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ADAPTAÇÕES DE DOM QUIXOTE PARA O CINEMA

O Dom Quixote dinamarquês pela crítica de Guilherme de Almeida

 

João Eduardo Hidalgo[1]

 

 

O romance El ingenioso Hidalgo Don Quijote de La Mancha de Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616) é considerado um marco iniciador do romance moderno. O protagonista não é um herói clássico como Hércules, Ulisses ou o rei Artur, mas um homem comum com suas mazelas, desejos, inseguranças e percepção não mais ubíqua da realidade. O romance é dividido em duas partes: a primeira foi publicada em 1605 e obteve imenso sucesso, suscitando imitadores e falsificações; em 1615, um ano antes de sua morte, Cervantes lança a segunda e última parte. Quando o segundo volume foi impresso, o primeiro já havia sido traduzido para inglês, francês e italiano, e hoje encontra-se em todos os idiomas que têm escrita conhecida, neles incluídos Euskera, Catalão, Occitano e Farsi.

Miguel de Cervantes era filho de um cirurgião acomodado em Alcalá de Henares, povoado perto de Madri, que ainda não era a capital, então localizada em Toledo. Não temos notícia de ele ter estudado, onde e por quanto tempo. Poucos dados de sua biografia são verificáveis, além de ter sido soldado, ter tentado entrar para a corte de Filipe II e ter trabalhado como coletor de impostos antes de se tornar escritor e reinventar o gênero do romance. Cervantes era um homem preso na crise de seu tempo: não havia mais honra de cavalaria e de nobreza, a Espanha estava mergulhada num período de amplas possessões de colônias e riquezas, onde a intriga, o maldizer e a importância familiar e política eram moedas de troca.

A população vivia sob mão divina e ditatorial e devia a esse regente obediência e muitos impostos. As classes sociais eram muito fechadas, e a única opção de progresso era ingressar na máquina real, coisa que a maioria da população não conseguia. Fundamentais na caracterização dessa época são dois livros: Tirant lo Blanc, escrito em catalão pelo cavaleiro Joanot Martorell em 1490, e Lazarillo de Tormes, livro anônimo de 1554. Martorell mostra a saga do cavaleiro Tirant (o branco) – já que o perfeito cavaleiro catalão deveria ser branco, nunca mouro ou judeu –, que lutou contra os árabes e semitas nas terras bizantinas. Tirant já mostra falta de sintonia com a realidade e com os novos tempos. Sua recepção na Catalunha foi muito boa, mas ele já continha os sinais da morte do gênero das novelas de cavalaria. O segundo livro, Lazarillo de Tormes, conta as peripécias de um jovem gatuno que faz tudo para não morrer de fome, sobreviver e tentar ascender socialmente. O livro, escrito 50 anos antes do Quijote, possui um realismo atroz, critica mortalmente a igreja e os nobres falidos, mostrando de maneira exemplar os vícios e hipocrisias da sociedade de então.

Miguel de Cervantes, herdeiro dessa tradição, transformará essa crítica escrachada em uma análise sutil e acurada da sociedade espanhola de seu tempo, convertendo seu personagem principal, Alonso Quijano, em representante do sonhador e do idealista que já não têm mais lugar no chamado mundo moderno. O personagem Alonso Quijano vive num mundo de fantasia, lendo sem parar livros de cavalaria, e acaba tendo problemas em separar a realidade da ficção, o sentimento mais moderno que se pode ter. O livro que mais influencia Quijano é Amadis de Gaula, primeira novela de cavalaria de que se tem notícia na Península Ibérica. Sua origem é controversa, mas parece ser portuguesa, e já há registros de referências a ela no século XIV. A primeira edição que se conhece é espanhola, impressa em Zaragoza em 1508, e o livro foi um campeão de leitura nos séculos XVI e XVII. Nele acompanhamos a rocambolesca história de Amadis de Gaula, fruto de um amor secreto entre Perión de Gaula e da Infanta Elisena da Bretanha. Abandonado logo depois de nascer em uma barca, foi adotado por Gandales, que ia para a Escócia. Junto a seu protetor Amadis viaja pelo mundo, combate o infiel em Constantinopla e na Alemanha, sempre protegido pela feiticeira Urganda, La desconocida, e perseguido pelo mago Arcalaus. Acaba sendo reconhecido pelo pai e herda o reino da Gran Bretanha.

 

A crítica de Cervantes às novelas de cavalaria

A crítica que Miguel de Cervantes faz às novelas de cavalaria é contundente. Ele as retrata como um gênero menor, que aliena as pessoas, que carrega valores distorcidos, pois são representantes da alta e anacrônica burguesia que vem se perpetuando na condução do destino de toda a Europa Ocidental, desde as lendas do Ciclo Arturiano (Demanda do Santo Graal) dos séculos XI e XII. Um cavaleiro andante (Amadis de Gaula, Tirant lo Blanc) tem sempre procedência nobre, sem a qual não terá o direito de ser armado cavaleiro; deve ser jovem, ter habilidade guerreira, principalmente com a espada, desejar servir aos nobres, defender a honra e a justiça e ser reconhecido por sua nação; e, sobretudo, deve ter uma donzela para amar. Cervantes subverte todo o modelo. Alonso Quijano não tem procedência nobre relevante, é um fidalgo com poucas posses, tem mais de 50 anos, não tem habilidades com as armas, tem a mania da leitura e sua donzela é apenas uma agricultora do povoado de Toboso, na região de La Mancha.

Pela sua riqueza de personagens e de conflitos Don Quijote, que entrelaça o passado com o presente, com sua enorme gama de referências, faz uma paródia, uma metaficção, mostrando realisticamente as mazelas do cotidiano contemporâneo do Século de Ouro espanhol com um humor tristonho.

Na história da cultura alguns livros são considerados marcos no entendimento do que é a humanidade, são representantes de seus máximos valores e fontes de inspiração permanente. Entre os livros mais citados em pesquisas de valor internacional o Quijote costuma estar em primeiro lugar, seguido por Homero com a Ilíada ou a Odisseia, A divina comédia de Dante Alighieri, Em busca do tempo perdido de Marcel Proust, Guerra e paz de Leon Tolstói, Ulisses de James Joyce, Romancero Gitano de Federico García Lorca, Mensagem de Fernando Pessoa, O lobo da estepe de Hermann Hesse e Vinte poemas de amor e uma canção desesperada de Pablo Neruda (faço um recorte pessoal). O cinema inspirou-se na narrativa do romance do final do século XIX (e em sua tradição) para desenvolver sua linguagem, e sempre teve nele um repertório inesgotável para suas adaptações.

 

El Ingenioso hidalgo Don Quijote de La Mancha no cinema

O número de adaptações cinematográficas conhecidas de Don Quijote já passa de trinta, e de muitas delas só temos referências em documentos da literatura da área, são filmes perdidos ou assim considerados. Entre os que merecem lembrança estão:

1898

Don Quixote. Gaumont, França

1903

Aventures de Don Quichotte de la Manche. Pathé, França. Direção: Ferdinand Zecca

1908

Don Quijote. Espanha. Direção: Narciso Cuyás. Elenco: Arturo Buixens (Don Quijote)

1909

Don Quichotte. França. Direção: Emile Cohl. Curta-metragem

1909

Don Quichotte. França. Direção: Georges Méliès. Curta-metragem

1909

Monsieur Don Quichott. França. Direção: Paul Gavault

1910

Don Chisciotte. Itália. Produção: Cines Italia. Curta-metragem

1912

Don Quichotte. França. Direção: Camile de Morlhon

1915

Don Quijote. EUA. Direção: Edgard Dillon. Elenco: DeWolf Hopper (Don Quijote), Max Davidson (Sancho Panza). p/b, mudo

1915

Il sogno de Don Chisciotte. Itália. Direção: Amleto Palermi

1923

Don Quijote. Inglaterra. Direção: Maurice Elvey. Elenco: Jerrold Robertshaw (Don Quijote), George Robey (Sancho Panza), p/b, mudo, 50 min

1926

Don Quixote. Espanha/Dinamarca. Direção: Lau Lauritzen Sr. Elenco: Carl Schenstrom (Quixote), Harald Madsen (Sancho), Carmen Villa (Lucinda/Dulcinea), Torben Meyer (Sansom Carrasco). p/b, mudo, 8 meses de filmagem na Espanha

1933

Don Quixote. França/Inglaterra. Direção: Wilhelm Pabst. Elenco: Feodor Chaliapin (Quixote), George Robey (Sancho pela segunda vez, a primeira foi em 1923), Renée Valliers (Dulcinea). 73 min

1934

Don Quixote. EUA. Animação. Direção: Ub Iwerks (1901-1971), o criador da personagem Mickey Mouse. 7 min

1947

Dulcinea. Espanha. Direção: Luís Arroyo. Elenco: Ana Mariscal (Dulcinea). Baseada em peça teatral de Gaston Baty

1947

Don Quijote de la Mancha. Espanha. Direção: Rafael Gil. Elenco: Rafael Rivelles (Quijote), Juan Calvo (Sancho), Fernando Rey (Sansom Carrasco) e Sara Montiel (Antonia Quijano, sobrinha do Quijote). Primeira adaptação cinematográfica espanhola do romance. 137 min

1948

El curioso impertinente. Espanha. Direção: Flavio Calzavara. Elenco: Aurora Bautista, José María Seoane, Roberto Rey, Rosita Yarza e Valeriano Andrés

1952

Don Quixote. EUA. Direção: Sidney Lumet. Elenco: Boris Karloff (Don Quijote), Grace Kelly (Dulcinea). Produção: CBS, adaptação para TV

1954

Aventuras de Don Quixote. Brasil. Produção: TV Tupi. Sem informação de elenco ou direção

1955 (1992)

Don Quijote. EUA/Espanha. Direção: Orson Welles, montada por Jesús Franco. 111 min

1956

Dan Quihote V’Sa’adia Pansa. Israel. Direção: Nathan Axelrod

1957

Don Kikhot. União Soviética. Direção: Gregory Kozintsev. Elenco: Nicolai Tcherkassov (Alexandre Nevski e Ivan o Terrível, de Eisenstein) como Dom Quixote, e Yuri Tolubuyev como Sancho. Música: Gara Garayev. colorido (SovColor), primeiro em tela panorâmica (2:35), 110 min

1965

Don Quijote. França/Alemanha. Direção: Carlo Rim. Produção para TV. Elenco: Josef Meinrad (Don Quijote)

1965

Don Quichotte. França. Direção: Eric Rohmer

1972

Man of La Mancha. EUA. Direção: Arthur Hiller. Elenco: Peter O’Toole (Don Quijote/ Miguel de Cervantes/ Alonso Quijano), Sophia Loren (Aldonza/ Dulcinea), James Coco (Sancho). Baseado na peça teatral de Dale Wasserman

1973

Don Quixote. Austrália. Versão para balé do “Minkus ballet”. Elenco: Rudolf Nureyev, Lucette Aldous, Robert Helpmann (como Don Quixote) e artistas do balé australiano

1973

Don Quijote cabalga de nuevo. Espanha/México. Direção: Roberto Gavaldón. Elenco: Cantinflas (Sancho) e Fernando Fernán Gómez (Don Quijote)

1973

The Adventures of Don Quixote. Inglaterra. Produção para TV. Direção: Alvin Rakoff; roteiro: Hugh Whitemore. Elenco: Rex Harrison e Frank Finlay

1980

Don Quixote: Tales of La Mancha (1980). Japão. Série de animação. Produção: Ashi Productions; distribuição: Toei Animation

1988

Life of Don Quixote and Sancho. União Soviética. Direção: Rezo Chkheidze. Série de nove episódios, filmados na Geórgia (o diretor é georgiano) e na Espanha

1991

El Quijote de Miguel de Cervantes. Espanha. Minissérie para TVE da parte I da obra. Direção: Manuel Gutiérrez Aragón. Adaptação pelo prêmio Nobel Camilo José Cela. Elenco: Fernando Rey (Quijote), Alfredo Landa (Sancho)

2000

Don Quixote. EUA. Produção para TV. Direção: Peter Yates. Coprodução do Hallmark Channel e Turner Network. Elenco: John Lithgow (Quixote), Bob Hoskins (Sancho). 2h 18 min

2002

(2017)

The man who killed Don Quixote. Inglaterra. Direção: Terry Gilliam. Projeto não realizado, mas aparentemente retomado e que está em pós-produção, anunciado para estrear em 2017

2006

Honor de cavallería. Espanha. Direção: Albert Serra. Elenco: Lluís Carbó (Quijote), Lluís Serrat Masanellas (Sancho)

2007

DonKey Xote. Espanha. Animação. Direção: José Pozo

 

Dessa lista vale a pena destacar que a russa, dirigida por Grigory Kozintesev em 1957, é considerada pela crítica a melhor adaptação da obra. O Quixote é feito pelo ator Nicolai Tcherkassov com interpretação muito contida, deixando várias intenções ocultas, como se estivesse em uma obra de Anton Tchekhov, com sua “vida submersa no texto”. Tcherkassov anda pela aldeia, um cenário fantástico construído na planície russa, com uma capa negra, escondendo-se com gestos muito teatrais. É uma boa versão, mas faltam a vida e a solaridade manchega.

A primeira adaptação feita na Espanha é a de 1947, bem avaliada até hoje, e a mais recente também é espanhola, a animação DonKey Xote, de 2007. O filme de 1947 é dirigido pelo criativo Rafael Gil e tem como Quixote Rafael Rivelles, que tem a presença destrambelhada necessária para o personagem. O filme tem poucos recursos técnicos à disposição, como fica evidente na cena da luta com os moinhos de vento, mas é filmado no cenário real, La Mancha, e sobra talento aos intérpretes.

A primeira versão é a francesa, do início do cinema, feita em 1898 – lembremos que o cinema nasceu em 1895. O grande criador da ficção no cinema, o francês Georges Méliès, fez uma versão em 1909; o reconhecido cineasta austríaco Georg Wilhelm Pabst fez uma em 1933. A bela Grace Kelly, antes de se tornar princesa em Mônaco, foi a Dulcinea em uma adaptação para a Rede de TV americana CBS, versão em que o Quixote foi vivido por Boris Karloff, que eternizou o monstro Frankenstein no clássico de 1931. Sophia Loren foi a Dulcinea mais famosa, no filme Man of la Mancha, em 1973. Orson Welles dirigiu uma versão em 1955 na Espanha, que ficou incompleta e sem montagem, como alguns de seus trabalhos; ela foi finalizada pelo cineasta espanhol Jesús Franco somente em 1992, com resultado fraco. Outra versão inacabada e famosa é a dirigida por Terry Gilliam, iniciada e abandonada em 2002, mas retomada recentemente e devendo estrear em 2017, segundo divulgação.

A melhor de todas as versões é a espanhola, feita em 1991 da primeira parte da obra, com roteiro de Camilo José Cela, escritor ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1989, com Fernando Rey, o melhor Quixote do cinema sem sombra de dúvidas e acompanhado pelo conhecido comediante Alfredo Landa, que faz um impagável Sancho. A segunda parte desse Quixote não foi realizada, pois infelizmente Fernando Rey morreu em 1994.

 

A crítica cinematográfica de Guilherme de Almeida e o Dom Quixote dinamarquês (1926)

O poeta, ensaísta e tradutor, além de advogado e jornalista Guilherme de Almeida (1890-1969) nasce praticamente com o cinema – que se consagraria como a Sétima Arte – e por ele teve grande fascinação. Poucos sabem que Guilherme de Almeida manteve uma coluna de crítica sobre cinema no jornal O Estado de S. Paulo, entre 1927 e 1940, chamada Cinematographos. Também escreveu o livro Gente de cinema em 1929 e atuou como roteirista na natimorta Companhia Cinematográfica Vera Cruz, no início dos anos 1950.

Na coluna Cinematographos, numa terça-feira, 4 de junho de 1929, Guilherme de Almeida publica uma bem cuidada e sensível análise da adaptação dinamarquesa da obra de Miguel de Cervantes, com o título de “Dom Quixote no [cinema] São Bento”. No parágrafo mais informativo podemos ler:

 

Este Dom Quixote, que o Cine São Bento começou ontem a exibir, dá ao público o ensejo de “ver” aquilo que ele não teve, nem tem, nem terá mais tempo de “ler”. E vale a pena ver isso. Vale a pena sentir, em Carl Schenstrom, o ridículo doloroso do pobre Cavaleiro da Fantasia: sofrer um pouco com ele a voluptuosa angústia da ilusão, o martirizante prazer do ideal. Vale a pena a gente integrar-se, um momento, naquele símbolo vivo do Sonhador: na sua figura fina e desconjuntada, perdida sempre nas paisagens áridas da Andaluzia, e crescida, enorme de solidão; no seu olhar desvairado, longínquo, sempre aberto para a beleza do que não existe, e sempre fechado para a tristeza do que existe; no seu abandono de incompreendido tão cercado de gente, e, por isso mesmo, tão só; na sua indiferença superior de iluminado, surdo a todos aqueles pequeninos que conspiravam contra ele, na sombra, segredando entre si, como os irmãos de José: “Eis aí vem o Sonhador: matemo-lo!”. E é consolador a gente compreender que há, no fundo de cada homem, um Sonhador que “parece” ridículo, mas “é” sublime; um Sonhador que, afinal, cedo ou tarde, a vida acaba matando, como se mata um corpo; mas cujo sonho é imortal, fica, perdura, como perdura, fica e é imortal o espírito...[2]

 

Guilherme faz uma crítica à falta de tempo para a leitura dos clássicos, e mostra ser conhecedor profundo do romance de Cervantes, sua análise da figura de Dom Quixote é muito pertinente. Ele não o caracteriza, como faz a crítica mais superficial e preguiçosa, como louco, mas como sonhador, um iluminado que possui “a voluptuosa angústia da ilusão” e “o martirizante prazer do ideal”.

O destaque da crítica de Guilherme vai para a dupla de protagonistas, Carl Schenstrom, que encarna Dom Quixote, e Harold Madsen, Sancho Pança. Segundo ele, Schenstrom conseguiu consubstanciar o cavaleiro da fantasia, dando ênfase a sua figura fina e desconjuntada, perdida nas planícies áridas da Andaluzia (apesar de a região de La Mancha estar mais ao norte). E Madsen cria um Sancho que é o símbolo da generalidade, tem ideais possíveis e comuns, se deixa levar pela força de Dom Quixote, mas sempre cai em si. Guilherme não menciona o diretor do filme, Lau Lauritzen, como era comum na época, pois os atores, que são o veículo da obra, são mais perceptíveis. Também não analisa nenhum elemento cenográfico, não fala de nenhuma cena do filme ou característica específica. Há apenas uma alusão às gravuras de Gustave Doré, que para ele saíram das páginas do livro e começaram a mover-se na tela, servindo de modelo para os costumes dos dois atores principais do filme. Guilherme não parece ter tido contato com nenhuma informação sobre a produção, mas consegue perceber que o filme foi rodado na Espanha, na região onde os personagens teriam vivido suas aventuras.

Esse é um dos filmes considerados perdidos, ou que não têm circulação conhecida. Pode-se ter contato com uma informação de arquivo importante no Det Danske FilmInstitut (Instituto Fílmico Dinamarquês), no site http://www.dfi.dk/faktaomfilm/film/da/16041.aspx?id=16041. Infelizmente, o instituto tem uma página inicial que pode ser vista em inglês, mas os documentos referentes ao filme Don Quixote estão todos em dinamarquês. Descobrimos aí que o roteiro do filme foi feito pelo próprio diretor; a fotografia em preto e branco, formato 1:33, 35 milímetros, é de Carlo Bentsen, Hugo J. Fischer e Julius Jaenzon, e o filme é mudo. Dois ícones nessa página nos levam para as fotos de filmagens, stills, que são 127 e mostram os atores, o posicionamento de câmeras e os cenários, e ao programa original (Programmet) do filme, todo em dinamarquês, com cinco fotografias, uma delas do diretor, que tem uma biografia apresentada, um texto introdutório de seis páginas e um texto de um correspondente de Toledo, Henri Hellssen. Material tão precioso deveria ter uma versão em inglês.

Guilherme de Almeida não sabia, mas os dois atores centrais que tanto o impressionaram tinham uma sintonia própria, pois formavam uma dupla cômica chamada Pat & Patachon, na linha “o gordo e o magro” (Laurel & Hardy) e Abbott & Costello. Eram conhecidos em toda a Europa, tendo feito espetáculos na Inglaterra, Itália, França, Alemanha e Estados Unidos. Pat (Carl Schenstrom, Quixote) fez mais de 50 filmes em 30 anos de carreira, e Patachon (Harald Madsen, Sancho) também fez mais de 50, mais de 20 nessa dupla. O que surpreende na crítica de Guilherme é a sua validade passados quase 90 anos. Ele recebia o filme por intermédio de sua cultura geral, apoiava-se na literatura e criava intuitivamente um modelo de crítica cinematográfica, que não existia no Brasil e tinha poucos expoentes no mundo, pois o cinema como invenção tinha só 34 anos e a sua linguagem fora estabelecida havia 20 anos. No último parágrafo de sua coluna Guilherme aconselha o leitor a não perder o filme, pois era acima de tudo uma “aula de vida” da qual muita gente estava precisando. Pena que na atualidade não possamos seguir a sugestão de Guilherme, pois o filme, assim como a maioria das edições de Dom Quixote, está catalogado, guardado e inacessível, por diferentes razões, ao público ao qual ele se destina prioritariamente.


 

[1] Doutor em comunicação (Cinema) pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e pela Universidad Complutense de Madrid. É professor da Faculdade de Artes, Arquitetura e Comunicação (FAAC) da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), Campus de Bauru.

[2] Publicado em ALMEIDA, Guilherme de. Cinematographos: antologia da crítica cinematográfica. (org. Donny Correia e Marcelo Tápia). São Paulo: Ed. Unesp, 2016. p.176-177.

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