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Berlim — A sinfonia da metrópole

Terça-feira, 10 de julho de 1928

CINEMATOGRAPHOS

 

Berlim — A sinfonia da metrópole [1]

 

      Só há uma coisa sem a qual não estou de acordo, neste filme: o título. Por que Berlim? A DEFA[2] produziu uma obra originalíssima, que é uma síntese admirável da vida de todas as capitais civilizadas deste mundo, e alguém lhe pôs um rótulo que tenta diminuir-lhe esse caráter superior de universalidade, restringindo-o à formidável metrópole alemã. Tentativa inútil. O filme é, em si, tão bem construído, e seu sentido íntimo, expresso numa linguagem universal (essa divina linguagem das artes legítimas, que é de todos e para todos), é tão claro e nítido; tudo, aí, é tão atual, dessa atualidade que uniformiza, iguala, aplatit o mundo, − que qualquer esforço no sentido condenável de querer individualizar, localizar este filme, seria tolo, senão ineficaz.

Sinto que Walter Ruttmann, quando, com tamanho desassombro e com tal talento, dirigiu a filmagem desta película, nada mais tinha em vista do que fixar um dia de vida numa “cosmópole”, que cosmópoles são todas as capitais hoje. E fê-lo superiormente.

Com uma câmera muito perspicaz e habilidosamente camouflée, Ruttmann, sem ser visto, surpreendeu — conhecedor profundo da vida cidadina — os aspectos essenciais e mais significativos da cidade que focalizou, conseguindo dela instantâneos vivíssimos, naturalíssimos, sem essa odiosa “pose” de última hora, com mãos nervosas arranjando depressa o laço da gravata, e trousses vaidosas retocando um pouco os lábios e os cabelos fugidios... Nada disso. Todo o mundo entrou em cena “à son insu”, talvez até contra a vontade, à força... Por isso mesmo, é todo o filme de uma convincente, fortíssima sinceridade.[3]

Não é possível descrever-se uma coisa que já de si é puramente descritiva. O que é possível, é, apenas, destacar uma ou outra fotografia que mais consegue seduzir pela beleza do imprevisto e audácia de realização. Assim é a chegada à cidade, por uma antemanhã, num trem veloz que vai analisando e decompondo a paisagem toda mecânica de fios, postes, trilhos, pontes, fumaças, rodas, pistões, sinais... E também os aspectos matinais das ruas, onde ainda não há vida, das ruas que esperam os homens, como tentáculos absorventes. Ruttman faz, então, um verdadeiro poema, com a trouvaille daquele jornal rolando, perdido e sozinho, ao primeiro vento frio da madrugada, pelas sarjetas vazias: primeiro sinal de vida na grande cidade. Ótima é toda a parte mecânica, industrial, em que os homens se vão ritmando de tal maneira com os engenhos de aço que a cidade toda se integra na máquina e, em vez de viver, funciona... Afinal, os aspectos noturnos, quando as ruas, as coisas e as gentes, molhadas de chuva, parecem feitas de oleado lustroso, ferindo fortemente a película impressionável...

Outra excelência do filme: não tem letreiros. A moda de A última gargalhada está pegando, graças a Deus. E, queira Deus, peguem também outras várias modas novas que este filme lança com ousadia!


 

1 O filme teve sua estreia oficial em Berlim, em 23 de setembro de 1927.

2 Guilherme de Almeida deve ter querido se referir à UFA (Universum Film AG), produtora e distribuidora de filmes alemã durante as décadas de 1920 e 1930, a mesma que, curiosamente, só viria a se chamar DEFA (Deutsche Film-Aktiengesellschaft) a partir de 1946, após a Segunda Guerra Mundial. De todo modo, a produção de Berlim coube à Fox-Europe, subsidiária da FOX americana, e à Deutsche Vereins-Film, produtora local.

3 O documentário de Ruttmann pretendeu contar um dia inteiro na vida da metrópole alemã a partir de cenas achadas no cotidiano de uma cidade que vivia ainda uma ressaca advinda dos conflitos da Primeira Guerra Mundial. Isso se observa no ritmo da montagem ágil e inovadora, contrastada ao comportamento “robotizado” de berlinenses consumidos pela realidade capitalista moderna. Embora a grande maioria das cenas tenha sido capturada com câmeras escondidas, nitidamente percebem-se certas encenações arquitetadas para intensificar o ritmo da grande cidade; é o caso da garota que pula de uma ponte, ou da velha que entra numa igreja calmamente enquanto os transeuntes e veículos passam alheios por uma larga avenida.

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