do 1,000 miles on a single charge. It had 380,000 on the clock. [...] (Machines like me, 98)

Meu carro datava de meados da década de 1960, um British Leyland Urbala, o primeiro modelo a percorrer mil e seiscentos quilômetros com uma única carga de bateria. O hodômetro acusava seiscentos e oito mil [...] (Máquinas como eu, 145) (grifos meus)

Mais alguns exemplos de escolhas tradutórias que favorecem a uma melhor compreensão do leitor em língua portuguesa:

“I couldn’t think of myself as Adam’s ‘user’. I’d assumed there was nothing to learn about him that he could not teach me himself. But the manual in my hands had fallen open at Chapter Fourteen. Here, the English was plain: preferences; personality parameteres [...].” (Machines like me, 14)

“Eu não conseguia me ver como “usuário” de Adão. Tinha imaginado que não haveria nada a aprender sobre ele que não pudesse ser ensinado pelo próprio. Mas o manual em minhas mãos tinha sido aberto por acaso no Capítulo 14. Lá, a linguagem era clara: preferências; parâmetros de personalidade [...].”  (Máquinas como eu, 15) (grifos meus)

[...] There was a long adjectival list with boxes to tick: outgoing, shy, excitable, talkative, withdrawn, boastful, modest, bold, energetic, moody. I wanted none of them, not for him, not for myself. Apart from my moments of crazed decisions, I passed most of my life, especially when alone, in a state of mood-neutrality, with my personality, whatever that was, in suspension. [...] (Machines like me, 15)

[...] Havia uma longa lista de adjetivos com caixinhas para serem assinaladas: expansivo, tímido, excitável, tagarela, reservado, jactancioso, modesto, audacioso, enérgico, sorumbático. Não queria nada disso, não para ele, não para mim. Exceto por alguns momentos de decisões tresloucadas, eu passava a maior parte do tempo, em especial quando sozinho, num estado de espírito neutro, com minha personalidade, fosse ela o que fosse, em suspensão.[...] (Máquinas como eu, 16) (grifos meus)

[...] With the inheritance, I could have bought a place somewhere north of the river, Notting Hill, or Chelsea. (Machines like me, 17)

[...] Com a herança, eu poderia ter comprado alguma coisa ao norte do Tâmisa, em Notting Hill ou Chelsea. (Máquinas como eu, 19) (grifos meus)

By the curry house and along the greasy pavement outside the fast-food chains, the smell of rotting meat was a force that hit the chest. I held my breath until I was past the Tube station. I crossed the road and walked onto the Common. [...] (Machines like me, 39)

Na proximidade do restaurante de comida indiana, bem como na calçada defronte às lojas de fast-food, o cheiro de carne podre era chocante. Prendi a respiração até passar pela estação de metrô. Atravessei a rua e entrei no parque. [...] (Máquinas como eu, 55) (grifos meus)

Ah! Nice Gonzalo, the hopeless would-be governor. “No kind of traffic would I admit, no name of magistrate.” Then something, “Contract, succession, bourn, bound of something, vineyard, none.”’ (Machines like me, 158)

“Ah, o bom Gonzalo, sempre esperando para ser governador. ‘Nenhum tipo de comércio eu admitiria, nada de magistrados.’ Aí patati-patatá ‘nem contratos, heranças, limites, patati-patatá, vinhas, nada.’” (Máquinas como eu, 238-239). (grifos meus)

[...] He was a kid, possibly an angry kid holding himself together with his laconic blocking answers. He didn’t need to respond to her questions. But he wasn’t cool enough not to. (Machines like me, 170)

[...] Tratava-se de um garotão, possivelmente um garotão irado, procurando se conter com as respostas lacônicas e defensivas. Não precisava responder às perguntas dela. Mas não tinha a frieza necessária para se calar. (Máquinas como eu, 255). (grifos meus)

[...] Now he was taking his time to reply to Miranda. He must have progressed to the second stage. His voice was calm.

‘Alms.’

‘Arms?’

‘Alms. Don’t you know this one? Time hath, my Lord, a wallet at his back where in he puts alms for oblivion.’

I said, ‘You’ve lost me. Oblivion?’

‘Shakespeare, Charlie. Your patrimony. How can you bear to walk around without some of it in your head?’ (Machines like me, 188-189)

[...] Agora estava demorando para responder a Miranda. Devia ter atingido o segundo estágio. A voz soou calma.

“Óbolos.”

“Óvulos?”

“Óbolos. Não conhece isso? ‘O tempo, meu lorde, carrega uma sacola nas costas onde põe óbolos para o oblívio.’”

Eu disse: “Oblívio? Não entendi nada”.

“Shakespeare, Charlie. Seu patrimônio. Como pode viver sem ter isso na cabeça?” (Máquinas como eu, 282 – grifos meus)

O grupo Companhia das Letras possui uma página na internet (www.blogdacompanhia.com.br) e, dentre as seções em destaque destinadas ao mercado editorial, é possível ter acesso aos lançamentos dos livros e aos dados de cada edição, onde o nome do tradutor está presente na ficha técnica de cada obra traduzida. Além disso, na referida página eletrônica, é possível ler artigos sobre tradução e entrevistas com tradutores, o que demonstra o reconhecimento e valorização da tradução literária. O nome do tradutor também está em destaque na folha de rosto e na contracapa da edição impressa.

Além de ser sucesso editorial, o livro de Ian McEwan se apresenta ao leitor brasileiro como uma fonte de reflexões tanto pelo enredo quanto pela complexidade dos personagens, e isso é possível graças ao trabalho do tradutor que funciona como uma ponte entre as duas culturas.


Ian McEwan: Máquinas como eu: e gente como vocês. Trad. Jorio Dauster. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, 328 p.


REFERÊNCIAS

MCEWAN, Ian. Machines like me and people like you. Random House Group, 2019, 221p.

MCEWAN, Ian. Máquinas como eu: e gente como vocês. Tradução de Jorio Dauster. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, 328p.

BLOG DA COMPANHIA. Traduzindo Ian McEwan, por Jorio Dauster, em 21/06/2018. Disponível em https://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/Traduzindo-Ian-McEwan

Acesso em agosto / 2020.

BLOG DA COMPANHIA. Entrevista com Ian McEwan, em 18/09/2019. Disponível em

https://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/Ian-McEwan-sobre-reescrever-o-passado-Nao-chega-a-ser-uma-distopia-mas-algo-um-pouquinho-melhor-que-a-realidade7

Acesso em agosto / 2020.

TV SENADO (Programa Leituras). Entrevista com o tradutor Jorio Dauster, publicada na internet em 23/05/2020.

Disponível em https://youtu.be/lEYxOgvZe8s

Acesso em agosto / 2020.


Edilene Pereira Possibom, paulistana, apaixonada por livros e gatos, é formada em Letras - Português/Inglês (Unicsul, 1994), com pós-graduação em tradução (Gama Filho, 2012). Frequentadora assídua da Casa Guilherme de Almeida, participou do Programa Formativo para tradutores literários (2015) e do Programa de Aprimoramento em tradução literária (2020).

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