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Guerra de todos contra todos

A gratidão geralmente é parteira de gêmeos univitelinos: a admiração – e a inveja.


Por Flávio Ricardo Vassoler [1]

 

Que o título deste ensaio não nos leve a pensar que o filme do diretor Roberto Moreira, Contra todos (2004), evoca a máxima do filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679) apenas para reeditar a guerra de todos contra todos em algum lugar da periferia de São Paulo. Não se trata exclusivamente de um individualismo voraz que arremessa as personagens em contínuos entrechoques, de modo que cada uma delas consiga sobreviver somente contra as demais. Contra todos, a meu ver, enseja uma leitura acurada das profundas contradições sociais e psíquicas – psicossociais, a bem dizer – que a periferia de nosso capitalismo atavicamente periférico produz e reproduz.

O filme tem início com a cena de uma cena: o vídeo da festa de casamento de Teodoro (Giulio Lopes) e Cláudia (Leona Cavalli). O casal em êxtase morde uma maçã do amor, o símbolo bíblico que se apresenta como um prenúncio da queda dos cônjuges lascivos. Ao redor da TV, os convivas se esparramam pelo sofá à espera do almoço na casa de Teodoro: Soninha (Sílvia Lourenço), filha do pater familias; Valdomiro (Aílton Graça), comparsa de Teodoro; Júlio (Ismael de Araújo), entregador de carnes do açougue que, dia sim, dia também, leva bifes muito bem fatiados para Cláudia, sua amante. O espectador não se dá conta desde o início, mas quem assistir ao filme pela segunda vez poderá perceber que, diante dos beijos televisivos do casal, encontram-se as personagens que farão a trama se movimentar em função do desejo engatilhado ora para Teodoro, ora para Cláudia. Senão, vejamos.

Júlio tem a ereção menos contraditória. O amante de Cláudia apenas deseja provar as mais diversas iguarias da esposa de seu anfitrião. Já Valdomiro e Soninha se enredam na teia da família esgarçada de modo muito mais intrincado. Teodoro, branco, e Valdomiro, negro, reconfiguram a dialética do senhor e do escravo na parceria que realizam quebradas afora. Logo saberemos que biscates a dupla dinâmica executa. Valdomiro é um vida louca, não tem paradeiro, só cativeiros, não sabe onde dorme e acorda, só sente fome em casa alheia – um verdadeiro papa-jantares. Teodoro, em meio à inconstância da vida periférica, é minimamente estabilizado – ao menos por ora. Tem uma esposa adúltera, uma filha que quer sentar no trono da madrasta, um casebre com um portãozinho tetânico. Teodoro procura aconselhar seu comparsa – “para de cheirar, Valdomiro, esse pó ainda vai te matar!” –, Teodoro comanda a dupla e desfruta daquilo que Valdomiro tanto gostaria de ter. A gratidão geralmente é parteira de gêmeos univitelinos: a admiração – e a inveja. Valdomiro amealha seus trocados sob a tutela do nhonhô Teodoro; Valdomiro deseja Cláudia, mas a lealdade ao amigo branco leva o comparsa negro a transar com a filha de Teodoro. Soninha a princípio desponta masculina, calças largas, gírias e mais gírias, cabelos presos e desgrenhados – se o pai só tem olhos para a esposa, que Cláudia faça as vezes da dona de casa feminina. Soninha quer depor a madrasta, mas ironiza a religiosidade do pai antes das refeições.

– Tá na mesa! – grita Cláudia sob o avental.

A câmera manual de Roberto Moreira focaliza a informalidade periférica à mesa. Onde a mediação da etiqueta padronizada e padronizante só se impõe de modo muito tangencial, uma vez que as instâncias de socialização deformam e brutalizam, o pater familias desempregado e os familiares e convivas sem muitas perspectivas para além dos ombros premidos pelas vielas infringem, já como uma segunda natureza, o decoro burguês. Todos falam ao mesmo tempo, risos contra sorrisos, mãos sem mais pegam as batatas fritas sem talheres, a lasanha desconjuntada vai sendo servida, o glutão Valdomiro reclama que seu pedaço é pequeno, Júlio ri e perdigotos voam de sua boca cheia, Cláudia protesta, tudo em vão, mas é Teodoro quem coage ao armistício por meio da pax atomica de uma oração:

– Gente, gente, vamos agradecer a Deus por mais uma refeição!

Diante das escolas públicas e suas celas de aula que ao menos café da manhã e almoço oferecem; em meio aos laços fraternais esgarçados pela profunda contingência da reprodução econômica, os moradores da periferia se calam – e são calados – em face de três instituições onipresentes: as igrejas, sobretudo em suas mais recentes franquias neopentecostais, a polícia e o crime organizado, não necessariamente nessa ordem e não sem diálogos incestuosos entre agentes de tais instâncias supostamente antípodas.

As tomadas panorâmicas varrem o monocórdio cenário da periferia assim como cotidianamente o fazem os helicópteros da polícia e dos programas policiais. Apenas as instâncias de controle e repressão parecem discernir algo de novo no front de infindáveis casas de alvenaria e ruas de chão batido e/ou asfalto facultativo. Mais uma biqueira, o enésimo fugitivo, Soninha após 3 horas de ônibus da Galeria do Rock, no centro da cidade, até a casa do pai que a trai com a madrasta. Que há para fazer à tarde se não há emprego e o vestibular não lhe diz respeito? TV e maconha. A falta de dinheiro cede espaço ao tédio para os poucos que permanecem durante o dia nos bairros-dormitórios. Quando Teodoro volta para casa, a TV alta continua a articular os diálogos que silenciam os espectadores, mas Soninha troca o baseado por um cigarrinho de palha.

– Quantas vezes eu já te falei para não fumar dentro de casa, menina?! E abaixa essa porcaria de televisão, caramba! Ora, chega, vamos jantar, já!

Agora, apenas o triângulo familiar tem fome. Cláudia à esquerda, Soninha à direita e Teodoro ao centro, pronto a repetir as palavras de mais uma oração. Dessa vez, Soninha não se faz de rogada. O pai autoritário a proibira de fumar e desligara a TV sem sequer lhe perguntar, “então eu não vou orar porra nenhuma!”. A madrasta tenta repreendê-la, mas agora Teodoro tem um mote nítido para transformar o homem no lobo do homem. O desenlace da cena funde e confunde os sentimentos mais contraditórios deformados pelas relações sem claro delineamento da família periférica.

Teodoro começa a espancar Soninha ressoando gritos de “eu vou te matar, agora eu te mato!”. Toda a fúria difusa pela vida desregrada e sem parâmetros de futuro encontra um alvo por excelência: a filha, uma mulher, objeto submisso que, diante da impotência social do pai de família, agora paga a conta pela carne de segunda que Júlio divide com Cláudia e põe na conta insciente de Teodoro. Cláudia não ousa intervir no espancamento de Soninha, sua adversária adolescente deve ter feito por merecer, mas assim que Teodoro volta à mesa embalado pelo choro de Soninha, Cláudia começa a afagá-lo cada vez com mais malícia e sofreguidão, como se a violência primitiva apagasse a imagem do religioso manso, como se a clava calasse a bíblia e sentenciasse quem era de fato o chefe, pois é assim que muitas Cláudias foram educadas, homem é homem, tem que ser duro, tem que ser forte, tem que mandar, é assim que Júlio faz com ela, mas agora é o marido quem volta a dar as cartas.

Não sabemos como a mãe de Soninha morreu. Na sala, há uma foto da ex-esposa de Teodoro ao lado de um quadro do Corinthians. O filme não dá respostas, mas o SUS nos apresenta algumas possibilidades: morte durante o parto; morte nos corredores superlotados; erro médico. De qualquer forma, o espancamento de Soninha excita duplamente o sadismo socialmente constituído de Cláudia: em meio às famílias formadas, deformadas e separadas a esmo por conta da fragilidade dos laços econômicos e da precariedade do amparo estatal, a humilhação da filha reforça a posição da madrasta ao mesmo tempo que corrobora e excita a submissão da mulher em face da virilidade do marido-sujeito-homem para além do protopastor cada vez mais manso e afeminado em seu recital de orações. O caráter libidinal da violência torna ainda mais sádica a desigualdade social: no cotidiano dos excluídos ou apenas marginalmente integrados, despontam clivagens que tendem a naturalizar posições assimétricas e a deformar possibilidades já exíguas de relações mais humanas.

Algum tempo depois, quando os ânimos já se haviam aplacado, Soninha sai do quarto e vai até a poltrona do pai que agora lê a bíblia quiçá para ludibriar a culpa. A filha não demonstra rancor e se achega como que a pedir proteção contra os pesadelos que não a deixavam fugir da realidade ainda mais temerária. A naturalidade com que Teodoro trata o problema da filha – “deixa a luz acesa que passa” – sugere que o pai não relaciona a violência prévia ao distúrbio. Afinal, bater faz parte, as autoridades fardadas não dão tapa na cara de quem está sem o R.G. na quebrada? Bater educa. O pai então vai ao quarto, agora ele tem sede – logo após o espancamento de Soninha, Teodoro rechaçou as investidas de Cláudia, mas agora ele a vê seminua sobre a cama e não resiste. No quarto bem ao lado, os gemidos da cópula dão sobrevida aos pesadelos de olhos abertos da filha/amante preterida.

Mas Teodoro tenta lutar contra a brutalidade socialmente proposital que sua igreja insiste em chamar de tentação do demônio. Teodoro também é adúltero, mas a evangélica Terezinha (Martha Meola) é o nome de sua redenção. O pai de Soninha quer formar uma nova família, quer apagar o passado, começar de novo. Ora, não só de pão vive o homem, mas de todo o biscate nas quebradas: para mudar de vida, é preciso meter a boa, é necessário um capital inicial, e como os canais legítimos requerem antecedentes criminais, os microempreendedores Teodoro e Valdomiro atendem aos inúmeros pedidos de feitura da justiça com as próprias mãos. Matadores de aluguel, justiceiros.

Uma noite, após terem silenciado um pai e sua filha a sangue frio, os sócios em questão saem para comemorar em um happy hour marginal. Via de regra, a classe média só depara com a morte em perímetros socialmente referendados: hospitais, velórios, cemitérios. A morte, para os bem-nascidos, de fato parece ser o término natural da vida. Teodoro e Valdomiro atestam que, na quebrada, a morte são quinhentos outros. De segunda a domingo, não há folga, feriado ou ponto facultativo. Mas Teodoro ainda tem algumas cartilhas pedagógicas para rezar ao comparsa:

– Você dá muita bandeira, negão, chega fazendo barulho... Nesse nosso negócio, você tem que ser frio, sacou? Tem que ser frio, tem que ser calmo...

Como réplica, Valdomiro lança uma pergunta supostamente ao léu, mas cujo sentido sintetiza a perversa lógica de reprodução social do capitalismo brasileiro:

– Tipo executivo?

– Tipo executivo! É isso aí, Valdo, tipo executivo!

Para o bem da liquidez da empresa, e sempre que preciso for, a mão invisível do mercado manda para o olho cego da rua funcionários e mais funcionários, famílias e mais famílias, por cujas dívidas e destinos o sistema de competição social se ausenta de quaisquer responsabilidades. Executivos contábeis somente dão vazão às leis impessoais de suas planilhas. Executivos contábeis não ouvem o choro e o ranger de dentes, há instâncias burocráticas entre o chão da fábrica e o escritório acarpetado. O desemprego é uma estatística sem rosto, um saneamento para otimizar a competitividade. Frieza? Não. Profissionalismo. Princípio de sobrevivência.

As mãos sujas de Teodoro e Valdomiro precisam disparar, “do contrário ninguém rogará por nós”. E se não há um sistema efetivo de proteção social que resguarde o trabalhador em situações de risco; se a criminalidade arregimenta um verdadeiro exército de reserva por conta da mesma lógica concorrencial que apresenta salários mais atrativos àqueles que não se contentam apenas com o salário mínimo; se não há sequer a mais tenra possibilidade de planejamento e estabilidade, já que Teodoro pode ser desovado no esgoto a céu aberto amanhã, “você tem que ser frio, negão, tipo executivo”, como o empresário que emprega e desemprega ao sabor das oscilações impessoais do mercado. Frieza? Não. Profissionalismo. Princípio de sobrevivência contra os demais.

A selvageria do empreendedorismo de Teodoro e Valdomiro é tachada de assassina e covarde, mas o diretor Roberto Moreira soube entrever a contiguidade profunda entre o gatilho do justiceiro e a caneta demissionária do empresário ovacionado em revistas de celebridades e programas televisivos. A diferença decisiva encontra-se na assepsia da administração empresarial: enquanto o dr. Fausto Alcântara de Mello Filho e Neto bebe um caffè espresso em seu escritório climatizado e apenas lida com os vestígios humanos de suas decisões empresariais por telefone, Teodoro e Valdomiro precisam acumular cargos e detritos em sua gestão primitiva: justiceiros e desovadores de corpos – ainda não lhes foi possível terceirizar os serviços. Se a dupla dinâmica de fato se mostrar competente e investir no marketing do mercado negro, quiçá alguns headhunters da burocracia encabeçada pelo dr. Fausto marquem uma entrevista para requisitar os serviços de Teodoro e Valdomiro, a fim de que os competidores do Grupo Alcântara de Mello Filho e Neto conheçam mais de perto o afago da mão invisível do mercado.

Súbito, a trama ganha inflexões quando Júlio e Marcão (Gustavo Machado) são mortos. Só no fim do filme é que o diretor nos revela que Valdomiro é o verdadeiro assassino do amante de Cláudia. A atmosfera misteriosa a princípio sugere que o marido traído de alguma forma descobrira o caso extraconjugal da esposa. Teodoro, na verdade, fora contratado por Luiz (Waterloo Gregório), dono do açougue e pai de Júlio, para vingar a morte do filho. O justiceiro fica sabendo que Marcão, amante facultativo de Soninha, era também o melhor amigo de Júlio. Assim, quando os dois se cruzam em uma viela, o entrechoque resulta na morte de Marcão e na percepção de Teodoro de que era preciso dar um novo norte à sua vida. “Terezinha, minha flor de Cristo, você quer se casar comigo?”

Após a morte de Júlio, Cláudia foge de casa com medo de que o marido também viesse a matá-la. Co-incidentemente – o hífen neste advérbio se deve à boa construção narrativa de Roberto Moreira –, é Valdomiro quem ajuda Cláudia a se refugiar em um hotel. O comparsa fizera justiça a Teodoro – Valdomiro chegou a castrar Júlio por conta do adultério que certa vez, ao chegar subitamente à casa, ele pôde presenciar. Na verdade, Valdomiro também vingou a si mesmo, pois Cláudia, Soninha e Teodoro despertam seu desejo.

– Toma, pega esse dinheiro, fica aqui no hotel, esfria a cabeça e volta para o Teodoro. É muito bonito ver vocês dois juntos.

– Obrigada, Valdomiro.

Para matar a solidão que a apartou do amante e do marido, Cláudia logo se envolve com o nordestino Lindoval (Dionísio Neto), solícito funcionário do hotel que logo se propõe a resolver o problema do chuveiro no quarto da mais nova hóspede.

A vida de Teodoro estava para se regenerar, ele começaria a escrever torto por linhas certas: a redenção viria ao lado de Terezinha. Mas Valdomiro fica intrigado. “O que é que tem de tão especial nessa Terezinha, Teodoro?”

– Ela é religiosa, mulher direita, vou mudar de vida, recomeçar, chega, tô dando área, acabou.

Após a debandada de Cláudia, Soninha ganha feições femininas. Toma um belo banho, se esparrama seminua pela cama do casal desfeito. A filha antes masculina agora se produz justamente com a maquiagem da madrasta. Como não pode haver vácuo no poder, Soninha senta no trono da antiga rainha, dá novas feições à casa, quer o pai perto de si. Mas Teodoro tem planos diferentes para a sua nova vida – é preciso se livrar de todo o fardo que o faça se lembrar do passado longe do Senhor.

– Seguinte, Soninha: vou me casar de novo, a vida é assim, vou morar no interior, mas você não vem comigo, não, você vai morar com a sua vó em Campinas.

Não fosse uma nova intervenção de Valdomiro que do comparsa não queria se divorciar, a família já estilhaçada voltaria a se partir em novos pedaços.

Certa vez, para estimular Valdomiro, Soninha lhe mostrou uma gravação em que o pai, diretor do curta-metragem, e Cláudia exibiam uma bela e lasciva performance. Eis que Valdomiro embrulha a fita VHS e a pendura na porta da casa de Terezinha. “É Satanás, só pode ser Satanás, sai, demônio!” Quando Teodoro vai procurá-la, as portas do Éden já se haviam fechado. “Terezinha, me deixa explicar, Terezinha, por favor, abre essa porta, Terezinha!” Era inútil insistir, somente um expediente verdadeiramente marginal colocaria Teodoro diante de Terezinha – então, mais uma porta é arrombada. Terezinha se mostra irredutível, não há explicação, não há perdão, o ex-noivo precisa lhe dar um sacode para ser ouvido, mas o experiente Teodoro calcula mal: a têmpora de Terezinha contra a parede a faz desmaiar. O desenlace vê Terezinha acordar seminua, amordaçada e amarrada à cama. O renegado Teodoro, ciente de que não conseguiria mudar de vida, cospe contra Terezinha toda a raiva por conta de seu cristianismo seletivo:

– Cadê o perdão de Cristo, Terezinha, cadê? Cê tinha razão, Terezinha, eu sou o demônio. Mas eu queria mudar, eu queria seguir com você, Terezinha. Mas você não me ajudou em nada, você nem quis me ouvir. Será que eu não tenho direito a perdão? Tá lá na sua bíblia, todo mundo tem direito a perdão. Deus deve ter me perdoado, mas você não me perdoou, não é, Terezinha? Então agora você vai conhecer o verdadeiro Teodoro. (A câmera de Roberto Moreira se posiciona junto ao rosto de Terezinha para fazer um novo vídeo erótico, desta vez sem o consentimento da amante, mas com toda a cumplicidade dos espectadores.)

A sequência final do filme apresenta um Valdomiro mais bem vestido, agora proprietário de um belo carro, “o mesmo que seu pai sempre cobiçou, Soninha!”. A filha bem vê que o comparsa conseguiu ultrapassar o pai e, por isso, chega a hora da retribuição nua. O entrelace do justiceiro de Ébano com a loirice de Soninha apresenta uma bela tomada mestiça. Mas o coito é interrompido por dois tiros secos. O casal irrompe na cozinha e vê Teodoro todo ensanguentado e agonizante diante de Cláudia já morta e estirada sobre a mesa. Mas o que teria acontecido?

Lindoval, o amante nordestino de Cláudia, topara com alguns skinheads que o deixaram em coma. Ora, o raio que cai na árvore pela segunda vez confirma as suspeitas de Cláudia. “Primeiro o Júlio, agora o Lindoval... Foi o Teodoro, agora eu sei!” Na sanha de se vingar, Cláudia volta para casa e encontra Teodoro sentado na cozinha. Ambos haviam passado pelo corredor polonês de onde os gemidos lascivos de Valdomiro e Soninha podiam ser ouvidos. Teodoro voltara armado. Após o estupro de Terezinha em decorrência da trama envolvendo o vídeo caseiro, o pater familias poderia desconfiar de Valdomiro, o parceiro que não queria o divórcio do matrimônio criminoso, e de Soninha, a filha que não queria se separar do pai. Teodoro não sabia do caso do comparsa com a filha, mas podemos imaginar qual seria o desenlace se ele tivesse tempo para vê-los sair do quarto nus. Será que Teodoro teria assassinado a própria filha? A escatologia psicossocial de Roberto Moreira aproxima o improvável da possibilidade mais comezinha e cotidiana.

Cláudia se aproxima de Teodoro, acaricia seus cabelos, “e por onde é que você andou, hem, Cláudia?”, mas, com uma faca que havia sacado da louça que Soninha lavara com esmero, a esposa/amante penetra no marido que, à queima-roupa, alveja Cláudia mortalmente.

Soninha agora não consegue transar, ela não ouve Valdomiro a dizer que já não há o que fazer, “vamos pegar o dinheiro do teu pai e fugir, Soninha, vambora, já era!”. Não. A filha seminua tem um último intercurso simbólico com o pai a se esvair em sangue diante da madrasta inerte. Vitória de Pirro: Soninha derrotou Cláudia, mas não pôde formar um novo lar com Teodoro. Valdomiro, o justiceiro sobrevivente, sabe que não adianta chorar sobre sêmen e sangue derramados. Um duplo roubo faz que o escravo outrora subordinado supere o nhonhô branco: como se não bastasse o carro que Teodoro cobiçava, mas que apenas Valdomiro pôde comprar, agora o comparsa amealha o dinheiro do falecido para roubar-lhe o projeto de vida em nome de Jesus ao lado de ninguém mais, ninguém menos que Terezinha, a redentora. (Mero detalhe o fato de Valdomiro cheirar umas carreiras com o irmão de Terezinha pouco antes da cerimônia de casamento; talvez ele ainda espere pela voz de Teodoro a lhe ensinar a ser moderado no uso do pó.)

Contra todos enreda o espectador de classe média que, eventualmente, se pergunta se, naquelas circunstâncias, acabaria agindo da mesma forma. A pergunta me parece ociosa por princípio: não se trata apenas de uma transposição psicológica ou circunstancial da brutalidade, mas de uma vivência desregrada e deformada que desestrutura todos os parâmetros de civilidade considerados normais. Quando a infração se torna a norma e o horizonte de expectativas vislumbra apenas a sobrevivência contumaz, a guerra hobbesiana de todos contra todos tenta reconfigurar relações desumanas com vistas à superação de uma perversidade social que não cabe aos meros indivíduos transformar. Sem um profundo combate à desigualdade social, Contra todos continuará a narrar a voz do Brasil na periferia das metrópoles. Mas, diferentemente dos executivos frios e calmos que podem desligar o rádio do carro quando a Voz do Brasil lhes bloqueia a audição do debate futebolístico no trânsito caótico das 6 da tarde, os periféricos só poderão silenciar a voz do Brasil se caminharem entre os escombros de suas próprias relações.

 

[1] Escritor e professor, é doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral na Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014.

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