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Antígone de Sófocles: Guilherme e Epígonos


Por Jaa Torrano[1]

 

Em 1952, Guilherme de Almeida publicou – numa cuidadosa edição bilíngue grego-português – a sua tradução da tragédia Antígone de Sófocles, que em agosto daquele ano fora representada no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), em São Paulo, sob a direção de Adolfo Celi, com as máscaras de Darcy Penteado, e com Paulo Autran, Cacilda Becker e Ziembinski respectivamente nos papéis de Creonte, Antígona e Tirésias, entre outros atores renomados.

A tradução de Antígone de Sófocles por Guilherme de Almeida, a meu ver, permanece uma referência inesquecível ainda hoje, quando depois dela já se publicaram pelo menos cinco traduções de Antígone em português. Dado o que há de inesquecível nessa “transcrição” (como Guilherme preferiu denominar a sua tradução), três questões intervêm:

1) Em que sentido se poderia considerar a tradução de Guilherme de Almeida superada pelas posteriores?

2) Em que sentido se poderia considerá-la insuperável, ou, pelo menos, não superada pelas posteriores?

3) O que de novo uma nova tradução da Antígone de Sófocles deveria apresentar para justificar-se e justificar seu acréscimo ao espólio das já existentes?


Primeiro, mediante sinopse, resumo e citações, distingamos quais virtudes – a meu ver – caracterizam e tornam inesquecível a “transcrição”, e depois vejamos quais as características próprias das traduções dos posteriores (ou, ditos mais poeticamente, dos epígonos): 1) Maria Helena da Rocha Pereira, 1984 (1ª ed.) e 1987 (2ª ed.); 2) Mário da Gama Kury, 1989; 3) Donaldo Schüler, 1999; 4) Lawrence Flores Pereira, 2006; 5) Trajano Vieira, 2009.

Guilherme de Almeida não a nomeou meramente “tradução”, mas “transcrição”, e desde a primeira edição até a de 1968 da Vozes ainda era antecedida por esta explicação: “Transcrição (Música) – Ato de escrever para um instrumento texto originariamente escrito para outro”. Considerado pelos seus contemporâneos, mediante sufrágio promovido por jornal da época, “o Príncipe dos Poetas Brasileiros”, o Poeta certamente sabia como tratar o seu público e comunicar-lhe a consciência do valor de seu trabalho. Etiquetar “transcrição” a sua tradução sem dúvida atende às exigências dessa comunicação com o seu público, que em sua época no Brasil era universal, unânime e entusiástico. A meu ver, essa etiqueta de “transcrição”, mais do que implica, ressalta duas características a meu ver decisivas dessa tradução: 1) o respeito pela integridade do verso e 2) o respeito pela comunicabilidade imediata do verso.

O verso, como unidade básica da composição poética, organiza tanto o recorte da realidade quanto a dinâmica do pensamento, e constitui assim um instrumento de análise da realidade e, ao mesmo tempo, de organização do pensamento. Portanto, considerado em sua integridade, o verso seria uma forma simultaneamente sensível e inteligível, se pudéssemos nos situar nesse momento histórico em que a tragédia ainda cumpria sua função originária de arte política, anterior à cisão histórica entre o que se tornou, por um lado, poesia e o que se tornou, por outro lado, filosofia.

Dada a complexidade e a variedade da métrica e do ritmo da língua grega antiga, a transposição é sempre analógica e aproximativa, assim como também o é a recriação em português da unidade morfossintática do verso grego.

A transposição opera uma equivalência sintagma a sintagma, de modo a obter, dentro dos limites de cada verso, um equivalente em português para cada função sintática do grego. Essa equivalência sintagmática traz consigo uma equivalência morfossemântica entre o verso grego e o português. Assim se preserva em português o recorte da realidade operado pelo verso grego, bem como a dinâmica do pensamento, que percorre esses recortes e assim encontra a forma dianoética que o configura.

Temo que esta sinopse seja antes o produto do entusiasmo e da idealização que nos anos 1970 a descoberta da “transcrição” me inspirou, muito mais do que o produto de uma análise rigorosa dessa “transcrição”. Em todo caso, esta sinopse bem descreve o paradigma e o ideal que a “transcrição” representou e representa para mim desde que a descobri nos anos de minha formação.

Todavia, se ainda nos fosse possível situar-nos entre o inesquecível entusiasmo deslumbrado e a necessária análise reflexiva, para nos valer e beneficiar de um e outra, vejamos o que há dessa sinopse acima nos dez versos da fala inicial de Antígone transcritos por Guilherme de Almeida e, a seguir, o correspondente nas traduções posteriores.

 

Ó meu próprio sangue, Ismene, irmã querida,

que outros males Zeus, da herança infanda de Édipo,

há de nos mandar enquanto formos vivas?

Não existe dor, maldição, ignomínia,

ou desonra, que eu não tenha visto ainda                 5

figurar no rol dos teus e dos meus males.

E esse novo edito agora proclamado

pelo chefe contra esta cidade inteira?

Não ouviste nada? ou ignoras que bem pode

a amigos ferir o mal feito a inimigos?                                   10

 

Quanto ao respeito pela integridade do verso, constata-se nessa citação que há dez versos na transcrição como no original, preservando-se o sentido geral de cada verso, mas não há rigorosamente um equivalente em português para cada função sintática do grego. No jogo de perda e ganho da equivalência, poderíamos dizer que a tradução em prosa de Maria Helena da Rocha Pereira apresenta um índice maior de ganhos que a transcrição quando se trata da transposição de funções sintáticas gregas nas equivalentes em português, apesar da diluição dos versos em tão pedestre prosa:

Ismena, minha irmã, minha querida irmã, por ventura conheces na linhagem de Édipo algum mal que Zeus ainda não fizesse cair sobre nós duas, sobre nossas vidas? Não há dor, não há desgraça, não há vergonha, não há desonra que eu não tenha visto no número das minhas e tuas penas. E agora, que nova é essa que toda a cidade afirma, desse édito que o general acaba de promulgar? Tu sabes? Tu já ouviste? Ou acaso ignoras que a maldade dos nossos inimigos avança sobre aqueles que nos são caros?

No primeiro verso grego: õ koinòn autádelphon Isménes kára, a transcrição condensa a noção de “comunidade” de õ koinòn e as noções de ipseidade e de fraternidade de autádelphon em “ó meu próprio sangue (...) irmã”; a solene metonímia poética de Isménes kára, literalmente “cabeça de Ismena”, na transcrição se torna “querida irmã”. Não é difícil reconhecer que a transcrição “ó meu próprio sangue, Ismene, irmã querida” está mais próxima da concisão e da solenidade do grego que a diluição pleonástica e pedestre de “Ismena, minha irmã, minha querida irmã”.

A propósito desse primeiro verso, não me parece que os demais epígonos foram tão infelizes quanto a mestra lusíada, mas ainda assim não conseguiram nada melhor do que a “transcrição” já havia feito.

Mário da Gama Kury: “minha querida Ismene, irmã do mesmo sangue” é repetitivo e incorre no clichê do “sangue” por autádelphon.

Donaldo Schüler: “comum no sangue, querida irmã, caríssima Ismene” preserva a noção de “comum”, koinòn, preserva ainda certa solenidade com “caríssima”, mas o conjunto do verso é demasiado explicativo e redundante, e não escapa ao clichê do “sangue” por autádelphon.

Lawrence Flores Pereira: “Ismena, minha irmã, filha da mesma estirpe” troca o clichê do “sangue” por “filha da mesma estirpe”, que soa como redundância de “minha irmã” aposto de “Ismena”.

Trajano Vieira: “Homossanguínea irmã, querida Ismene” recupera a concisão, mas não escapa do clichê do “sangue” e troca o tom solene pela esquisitice de “homossanguínea”.

A diversidade irredutível não se dá apenas entre os sistemas fonológicos e, por conseguinte, métricos e rítmicos do grego antigo e do português hodierno, mas também se dá no plano do vocabulário e das noções próprias a uma e a outra cultura, a uma e outra visão de mundo. Por exemplo, pertencente ao repertório tradicional das noções comuns do pensamento mítico e da tragédia grega, a palavra áte é uma das chaves para a compreensão desta tragédia de Sófocles, onde ela se repete dez vezes, dada a sua relevância como referência do pensamento mítico grego e da visão trágica do mundo.

Como Guilherme a traduz? Observando o princípio do respeito pela comunicabilidade imediata do verso, a noção de áte se dispersa conforme se dá a sua acepção no sentido mais corriqueiro de cada ocorrência, a saber: no verso 5 se traduz por “maldição”, no 185 por “desventura”, no 533 por “fúrias”, no 584 por “misérias”, no 614 por “sofrimento”, nos versos 624 e 625 por “ruína”, no 862 por “cego” (adjetivo), no 1097 por “desgraça” e no 1259 por “delito”.

Esta solução múltipla e dispersiva atende tão perfeitamente à finalidade de comunicação do palco, que o problema da tradução da palavra áte, se não se resolve, pelo menos se vela e assim permanece encoberto.

Diante de Tebas, como os epígonos enfrentaram a áte tebana? Aparentemente, com a mesma estratégia do transcritor, isto é, enfrentando e resolvendo o problema da tradução de áte caso a caso. Seguindo a ordem sequencial das dez ocorrências da palavra, estas foram as soluções de cada um para cada caso:

Maria Helena da Rocha Pereira: 1) “desgraça”; 2) “ruína”; 3) “maldições”; 4) “mal”; 5) “desgraça”; 6) “ruína”; 7) “desgraça”; 8) “maldições”; 9) “Desgraça”; 10) “erro”.

Mário da Gama Kury: 1) “maldição”; 2) “ruína”; 3) “pestes”; 4) “infortúnios”; 5) “desgraças”; 6) “desgraçar”; 7) “desdita”; 8) “horrores”; 9) “arruíne”; 10) “insânia”.

Donaldo Schüler: 1) “infortúnio”; 2) “ruína”; 3) “calamidades”; 4) “infortúnios”; 5) “infortúnios”; 6) “desvario”; 7) “desacerto”; 8) “maldito”; 9) “desventura”; 10) “loucura”.

Lawrence Flores Pereira: 1) “maldição”; 2) “ruínas”; 3) “pestes”, “ruinas”; 4) “loucura”; 5) “insânia e praga”; 6) “desvario”; 7) “desvarios”; 8) “delírios”; 9) “desastre”; 10) “erro”.

Trajano Vieira: 1) “despudor”; 2) “Ate, a Ruína”; 3) “usurpa-trono”; 4) “ruína”; 5) “dose de revés”; 6) “ruína”; 7) “mínimo o tempo extrarruína”; 8) “desastroso”; 9) “Ate, a Atrocidade”; 10) “ruína”.

Diante de tanta variação e diversidade na tradução dessa palavra, sendo cada ocorrência tratada como se fosse sem vinculação com as demais, paira a dúvida se essas traduções levam em conta o caráter numinoso dessa noção mítica ou, dito de outro modo, se essas traduções se dão conta da importância dessa noção mítica para a compreensão desta tragédia de Sófocles. Certamente essas traduções leem Antígone de outros pontos de vista, que não o da lógica interna do pensamento mítico e da mundividência trágica grega.

Súbito descobrimos a resposta à terceira das três questões que inicialmente intervieram: o que de novo uma nova tradução da Antígone de Sófocles deveria apresentar para justificar-se e justificar seu acréscimo ao espólio das já existentes? Resposta: certamente deveria apresentar uma leitura dessa tragédia que se desse conta e levasse em conta o ponto de vista da lógica interna do pensamento mítico e da mundividência trágica grega.

Diante disso, parece-me ocioso responder às duas primeiras questões: 1) Em que sentido se poderia considerar a tradução de Guilherme de Almeida superada pelas posteriores? 2) Em que sentido se poderia considerá-la insuperável, ou, pelo menos, não superada pelas posteriores? – Ocioso respondê-las, porque evidentemente cada tradução se justifica pelo ponto de vista, ou melhor, pela interpretação que faz da obra a ser traduzida – e como, a meu ver, traduzir é interpretar, toda tradução – bem ou mal – se justifica por si mesma.


REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Guilherme de – A Antígone de Sófocles na transcrição de Guilherme de Almeida. São Paulo, Edições Alarico, 1952. / Petrópolis, Editora Vozes, 1968 (2ª ed.).

SÓFOCLES – Antígona. Introdução, versão do grego e notas de Maria Helena da Rocha Pereira. Coimbra, Instituto Nacional de Investigação Científica, 1987 (2ª ed.).

SÓFOCLES – A Trilogia Tebana. Édipo Rei. Édipo em Colono. Antígona. Tradução do grego, introdução e notas de Mário da Gama Kury. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1988, (8ª ed.).

SÓFOCLES – Antígona. Traduzido do grego por Donaldo Schuler. Porto Alegre, L&PM Editores, 1999.

SÓFOCLES – Antígona. Tradução Lawrence Flores Pereira. Introdução e notas Kathrin Holzemayr Rosenfield. Rio de Janeiro, Topbooks Editora, 2006.

VIEIRA, Trajano – Antígone de Sófocles. Tradução e Introdução. São Paulo, Editora Perspectiva, 2009. 


[1] professor titular do departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH-USP, onde leciona língua e literatura grega. Autor de O sentido de Zeus – O mito do mundo e o modo mítico de ser no mundo e A esfera e os dias – Poemas.

 

 

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