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TRADUZINDO RITMOS GRÁFICOS DA PÁGINA

TRADUZINDO RITMOS GRÁFICOS DA PÁGINA: ALGUNS ASPECTOS DA EXPERIÊNCIA DE RECONSTRUÇÃO CRIATIVA DA UTOPIA DE THOMAS MORE

Por Ana Cláudia Romano Ribeiro

 

Em 2019, concluí meu projeto de tradução da Utopia de Thomas More e, no Encontro de Tradução dos Clássicos do mesmo ano, apresentei alguns exemplos de como traduzi em português a prosa poética neolatina do autor inglês¹. Na presente fala apresentada no VI Encontro de Tradução dos Clássicos, em 2020, eu gostaria de sistematizar algumas etapas dessa tarefa que assumiu, em consonância com Haroldo de Campos, o pressuposto da tradução como criação e crítica, sem desconsiderar sua multidimensionalidade e seu arquitexto², subjacente a um texto compósito e enigmático, conforme a bibliografia específica não cessa de reiterar³. Mais particularmente, quero pensar a relação entre uma tendência interpretativa da Utopia que eu segui (crítica) e meu projeto tradutório (criação). 

Uma parte desse projeto diz respeito ao aspecto visual das páginas da edição que me serviu de fonte principal – a edição bilíngue (latim-inglês) das obras completas de Thomas More publicadas pela Yale University Press em 1965 – e, portanto, a edição que eu mais rabisquei. Para desenvolver meu raciocínio, parto desses rabiscos, testemunho material do processo de tradução. À guisa de exemplo, trago minha tradução da primeira página da carta-prefácio de Thomas More a Pieter Gillis, que faz parte do jogo ficcional da Utopia. Pieter Gillis, vale lembrar, juntamente com Erasmo, cuidou da edição dessa obra. As cores salientam as figuras de repetição mais evidentes (que serviram de balizas para a minha tradução), sejam elas quais forem: germinadas nos imperativos sintáticos da língua latina, nas razões estilísticas de ênfase ou em outros aspectos. Para uma visualização mais imediata do ritmo visual impresso pelos diferentes tipos de figuras de repetição, reforcei as cores usando um papel vegetal colocado por cima das folhas do livro, à esquerda, e da minha tradução, à direita – daí o embaçamento proposital da imagem. Interessa-me neste momento perceber o ritmo das figuras de repetição ressaltado pelas cores: 

 

        

 

As figuras de repetição marcam toda a Utopia. Elas podem ser entendidas como parte do processo composicional de uma obra que, por um lado, se inscreve dentro da tradição da filosofia política e é herdeira direta da discussão dialógica acerca da melhor forma de organização social; se seu modelo explicitamente citado é a República platônica, percebe-se que ela também é herdeira das discussões relativas às relações entre o tirano e o filósofo – e aqui não há como não se lembrar da Carta VII de Platão. Por outro lado, a Utopia participa dos embates a respeito da relação entre eloquência e sabedoria e não pode ser desvinculada de certa tomada de posição a respeito da escrita, expressa na carta de Thomas More a Maarten van Dorp, redigida na mesma época que a Utopia (ver More, 1986).

As figuras de negação, ou lítotes, também têm uma presença significativa na Utopia. Elas combinam perífrase e ironia com dissimulação (Lausberg, p. 164), elementos que vão construir todo o edifício ficcional da Utopia mediante formulações oblíquas. Elizabeth McCutcheon (1971), em um estudo seminal sobre a presença das figuras de negação na Utopia, identifica a grande variedade do emprego dessa figura e dos efeitos que elas produzem. Juntamente com as figuras de repetição, elas constituem grande parte dos jogos de palavra na Utopia.

Para exemplificar isso, leiamos a página inicial da carta-prefácio, parte integrante da ficção utópica. Ela foi enviada juntamente com o livro I e o livro II da Utopia para Pieter Gillis e nela, Thomas More explica o atraso do envio do manuscrito e cita Rafael Hitlodeu, o marinheiro-filósofo português que esteve em Utopia e cujas falas constituem a maior parte dos livros I e II. Apresento abaixo o trecho em tradução e no original latino.

 

Carta-prefácio (1º carta de More a Gillis, 3 de setembro de 1516, publicada na 1ª edição): 

THOMAS MORUS PETRO AEGIDIO S. D.



PVdet me propemodum charissime Petre Aegidi libellum hunc, de Vtopiana republica, post annum ferme ad te mittere, quem te non dubito intra sesquimensem expectasse. quippe quum scires mihi demptum in hoc opere inueniendi laborem, neque de dispositione quicquam fuisse cogitandum, cui tantum erant ea recitanda, quae tecum una pariter audiui narrantem Raphaelem. quare nec erat quod in eloquendo laboraretur, quando nec illius sermo potuit exquisitus esse, quum esset primum subitarius, atque extemporalis, deinde hominis, ut scis, non perinde Latine docti quam Graece, & mea oratio quanto accederet propius ad illius neglectam simplicitatem, tanto futura sit propior ueritati, cui hac in re soli curam & debeo & habeo. Fateor mi Petre, mihi adeo multum laboris hijs rebus paratis detractum, ut pene nihil fuerit relictum. alioquin huius rei uel excogitatio, uel oeconomia, potuisset, ab ingenio neque infimo, neque prorsus indocto postulare, tum temporis nonnihil, tum studij. quod si exigeretur, ut diserte etiam res, non tantum uere scriberetur, id uero a me praestari, nullo tempore, nullo studio potuisset. Nunc uero quum ablatis curis hijs, in quibus tantum fuit sudoris exhauriendum, restiterit tantum hoc, uti sic simpliciter scriberentur audita, nihil erat negocij. sed huic tamen tam nihilo negocij peragendo, caetera negocia mea minus fere quam nihil temporis reliquerunt. Dum causas forenseis assidue alias ago, alias audio, alias arbiter finio, alias iudex dirimo, dum hic officij causa uisitur, ille negocij, dum foris totum ferme diem alijs impartior, reliquum meis, relinquo mihi, hoc est literis, nihil. Nempe reuerso domum, cum uxore fabulandum est, garriendum cum liberis, colloquendum cum ministris. quae ego omnia inter negocia numero, quando fieri necesse est (necesse est autem, nisi uelis esse domi tuae peregrinus) & danda omnino opera est, ut quos uitae tuae comites, aut natura prouidit, aut fecit casus, aut ipse delegisti, hijs ut te quam iucundissimum compares, modo ut ne comitate corrompas, aut indulgentia ex ministris dominos reddas. Inter haec quae dixi elabitur dies, mensis, annus. Quando ergo scribimus? nec interim de somno quicquam sum loquutus, ut nec de cibo quidem, qui multis non minus absumit temporis, quam somnus ipse, qui uitae adsumit ferme dimidium. At mihi hoc solum temporis adquiro quod somno ciboque suffuror, quod quoniam parcum est, lente, quia tamen aliquid, aliquando perfeci, atque ad te mi Petre transmisi Vtopiam ut legeres, & si quid effugisset nos, uti tu admoneres. Quanquam enim non hac parte penitus diffido mihi (qui utinam sic ingenio atque doctrina aliquid essem, ut memoria non usquequaque destituor) non usqueadeo tamen confido, ut credam nihil mihi potuisse excidere.

DE THOMAS MORE A PIETER GILLIS, COM OS MELHORES CUMPRIMENTOS


Sinto-me quase envergonhado, meu caríssimo Pieter Gillis, por enviar-te este livrinho4 sobre a república utopiana depois de praticamente um ano, sendo que (não duvido) tu o esperavas em um mês e meio porque sabia que, para este trabalho, aliviado da preocupação com a invenção e não precisando pensar na disposição dos assuntos, era preciso apenas repetir o que, junto contigo, ouvi contar Rafael, e por isso nem havia porque me preocupar com o modo de dizer5, já que o relato dele não podia ser elegante, tendo sido, em primeiro lugar, feito de improviso e sem preparação6, e depois, por uma pessoa, como sabes, não tão douta em latim quanto em grego7; assim, quanto mais perto minha escrita chegar da simplicidade negligente dele8, mais perto estará da verdade, que é a única coisa à qual devo e devoto meu empenho. Confesso, meu caro Pieter, que, por estarem prontas, essas coisas de fato subtraíram boa parte de minhas preocupações, porque quase nada ficou por fazer; em caso contrário, imaginá-las e organizá-las poderia demandar um engenho nem ínfimo, nem completamente indouto, além de não pouco tempo, e além de aplicação. Mas, se me fosse exigido que escrevesse9 não somente com verdade, mas também com eloquência, para fazer isso, na verdade, não poderia dispor nem de tempo, nem de aplicação. É verdade, porém, que, suprimidas estas tarefas, que me fariam tanto suar, restaria apenas isto: escrever o que ouvi de modo simples10 – um negócio de nada. 11

Mas mesmo tratando-se de um negócio tão de nada, meus outros negócios me deixaram tempo para menos que nada praticamente. Tantas vezes12 há processos forenses: conduzo alguns, defendo alguns, arbitro alguns como advogado, sentencio alguns como juiz, tantas vezes visito este por uma obrigação, aquele por um negócio, tantas vezes, fora, dedico quase todo o meu dia a alguns e o que resta, aos meus, que resta para mim, isto é, para as letras, nada13. Sim, pois, quando volto para casa, tenho que confabular com a minha esposa14, brincar com as crianças, conversar com os criados – todas essas coisas eu coloco na categoria dos negócios, pois são necessárias (e têm que ser necessárias, a não ser que queiras ser um estranho em tua casa) e é preciso dar total atenção aos teus companheiros de vida, sejam os que a natureza proveio, sejam os que o acaso produziu, sejam os que escolheste, a quem tratas com a maior amabilidade, mas sem que teu companheirismo os corrompa e a indulgência não transforme os criados em senhores15. Nessas ocupações que mencionei vão-se dias, meses, anos. Logo, em que momento escreveríamos? E não disse o que quer que seja a respeito do sono, e nem tampouco da comida, que a muitos não consome menos tempo que o sono, que some com quase a metade da nossa vida16. Tempo para mim, porém, eu consigo somente quando de vez em quando o furto ao sono e à comida e, como ele é pouco e porque isso já é alguma coisa, lenta e finalmente terminei a Utopia e a ti, meu caro Pieter, a envio para que a leia e me avise caso algo nos tenha escapado. 

 
 


Esse é um pequeno exemplo da variedade de recursos que participam de uma estratégia enunciada no livro I, o ductus obliquus ou “via oblíqua”. Em um diálogo em que Rafael Hitlodeu, o marinheiro-filósofo português, dá exemplos da incompatibilidade entre governo e filosofia, e conclui que não há lugar para a filosofia junto aos príncipes, o Thomas More personagem se interpõe e defende uma estratégia de participação do filósofo na política, que ele chama de “via oblíqua”. Vejamos como ele a exprime (em um trecho marcado por figuras de repetição que tentei manter na tradução, indicadas em negrito):

[...] non ideo tamen deserenda Respublica est, & in tempestate nauis destituenda est, quoniam uentos inhibere non possis. at neque insuetus & insolens sermo inculcandus, quem scias apud diuersa persuasos pondus non habiturum, sed obliquo ductu conandum est, atque adnitendum tibi, uti pro tua uirili omnia tractes commode. & quod in bonum nequis uertere, efficias saltem, ut sit quam minime malum. Nam ut omnia bene sint, fieri non potest, nisi omnes boni sint, quod ad aliquot abhinc anos adhuc non expecto. 

[...] não deves, porém, [...] desassistir a república, nem desistir de um navio durante uma tempestade porque não consegues deter os ventos. Por outro lado, não devem ser inculcados discursos inusuais e insólitos que sabes não terem peso entre os que estão persuadidos do contrário, mas por meio de uma via oblíqua deves tentar e esforçar-te para com teus recursos manejar todas as coisas vantajosamente a teu favor, e o que não puderes converter em bem, que ao menos faças com que seja o menor mal possível, pois não poderá acontecer de tudo estar bem a não ser que todos sejam bons, o que há vários anos já não espero.

É a partir dessa noção de via oblíqua que Miguel Abensour, no verbete dedicado à Utopia do Dictionnaire des oeuvres politiques, propõe uma leitura dessa obra. Assumindo a noção de escrita indireta ele se opõe a três tipos de leituras, que veem nessa obra de Thomas More uma defesa de um cristianismo social, ou um plano de ação, ou uma defesa do comunismo. Abensour percebe que a obra Utopia é “o fruto de um dispositivo textual, complexo à porfia, cheio de armadilhas, que brinca com o desejo do leitor, expondo-o permanentemente a um engodo. Jogo sábio, sutil, erudito, jogo aéreo de humanista simples como uma pomba, mas inteligente como uma serpente” (2001, p. 583, tradução minha). Ele afirma que não conseguem se aproximar dela as leituras que não levam em conta a obliquidade da escrita, que exigem do leitor uma paciência de caçador com o deciframento do dispositivo textual. 

Abensour embasa sua leitura em um livro de Leo Strauss, Persecution ant the art of writing, de 1952, publicado no Brasil em 2015, com o título Perseguição e a arte de escrever, na tradução de Hugo Langone (2015). Nesse livro, Strauss, estudando a condenação de Sócrates, analisa o fenômeno da perseguição que ameaça o filósofo, já que a filosofia “é a tentativa de dissolver o elemento no qual a sociedade respira e, por isso, ela coloca a sociedade em perigo” (apud Abensour, 2001, p. 586, tradução minha). O filósofo pode respeitar as regras de determinada sociedade, mas o livre pensamento não pode tolerar nenhum limite. Como, então, pensar livremente sem sofrer perseguição? Strauss recorre a obras filosóficas do período medieval, da tradição judaica e árabe e encontra nelas uma técnica de escrita que consiste em escrever nas entrelinhas. Garante do livre pensamento, essa técnica não fere diretamente a opinião. Recorre ao uso de subterfúgios, como pseudônimos, ambivalências e contradições intencionais, procedimento especialmente importante, porque seria o principal sinalizador, para o público leitor, de que há algo escondido no texto. Essa forma de escrita “tende a instituir uma pluralidade de espaços de comunicação, um espaço público no qual o objeto em questão pode ser tratado segundo as exigências da cidade, e um espaço filosófico no qual o objeto é considerado do ponto de vista da verdade” (Abensour, 2001, p. 586). Além do perigo da perseguição, Strauss também cita o perigo das apropriações abusivas, da diluição e da degradação do pensamento filosófico em detrimento de uma orientação ideológica. 

Abensour assinala a importância do grande diálogo do livro I, que contém dentro dele a rememoração de outro diálogo, o “diálogo do conselho” (assim nomeado por Jack H. Hexter em More’s Utopia, the biography of an idea, de 1952), nos quais se discute a relação entre filosofia e política na tradição dos diálogos platônicos. A sátira antiga é outro arquitexto importante. Para Robert Elliott (1970), é como se a Utopia fosse a renovação, em prosa, dos versos de Horácio, Pérsio e Juvenal e da sátira grega de um Luciano de Samósata, constituindo-se, de forma geral, numa forma dupla que conjuga negativo e positivo, ou seja, exposição e crítica dos vícios e depois, apresentação de um modelo normativo virtuoso, ainda que portador de ambiguidade. Ele analisa as diferentes estratégias que cada voz coloca em cena para satirizar e os tons variados da ironia como, por exemplo, o elogio de algo que é claramente desprezível, a não-contraposição do Thomas More-personagem a certas passagens que descrevem os costumes utopianos narrados por Rafael Hitlodeu, e a confusão que pode se instaurar quando o leitor confronta a máscara do Thomas More-personagem ao Thomas More empírico.

A Utopia, porém, é um labirinto que desconcerta o leitor, por ter sinais de ambivalência espalhados do início ao fim e muito disfarce: ela é um relato de viagem, é satírica, tem algo da farsa medieval, da comédia, do tratado sobre o melhor regime político e de projeto de legislação. Vale lembrar que aquele que descreve o não-lugar é Rafael Hitlodeu, cujo nome evoca São Rafael, a embarcação de Vasco da Gama que abriu a rota para as Índias em 1498, evoca o nome do anjo bíblico que em Tobias 10 dá a receita para Tobias curar seu pai da cegueira – em hebreu, inclusive, Rafael quer dizer “Deus cura”. A etimologia do sobrenome Hitlodeu sugere uma personagem hábil em contar lorotas ou bagatelas (da palavra grega hythlos, que resultará num verbo significando “falar bobagens” e daios, também em grego, que significa “hábil”). Hitlodeu seria alguém hábil em comunicar tolices; porém, daios também pode significar, em grego, “destruidor, exterminador”, aquele que é hostil a algo, portanto, Hitlodeu seria também alguém hostil às tolices, ou seja, um sábio. Cabe ao público leitor lidar com o duplo sentido contraditório daquele que é o porta-voz da Utopia. Não surpreende que a capital da Utopia, na primeira edição, derivasse seu nome da palavra mentir. A astúcia, virtude suprema para os utopianos, parece ser a virtude suprema da escrita moreana.

Não há tempo, aqui, para mostrar longamente como a expressão oblíqua, astuciosa, age na escrita da Utopia, tanto em grandes linhas quanto no detalhe, mas quero terminar relacionando esse modo de expressão a uma escrita que reabilita a retórica pensando uma nova relação entre sociedade e filosofia. A via oblíqua favorece uma atitude contrária à rigidez da opinião dogmática, podendo funcionar, portanto, como uma ferramenta do exercício do pensamento. No conflito entre humanistas e dialéticos, de que a carta a Maarten van Dorp que citei anteriormente é um testemunho, More se coloca como herdeiro da tradição retórica de Isócrates, de Cícero e de Quintiliano, e compartilha com eles a consideração pelo estilo (cf. Fleisher, 1973). As figuras de negação e as figuras de repetição que eu mostrei no início da minha fala, não são apenas ornamento acessório, são indícios de uma concepção substantiva de eloquência, que significa pelo jogo.  


¹ Este trabalho resulta de um pós-doutorado realizado entre 2013 e 2018 no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas, na área de Estudos Clássicos, sob a supervisão de Isabella Tardin Cardoso e com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (processos n. 452413/2016-8, 473846/2014-4 e 150068/2013-1) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (processo n. 13/24131-7). Atualmente, minha edição da Utopia encontra-se no prelo, na Editora da Universidade Federal do Paraná; ela traz a tradução dos paratextos das quatro primeiras edições, livro I e II, com revisão da tradução latina por Paulo Sergio de Vasconcellos e tradução dos trechos em grego por Lucia Sano, às quais se somam introdução e notas. As notas dos trechos traduzidos da Utopia que apresento aqui foram retiradas dessa edição.

² Sobre a noção de arquiteto, ver Genette, 1986 e 2010.

³ Ver, por exemplo, as visadas de Robert Adam e outros críticos em More, 1992; as introduções Surtz e de Prévost em, respectivamente, More, 1965 e More, 1978; ver também Sargent, 2005; Schmidt, 2009, entre outros.

4 O “livrinho” (libellus) de More, em sua primeira edição, tem 18.000 palavras, 167 páginas e 180 x 135 mm de dimensão. O uso do diminutivo libellus vincula a Utopia a uma tradição anterior expressa em Ovídio e em Boccaccio, por exemplo. Ela colabora para a construção de uma imagem autoral ao mesmo tempo em que se vincula a uma tradição helenística. Sobre isso, ver o capítulo 5.4, “Libellus – diminutivo, autodepreciação e modéstia”, da tese de doutorado de Juliani, 2016. Libellus também é a forma com que Erasmo se refere a seu Institutio principis Christiani (Opus epist. 2, ep. 393, p. 207, l. 70). 

5 Quintiliano, em seu De institutione oratoria, discorre sobre as cinco partes da retórica: inventio, dispositio, recitatio, elocutio e dictio ou actio. Neste trecho da carta de More a Gillis, “invenção [...] disposição [...] modo de dizer” traduzem inueniendi [...] dispositione [...] eloquendo, operações da retórica clássica que o talento de Hitlodeu já executara com excelência, enumeradas neste trecho de Quintiliano: Rhetorice est inueniendi recte et disponendi et eloquendi cum firma memoria et cum dignitate actionis scientia [“A retórica é a ciência de inventar, dispor e dizer adequadamente, com boa memória e com o decoro da actio] (Inst. 5.10.54). Humanistas como Budé retomaram esta definição da melhor forma de eloquência: aussy prompte et ingénieuse invention, disposition aussy bien ordonnée et correspondante, éloquution aussy copieuse et condecente que chacun saurait désirer. Lesquelles choses (avec la mémoire et prononciation) sont les parties requises à vrai eloquence. [“invenção tão ágil quanto engenhosa, disposição tanto bem ordenada quanto afim, elocução tão copiosa e conveniente quando cada um poderia desejar, coisas que (com a memória e o decoro da actio) são as partes requeridas pela verdadeira eloquência”] G. Budé, De l’institution du prince. Épître dédicatoire à François Ier (apud More, 1978, p. 342, n. 5). 

6 “de improviso e sem preparação” (subitarius, atque extemporalis: Quintiliano assevera que “certamente o maior fruto dos estudos é [...] a faculdade de improvisar” (maximus uero studiorum fructus est [...] ex tempore dicendi facultas, Inst. 10.7.1). Em uma carta de 1517 a Warham, More escreve: a Utopia, mais do que ter sido por ele elaborada , escapou de suas mãos (elapsum potius quam elaboratum, Rogers, ep. 31, p. 87, ll. 35-36). Prévost toma como factual tal informação, atribuindo à rapidez da escrita da Utopia inconsistências tais como termos modificados e/ou não corrigidos em todas as ocorrências (More, 1978, p. 345, n. 1). 

7 O fato de Rafael Hitlodeu saber mais grego do que latim não é anódino. Essa informação, retomada no livro I da Utopia, indica uma tomada de posição a favor dos “Gregos”, grupo ao qual pertenciam More e seus amigos humanistas, que se contrapunha ao dos “Troianos” (ou escolásticos) da Universidade de Oxford. Os Troianos, opositores do modo de ensinar de Erasmo (ver CW4, p. lxxxi), são alvo de troça em uma passagem da Utopia (CW4 158/20-29). Sobre isso, ver as cartas de More em CW15 (1986) e um contexto maior em Saladin, 2004 e Rummel, 1998. 

8 Quintiliano aconselha aos filósofos evitar “boa parte dos ornamentos da linguagem” (plerique orationis ornatus”, Inst. 11.1.33-34). Nascimento lembra que a tópica expressa pelo termo neglecta simplicitas equivale ao scienter nescius sapienter indoctus da regra beneditina: “quanto maior é a ciência, menos ela impressiona, mas a sua eficácia é certa” (cf. Morvs, 2006, p. 376, n. 37). Sobre o termo neglecta simplicitas como pista falsa, ver Ribeiro, 2015. 

9 “imaginá-las [...] organizá-las [...] escrevesse [...] com eloquência” traduz excogitatio [...] oeconomia [...] ut diserte [...] scriberetur, retomando em outros termos o que já foi dito a respeito da inuentio, dispositio e eloquentia das palavras de Hitlodeu. 

10 A ideia de colocar em ordem anotações feitas em momentos diversos encontra-se de fato no processo de composição da Utopia, escritas em blocos que More agenciou. Sobre as etapas de composição da obra, ver “La genèse de l’oeuvre”, na introdução de Prévost em More, 1978, p. 61-72. 

11 Tópica da confessio humilitatis, ou seja, o autor confessa sua suposta falta de habilidade para escrever a obra. 

12 A repetição enfática de dum foi aqui livremente substituída por “tantas vezes”. 

13 Em uma carta de 14 de janeiro de 1517 a Erasmo, More escreve: neque tempus ad scribendum neque animus ad cogitandum suppetit, tam assidue negociis premor [“nem tempo para escrever, nem ânimo para pensar a meu dispor, de tanto que estou incessantemente sobrecarregado por negócios”] (Opus epist. 2, ep. 513, p. 430, ll. 3-4). Desde 3 de dezembro de 1514, More faz parte da sociedade Doctors’ Commons, que reúne advogados. Em finais de outubro, depois de um período em Bruges, no qual defende os interesses de Henrique VIII (citado no início da Utopia), More volta para a Inglaterra e atua como advogado dos Mercers (comerciantes) e membro da corte dos magistrados; em janeiro de 1516 começa a frequentar a corte a convite do rei e do Grão-Chanceler Wolsey; trabalha com ensino e administração na escola de direito Lincoln’s Inn e leciona ainda na Furnivall’s Inn; em 10 de junho de 1516 é eleito conselheiro jurídico da comissão designada para fixar os preços dos alimentos em Londres, um dos temas do livro I da Utopia (cf. Prévost em More, 1978, p. 346, n. 1). 

14 Em 1510, aos vinte e oito anos, More casara-se com Jane Colt, de dezessete anos, e com ela teve três filhas e um filho: Margaret (1505), Elizabeth (1506), Cecily (1507) e John (1509). Em 1511, viúvo, casou-se em segundas núpcias com Alice Middleton, viúva de um mercador londrino. 

15 Erasmo, na carta a Hutten de 23 de julho de 1519 (Opus epist. 4, ep. 999, p. 14-19, l. 60-79 e 168-186) e William Roper, primeiro biógrafo de More (e cunhado), referirão a preocupação do autor do libellus aureus com a vida familiar, que parece obedecer aos preceitos das Doze qualidades do amante (Duodecim conditiones amantis), preceitos em versos de Pico della Mirandola, que apresenta como ideais a combinação do amor humano com o amor divino, traduzido por More como The twelve properties or conditions of a lover (More, 1931).

16 Stapleton, um dos primeiros biógrafos de More, conta que ele dormia apenas cinco horas e levantava-se às duas horas da madrugada (em More, 2002, p. 4, n. 7). Segundo a moral estoica (e segundo os utopianos), é preciso moderar o tempo do sono e o da alimentação de forma que se tenha tempo para atividades do espírito (cf. Sêneca em suas Cartas a Lucílio). No epigrama 107, More dirá: Almost half of life is sleep [“Dormir é quase metade da vida”] (ver em CW3-II ou More, 1984), ideia referida na Ética a Nic. de Aristóteles (I, 13 1102b).


REFERÊNCIAS

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SCHMIDT, Gabriela. The Translation of Paradise: Thomas More’s Utopia and the Poetics of Cultural Exchange. In: Pordzik, Ralph (ed.). Futurescapes. Space in utopian and science fiction discourses. Amsterdã/Nova Iorque: Brill/Rodopi, 2009, p. 23-52.    

STRAUSS, Leo. Perseguição e a arte de escrever e outros ensaios de filosofia política. Tradução de Hugo Langone. Apresentação de João Cezar de Castro Rocha. São Paulo: É realizações, 2015. 

Ana Cláudia Romano Ribeiro, docente do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo, é autora da tradução, introdução e notas da utopia francesa A terra austral conhecida (1676) de Gabriel de Foigny (Editora da Unicamp, 2011). Atualmente está no prelo sua tradução com introdução e notas da Utopia (1516) de Thomas More (editora da UFPR), resultado de um pós-doutorado realizado na área de Letras Clássicas do departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas. Coeditou a revista Morus – Utopia e Renascimento de sua fundação ao último número (13, 2018) e tem se dedicado à tradução de poesia e teatro, a experiências performativas, às artes visuais e à poesia.  

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CASA GUILHERME DE ALMEIDA
CENTRO DE ESTUDOS DE TRADUÇÃO LITERÁRIA

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