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PASCAL RUESCH: OBRA PLÁSTICA E RACIOCÍNIO POÉTICO

Texto de apresentação da exposição de obras de Pascal Ruesch na Casa Guilherme de Almeida, em 2016

Marcelo Tápia [1]


 

 
Obras produzidas por Pascal Ruesch


A exposição Linha, quadrados, reflexos, de Pascal Ruesch, enquadra questões importantes da arte contemporânea, refletindo-as, em sentido amplo, nas restritas dimensões materiais do trabalho.

Primeiramente, a conceituação orientadora da arte de Pascal reporta-se à contemporaneidade em diversos aspectos, sem restringir-se ao emprego do conceito e da abstração de relações: a fisicalidade de sua realização presentifica ligações concretas, no plano primeiro da percepção, a partir da qual a leitura múltipla, associada ao ato reflexivo, decola no livre pensamento, para uma viagem relativa ao mundo de quem a conduz.

Sob o ângulo da feitura, as obras não só sugerem a imitação recriadora num plano artístico-abstrato – servindo-se de elementos simples e variados, deslocados de seu próprio contexto cotidiano para rumarem a uma nova função ficcional, em âmbito estético –, mas também uma imitação, em ambiente platônico, que valoriza o papel da “verdade” artesanal decorrente do exercício da habilidade, voltada ao fazer concreto, à precisão especializada dos gestos, exercidos desde o suporte até o assunto e, além dele, o próprio limite funcional da moldura: a obra é resultado também do labor do artesão, dedicado integralmente, a partir das escolhas do artista, a consubstanciar os feitos, frutos das próprias mãos.

As recolhas, provindas do mundo utilitário, geralmente de objetos produzidos em série, elevam as coisas comuns à condição da singularidade, ao status da citação, que se constrói por sua participação num novo contexto de relações. Uma arte de referências, que desloca o pequeno do mundo para um horizonte abrangente da significação, incluindo-se a da reconhecível beleza: esta palavra conceitualmente duvidosa parece acertada quando usada no caso desta produção, entendida como uma sensação imediata diante das cores e formas escolhidas, particularmente pelos contrastes e complementariedades traçados pela harmonia, ao mesmo tempo exata e despojada – à contenção do gesto soma-se a liberdade de pensamento de eleger as peças e engendrá-las em associações conjunturais.

O raciocínio que fundamenta o conjunto exposto por Pascal Ruesch é eminentemente poético, na conotação semiótica do termo: as relações se armam com base na associação analógica, que se serve dos princípios de similaridade e dessemelhança de formas a fim de arquitetar sintagmas abertos para visões de mundo.  Um mundo construtivista feito de reaproveitamentos, reciclagens, recriações, trazidas a um meio marcado pela síntese, do qual fazem parte a clareza e a limpidez formal.

Formado com base em citações e referências, o trabalho exposto insere-se no contexto da produção poética vista como eterna reescritura, palimpsesto sempre renovado de escrita do mundo (no caso, com palavras ausentes) e de recriação da história: múltiplas evocações se tecem nas obras, cada uma constituindo uma espécie de tradução do preexistente, visto e vivido nos espaços diários ao longo do tempo. No espaço do tradutório, esta arte constitui, em conjunto, uma articulada paródia do mundo e da arte, um “canto paralelo” (no sentido postulado por Haroldo de Campos, com base na etimologia grega da palavra paródia: pará + oidé) que busca envolver um modo de ver – ao mesmo tempo ficcional, ideal e terrenamente – a poesia (poiesis) em seu significado primeiro de fazer.

A arte de Pascal se presta idealmente, portanto, para inaugurar este novo segmento de atividades do museu Casa Guilherme de Almeida – Centro de Estudos de Tradução Literária, que busca inserir em seus ambientes criações plásticas conceptualmente afinadas com sua missão e seus objetivos.


 

[1] Poeta, ensaísta e tradutor, é graduado em Letras (Português e Grego) e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH/USP. Autor de cinco livros de poemas, traduziu, entre outras obras, os romances Os passos perdidos (2008) e O reino deste mundo (2010), de Alejo Carpentier. É coorganizador do livro Transcriação (2013), de Haroldo de Campos. Tem ministrado cursos nas áreas de literatura e teoria da tradução em diversas instituições. Atualmente, é professor pleno do Tradusp – Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução da FFLCH-USP. Dirige o museu Casa Guilherme de Almeida – Centro de Estudos de Tradução Literária.

 

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