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Macunaóperaímatupi: uma “satisfa imensa”

Entrevista com a cantora e compositora Iara Rennó [1]


                                                                                                                                     Foto: Bruno Nucci

 


Por Denise Soares


O álbum Macunaíma Ópera Tupi completa 10 anos em 2018, concomitantemente aos 90 anos do romance de Mário de Andrade. A cantora e compositora paulista Iara Rennó comemora: “Efeméride. Festa, celebração, fazer o sopro chegar a mais ouvidos é preciso, tanto mais nos dias de hoje”. Conversamos com a artista sobre esse trabalho, sua carreira e projetos futuros.


Denise Soares
: Como era a sua relação com a Literatura antes de se tornar profissional de música?

Iara Rennó: Minha relação com literatura e música começa cedo, porque é herança de pai [Carlos Rennó] e mãe [Alzira E]. Eu fiz faculdade de Letras na FFLCH [a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo] justamente ao mesmo tempo que me profissionalizava na música. Não li tantos livros quanto gostaria, mas li repetidas vezes alguns deles. Mergulhar na obra, olhar para ela de diferentes ângulos, observá-la sob o ponto de vista musical, foi o que fez surgir, por exemplo, o projeto Macunaíma Ópera Tupi.

Conte-nos sobre a sua formação musical.

Música é casa. A casa de minha mãe [família Espíndola], a casa dela e de seus irmãos, portanto a casa de minha avó, Alba. Minha formação musical vem sendo escrita através de gerações. Tive também algumas aulas de violão, de canto, de teoria musical, algo bastante informal e sempre por curtos períodos, com pessoas que muito contribuíram para o meu aprimoramento (como Madalena Bernardes – canto, Simone Julian – teoria musical, e Tonho Penhasco – violão), mas nada que supere o meu aprendizado na vivência do exercício diário da música em casa, com os artistas que circulavam com frequência, ou como ouvir Clara Crocodilo (de Arrigo Barnabé) desde os 5 anos de idade... Essa foi a escola. E a “faculdade” foi tocar com Itamar Assumpção. O que aliás coincide com o período em que eu cursava a FFLCH. Itamar ensinava muito e na prática. Algumas situações de show eram como uma prova de fogo, com direito a “chamada oral surpresa” (risos).

Quais são as suas principais influências artísticas e como são suas vivências com elas?

Acho que já falei um pouco sobre isso na resposta anterior, mas acho que o que veio a influenciar minha produção artística é um enorme aglomerado. Eu absorvo tudo, gosto disso, antropofagizar, não vejo como não seguir essa influência MariOswaldeana. De É o Tchan a John Cage. A capacidade de manifestação física da música me instiga, isso para falar só da parte musical. Porque, apesar de partir da música, o que me move é o encontro de várias linguagens artísticas: a poesia, a narrativa, a estética visual, a dança e a interpretação, enfim, como tudo isso vai compor um espetáculo. Então entra o Modernismo, o Tropicalismo, a Vanguarda Paulista, Ney Matogrosso, Björk, Michael Jackson, Madonna, Elza Soares, funk carioca, coco, samba de roda, jongo, maracatu, ciranda... Entra Zé Celso, Glauber Rocha, Pina Bausch, Isadora Duncan, Rubem Valentim e Lina Bo Bardi, entre tantos outros artistas que me alimentaram e me alimentam.

Sendo uma artista que trabalha com diversas linguagens, como você transita dentro do mercado da música, no Brasil?

O “mercado da música” está passando por crises e transformações continuamente. Participa efetivamente dele quem consegue se adaptar às novas plataformas e fazer dinheiro com elas. Apesar de ter 86 músicas gravadas em álbuns físicos – distribuídas em três discos de bandas que formei, quatro discos solo e um tanto de trabalhos de terceiros – considero minha atuação nesse mercado ainda muito pequena. Porque não basta produzir, tem que saber administrar, e isso envolve todo um outro trabalho. Me vejo ainda na luta pela sobrevivência, a caminho de poder dizer que “vivo da minha arte”. Circulo com shows, performances, exposições, musicais, workshops, lancei um livro... tenho que estar sempre inventando projetos novos e buscando novos caminhos de dar vazão à criatividade e me comunicar com as pessoas. Por um lado, é cansativo; por outro, instigante.

Quando e como surgiu a ideia de fazer
Macunaíma Ópera Tupi, em cima da obra Macunaíma – o herói sem nenhum caráter, de Mário de Andrade?

Surgiu durante o curso de literatura brasileira do professor Augusto Massi na faculdade de Letras, durante o qual lemos uma série de livros, e Macunaíma foi um deles. A inspiração surgiu logo no primeiro período do livro: a melodia veio chegando, através do ritmo próprio que se apresentava naquela prosa. O professor propôs que a conclusão de curso fosse uma recreação artística de alguma das obras estudadas, o que achei genial pela ousadia e porque ia justamente ao encontro do que eu já estava fazendo espontaneamente. Apresentei seis composições com os trechos do livro, e ali nascia toda a concepção do projeto.

Como foi o processo de escolha dos fragmentos do livro e quais foram as dificuldades e desafios de musicá-los, em especial, os trechos em prosa? Houve grande necessidade de adaptar para a música, ou já havia certa musicalidade neles?

A música está no livro, isso é inegável. São vários os trechos onde ela se apresenta já em versos, precedidos de “e Macunaíma cantou”, “cantando cânticos de longa duração”, “cantavam para ninar Macunaíma”, ou outra indicação de que vem um versinho ou uma canção. No final do livro está a prova irrefutável, onde o homem “ponteou na violinha e em toque rasgado botou a boca no mundo contando os casos do herói”. Já está ali, eu só fiz “canalizar” e traduzir em notas! É claro que houve necessidade de uma elaboração maior dos trechos de prosa que eu musiquei – que foram três entre 14 músicas, veja bem. Especialmente em Naipi e Dói Dói Dói, tive que fazer alguns recortes mais trabalhosos no texto para chegar a uma forma mais orgânica de cantar aquele trecho da história. No que corresponde ao período inicial do livro, na música Macunaíma, a prosa já tem naturalmente um ritmo bem marcado, que foi justamente o que me fisgou de pronto. São várias frases de 6 e 7 sílabas poéticas, como redondilhas. Isso é musicalidade, e ela advém da musicalidade intrínseca do autor: Mário era músico, pesquisador musical, apaixonado por música.

Você convidou dezenas de artistas, de várias gerações e vertentes, para participar da produção e execução das composições. Como foi reunir esse pessoal?

Foram quase sessenta participantes entre músicos, cantores e produtores musicais. Cada um escolhido a dedo, porque tocava o instrumento que eu precisava, ou porque achei que tinha a voz perfeita para a música tal, ou porque enxerguei que ia arrasar na produção de uma das faixas, pela sua peculiaridade. Eu fui reunindo um grupo para cada música, mais ou menos, e isso rolou em diferentes estúdios, inclusive, para poder ter o melhor resultado de cada formação. Tivemos de arranjo de cordas de Arrigo Barnabé à voz do rapper Funk Buia; de Barbatuques a Kassin; do piano de Benjamim Taubkin à ciranda de Siba e a Fuloresta... Tom Zé, irmãos Espíndola, DonaZica... O processo foi muito rico, muito prazeroso, e fluiu muito bem. Todos se mostraram logo simpáticos e disponíveis para o projeto. É claro que, no mundo da música independente, uma produção deste porte só é possível de realizar-se com patrocínio. Dos sete álbuns que produzi – entre solos e com banda – este foi o único disco com suporte [Prêmio Petrobras Cultural]. Se não, você é obrigado a fazer um pacotão num único estúdio e dar um jeito de gravar o que for possível ali. Quarteto de cordas sem grana não rola...!

Além de sua marca como compositora, cantora e multi-instrumentista, como você pensou esse processo de imprimir, também, as particularidades de cada um dos participantes neste trabalho?

Isso foi bem natural também, já que os convidados todos foram artistas de muita personalidade, e por isso mesmo eu os convoquei. Curioso que num determinado momento eu tive receio de o disco ficar fragmentado, meio “colcha de retalhos”, por causa de tanta gente diferente em cada faixa, diferentes estúdios e produções musicais, foi um risco grande. Mas o resultado final foi, surpreendentemente, de unidade. Acho que a força da obra original e minha personalidade fizeram essa mágica acontecer. E algo a mais, um quê de místico que eu sinto ter impulsionado desde o início esse trabalho, essa missão, esse desígnio que eu recebi de um desejo de Mário de Andrade, ao que chamei de Ópera Tupi.

Uma de suas ideias foi fazer com que o CD chegasse às mãos de professores de Literatura, para uso em sala de aula. Baseando-me nisso, pergunto sobre os arranjos musicais: como foi a concepção deles? Você pensou em sonoridades que atingissem de forma mais fácil e direta um público que ainda está entrando em contato com a Literatura, em especial com a obra de Mário de Andrade, na escola ou em outros centros de formação?

De modo algum, pelo contrário até: procurei não me restringir a nenhum estilo musical ou instrumentação únicos, pensei nas sonoridades mais variadas. Minha intenção foi a de aguçar os sentidos dos ouvintes e criar curiosidade para tudo, desde o livro aos instrumentos ali usados. A curiosidade é o que nos move. Tudo o que nos cutuca, ainda que, em princípio, a gente não entenda ou não saiba se gosta ou não. E porque essa diversidade está muito presente no livro: são lendas / casos / folclores de diferentes povos e regiões reunidos no texto. Eu procurei traduzir isso na expressão musical também.

As primeiras tiragens de Macunaíma Ópera Tupi foram distribuídas para centros de formação para professores, ONGs e centros culturais. Nestes quase 10 anos que se passaram desde o lançamento do CD, você teve acesso a algum trabalho desenvolvido com ele?

O disco frutifica, e isso me dá uma “satisfa imensa”, como diria o nosso herói. Foi inspiração de documentário, trilha de peças de dança – geralmente inspirando trabalhos acadêmicos ou de fundações de cultura. Já teve muita gente que me escreveu ou falou pessoalmente que, por causa do disco, foi atrás do livro. E agora a faixa Macunaíma, por exemplo, está entrando para material didático de gramática e literatura.

No futuro, você pretende fazer esse tipo de trabalho com outras obras literárias?

Essa ideia de espetáculo musical “tupi style” (isto é, do nosso jeito) é meu grande tesão, mas preciso de estrutura e condições para trabalhar nesse tipo de montagem grande, que nem sempre o circuito da música autoral independente consegue atingir. Já tenho até mesmo a preconcepção de um novo espetáculo, com o projeto, ainda inédito, Oriki, que tem canções que fiz a partir de poemas transcritos por Antonio Risério no livro Oriki Orixá, e também canções com letras minhas. Vale contar que o trabalho com o Macunaíma não foi exatamente um plano, mas algo que veio como uma incumbência e se materializou de forma incontestável, fez-se acontecer. Ao mesmo tempo que sou criadora, sou um canal para outra criação e sou a própria criatura. É isso que esse Macunaóperaímatupi me faz sentir. O oroboros. E não é um projeto que fica restrito a determinada época, é tema sempre recorrente e necessário. Em 2018 meu álbum completa 10 anos, e o livro, 90 anos. Efeméride. Festa, celebração, fazer o sopro chegar a mais ouvidos é preciso, tanto mais nos dias de hoje. Esse material está repleto de alimento para as discussões de gênero, raça, cultura nacional, identidade e tudo o mais. A própria música, literatura, teatro, dança. A grande dança mítica de Macunaíma que tudo abraça e transborda.

 

[1] Entrevista concedida por e-mail, entre 1 e 15 de agosto de 2017.

 

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