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Voz, palavra e inquietude

Entrevista com a cantora Lívia Nestrovski [1]


Por Denise Soares

 

Lívia Nestrovski, cantora de grande destaque na canção brasileira contemporânea, fala de sua trajetória no cenário musical, suas influências artísticas e sobre como constrói e conduz sua carreira.



Denise Soares: Comecemos a nossa conversa falando sobre a sua relação com a palavra. Como se deu essa relação, até mesmo antes da sua formação musical, de você se tornar profissional?

Lívia Nestrovski: No meu caso, existe um histórico familiar de relação com a literatura e com a música. Isso vem desde os meus avós, ou até dos meus bisavós, porque venho de uma família que tem editores, jornalistas, professores, historiadores, todo mundo dessas áreas de literatura, de artes. Meu pai [Arthur Nestrovski] e minha mãe [Silvana Scarinci] são músicos, e os dois são ou foram professores. Meu pai tem mestrado e doutorado justamente sobre essa intersecção de literatura e música; e minha mãe, sendo musicista, foi para a música barroca, que tem, também, uma relação muito peculiar entre texto e música, entre o que está sendo cantado e a melodia, como as coisas se relacionam. Além disso, ela é professora e pesquisadora; tem uma relação muito forte com a palavra, também, com a escrita. Minha irmã [Sofia Nestrovski] também é da área de Letras, foi para a crítica literária, e eu fui para a música. Portanto, na minha casa, essa transição entre os ambientes da literatura e da música é muito natural, muito comum. Quando a gente começa a entrar nesse universo de cantar, de falar das coisas de uma outra forma, que é um outro nível de comunicação, um outro degrau da fala, é muito interessante como muda o significado da palavra, como a melodia tem um poder diferente sobre o que está sendo dito. O Luiz Tatit fala disso, é bonito o que ele diz nesse sentido de que uma melodia vai facilitar muito essa comunicação, vai fazer o texto grudar no ouvido das pessoas, que decoram com muito mais facilidade uma ideia se ela vier cantada, do que se ela vier falada.

A questão da transmissão e a abordagem, de fato...

Sim, e da memória, também. Existe um poder de comunicação muito grande na música, e percebo isso no palco. Para mim foi uma conquista, porque eu era muito tímida e não gostava de me apresentar. Sempre fui apaixonada por música, mas a parte da performance me custou muito trabalho e hoje é o que mais gosto, na verdade: estar no palco. Finalmente, consegui entender o que é esse lugar e como comunicar para as pessoas o que vejo e sinto na música. Tudo isso está no texto, mas está muito na performance, também, em como você vai transmitir esse texto através da música, com os gestos e toda a cena. É uma outra dimensão, essa relação texto/música. É visual, que ajuda a transmitir essas ideias, esses sentimentos.

E a sua formação musical?

A minha formação musical vem principalmente de casa, não poderia ser diferente (risos). É em casa que as coisas começam, que se fundam os pilares de como você vai entender música ou qualquer coisa que seja, naqueles primeiros anos de formação. Eu tive esse grande privilégio. Uma das coisas mais marcantes, para mim, foi a convivência com a minha mãe, quando ela fez essa transição para a música barroca. Meus pais eram violonistas clássicos, e os dois fizeram transições. Meu pai foi para a música popular, mas antes disso passou pela literatura, pela crítica musical, passou muitos anos trabalhando para editoras e foi professor da PUC [Pontifícia Universidade Católica de São Paulo]. Mas ele fez a transição para a música popular depois, quando eu já era adolescente. Acompanhei meu pai mais como um grande apreciador e intelectual da música, sempre ouvindo e amando música, do que como músico, em si. Minha mãe era quem tocava, estava com o instrumento na mão, durante a minha infância; ela saiu do violão clássico e foi para o alaúde barroco. Dentro de casa sempre tinha muitos cantores porque ela estava sempre ensaiando, e essa foi a minha escola, o canto barroco, que é muito diferente do canto do classicismo, do romantismo, da ópera, daquela coisa muito impostada; é um lugar que, em relação à música popular, tem, também, essa questão da relação entre letra e música, de o texto ser o carro-chefe da música, o que depois mudou na história da música clássica. Depois, no canto romântico, por exemplo, aconteceu uma relação muito mais forte com o instrumento voz e sua potência, com o que eles chamam de Bel Canto, que é aquele canto que está acima de tudo, onde não se entende direito a articulação e o que importa mais é o virtuosismo do que a sutileza do texto. É outra relação. No Barroco se tem a proximidade com o teatro, é o início da ópera, de muitas coisas, dos alicerces da música como a gente conhece. Existe uma ligação muito específica entre o que está sendo dito e cantado e, nesse limiar, muitas vezes, há o que se chama “recitativo”, que é interessante porque trabalha os afetos de uma forma dramática, teatral, e dá muito poder para o texto. A música trabalha em função do texto e não o contrário, entende? Há frases que são muito faladas – meio canto, meio fala –, e isso me lembra bastante o próprio trabalho do Tatit, que está sempre nesse limiar; e, claro, há milhões de paralelos na história da música com essa questão. No início do século XX houve o que, na Alemanha, se chamou de sprechgesang, que, literalmente, é canto falado, e que foi uma das grandes questões do início do século, da mudança para o atonalismo que Schoenberg trouxe – com a peça Pierrot Lunaire, que é teatro, fala, canto, essas transições malucas – como questão do canto falado para a música. Minha formação tem a ver com tudo isso, com esse caldeirão de coisas, sem fronteiras entre o erudito e o popular. Não vejo muita diferença entre uma coisa e outra. Minha formação oficial foi em Música Popular, na Unicamp [Universidade Estadual de Campinas], em Canto; bacharelado em Canto. O mestrado, pela UniRio [Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro], em Musicologia, em uma área etnográfica, de música popular urbana.

Como são as suas vivências dentro do seu trabalho? E, sobre essa relação com o popular e o erudito, peço que você diga como vai construindo a sua carreira, com essa bagagem. Você procura seguir uma linha específica ou vai experimentando, diversificando?

Gosto muito da experimentação, nunca vou parar num lugar e dizer: “é aqui”. Se hoje eu quiser gravar um disco de Bob Dylan com harpa, eu vou (risos). Vai ser uma fase e, daqui a um tempo, já vou querer fazer outra coisa. Assim eu sou... Preciso ficar me renovando o tempo todo. Tenho três discos gravados, com três projetos diferentes, e todos eu considero que sejam meus também. Não é apenas cantar em projetos alheios, são meus projetos com pessoas diferentes. Isso difere de uma carreira solo convencional, em que o artista vai fazer o trabalho do seu jeito, contratando músicos e arranjadores; não penso dessa forma, neste momento. O meu projeto principal, que vai mais nesse sentido de carreira solo, em longo prazo, é o Duo. Somos eu e o Fred Ferreira. É o projeto que começou há mais tempo e continua... estamos sempre na estrada. Temos um CD gravado, que se chama Duo. Porém, há outros, inclusive ligados à literatura, por exemplo, que sempre fazemos. Gosto de estar sempre envolvida com projetos diferentes ao mesmo tempo. E nunca em uma só direção.

Você falou muito da sua mãe e do seu pai... Eles são as suas principais influências? Quem você pode citar além deles, tanto na literatura quanto na música? Transitando em muitas coisas, tem alguém e/ou algum movimento musical muito especial?

Tive uma relação muito forte com o jazz, no início, e acredito que é um lugar muito confortável para mim. Morei nos Estados Unidos também, na adolescência, e foi lá que começou a minha relação com o canto, porque lá existe uma tradição de vozes muito interessante; tenho uma relação forte com Ella Fitzgerald, com Sarah Vaughan, essas duas ouvi muito. O jazz foi uma grande escola para mim, a improvisação – essa linguagem que é muito explorada ali, especificamente, e isso foi e é parte fundamental da minha formação. Também tive uma fase em que ouvia muito as cantoras da Era do Rádio – Dolores Duran, principalmente. Sou apaixonada por ela, é uma das maiores artistas que o Brasil teve. Infelizmente, morreu muito cedo, mas é uma grande inspiração – como figura, como artista, compositora, mulher. Era da noite; acho-a sensacional!

Transgressora... 

Transgressora... A Dolores tinha uma coisa que me encanta e com a qual me identifico um pouco, que é essa transição também entre estilos, porque ela cantava muitos gêneros diferentes. Era uma cantora da noite, que fazia os bailes dos anos 1950 e tinha que cantar de tudo. Além disso, ela começou como crooner, depois conseguiu entrar no rádio, no universo das grandes cantoras, igualando-se a Dalva de Oliveira, a Marlene, a Emilinha Borba. Transitava nesse ambiente noturno das boates e foi para o rádio, para o glamour... Mas também foi cantar no circo (as cantoras, quando queriam se popularizar, iam para o circo, para rodar o Brasil, mesmo). Ela era antenada, passou pela Bossa Nova, também; por isso tudo, nesse sentido eu me identifico muito, porque ela não estava numa coisa só, estava explorando as possibilidades da época, inclusive vocais, porque era uma cantora com muita facilidade para línguas, para cantar estéticas diferentes; e ainda começou a compor, foi também para esse outro lugar. Ela é uma cantora excepcional para a sua época e, nesse sentido, bastante experimental. Porém, atualmente, quem mais gosto de ouvir é o Caetano Veloso porque, para mim, é o cara que continua se renovando, falando com a juventude, com a atualidade, não só no texto, mas na sonoridade. Ele consegue se reinventar a cada disco e projeto, genial.

Daí você vai vivendo isso dentro do seu trabalho...

É, vou descobrindo coisas.

Você já foi para o lugar da composição?

Não, ainda não; é um terreno incrível que eu gostaria de explorar, em algum momento. Já explorei um pouco na adolescência. Quando entrei na faculdade, tinha esse desejo de compor e muita curiosidade em aprender mais sobre as questões composicionais, inclusive formais, de harmonia, arranjo, instrumentação. Comecei a estudar um pouco, mas tive de optar: ou começar a compor e me dedicar a isso e estudar de verdade, ou estudar canto. Acabei me dedicando completamente a este outro lado e não sobrou muito espaço mental para a composição. A improvisação é uma faceta da composição, e nisso eu me realizo bastante. Quando tenho a oportunidade de trabalhar improvisação nos meus trabalhos ou projetos, gosto muito, mas não é sempre que cabe. Talvez, daqui em diante eu vá buscar mais, trabalhar a improvisação e linguagens diferentes de improvisação dentro dos trabalhos que eu fizer.

Além da voz, você tem algum outro instrumento?

Eu toco piano, mas nunca me apresentei tocando. Pode ser que eu venha a explorar, em algum momento, um pouco mais. Tenho ideias, mas não sei quando vou botar isso para o mundo (risos).

Você realmente é uma artista bastante inquieta, sim?

Sim, muito. Gosto de dança também, mas não sou profissional. Estudo sapateado, adoro. Gosto de muitas coisas mesmo (risos). Sou inquieta até demais, o que é um problema porque posso me sufocar, às vezes. Me interesso por muitos assuntos, e é justamente isso o que busco dentro do meu trabalho. Com o Fred, consigo explorar muito isso porque nós somos inquietos nesse sentido. É uma expansão de linguagem: ir para vários lados e trazer coisas de vários universos, influências de lugares do mundo, épocas diferentes, linguagens diferentes para um projeto só.

Como você se relaciona dentro do mercado? Você é uma artista independente. Sendo essa pessoa inquieta, você tem uma boa receptividade? Como funciona?

Estamos passando por um momento de transição, de mudança do mercado, já faz um tempo. Acho que, em breve, vão surgir coisas que a gente nem imagina. As grandes gravadoras, todas, vão falir (risos). Ou vão virar outra coisa; na verdade, já viraram. São máquinas de reprodução de entretenimento, no pior sentido. E isso eu digo sem preconceito de estilos, de gêneros, porque gosto de ouvir coisas populares, acho interessante, mas o que as gravadoras fazem não é isso, é, sim, a reprodução de uma coisa que dá certo até o esgotamento, e já não sabem mais como ganhar dinheiro. Enfim, estão entrando em um beco sem saída. Enquanto eles não enxergarem os mercados paralelos, não vão sair do buraco. Mas vejo, também, muitos mercados paralelos, surgindo, emergindo – de produtores independentes a vários formatos novos –, e mesmo que alguns ainda não sejam sustentáveis, são todos experimentações. Alguns vão dar certo, outros não. É um momento de ebulição, de efervescência – nas entrelinhas do mercado. A tendência é essa. Estamos chegando a um momento em que o mercado de entretenimento e o mercado musical artístico vão se separar, realmente. Posso estar divagando, mas enxergo muitas iniciativas, no mundo inteiro. Por exemplo, os house concerts, que são shows dentro de residências. São pessoas que têm espaços e organizam shows totalmente independentes para os amigos, para pessoas específicas. Elas abrem as portas da própria casa, cobram ou não uma entrada (ou recebem doações espontâneas) e o dinheiro vai todo para o artista. A pessoa não tem gastos com funcionários, aluguel, contas. Vejo isso nos Estados Unidos, na Europa, e no Brasil está surgindo. Esse movimento é importante. E, claro, existem muitos mercados maiores do que esses, que são os festivais de música independente, de jazz, de world music. Acho que esse é o grande mercado da música, atualmente. Nos Estados Unidos, na Europa, na Ásia, tem muito. Na América Latina tem menos, acredito. No Brasil, o incentivo é menor e as pessoas não têm o hábito de fazer doação para projetos artísticos grandes. Existe uma mentalidade um tanto atrasada e preconceituosa de pensar que o governo tem que pagar tudo. No resto do mundo, não é assim que funciona. Precisa ter subsídios privados, mas, sobretudo, o apoio popular, que as pessoas entendam que são e fazem parte da cultura, que são reflexo disso, afinal, a cultura é para elas. Isso tem que mudar no Brasil, é algo que precisa ser trabalhado. Também por isso, muitas outras iniciativas independentes estão surgindo. É uma tendência mundial: cada vez mais, equipes menores, pessoas concentrando mais funções. Por isso, eu e o Fred somos um duo. Conseguimos fazer muita coisa sendo uma equipe minúscula, viajamos sem ninguém e temos parceiros. Hoje em dia, não existe mais esse apoio de grandes gravadoras, por exemplo. Enfim, não existe mais tanto dinheiro indo para a música, para esse tipo de música.

Mas você acha que a classe artística, em especial a brasileira, mudou um pouco essa consciência de não ser tão dependente de uma gravadora? Ela tem a sua postura? Essa forma como você trabalha está crescendo? Ou essa classe ainda tem uma visão ultrapassada?

Acho que está mudando. Vejo isso porque faço o meu próprio agenciamento. Na maior parte das vezes, estou sempre fazendo a produção do trabalho, eu e o Fred. Mas, por exemplo, se você escreve um e-mail para uma casa de show aqui, a chance de eles responderem sem saberem quem você é, sem conhecerem o seu trabalho, sem nunca ouvirem falar, é nula. Provavelmente, vão pensar: “quem é essa pessoa que é a própria agente? Cadê o produtor? Ah, então é ruim, sei lá”. Se você escreve para uma casa de show nos Estados Unidos, eles respondem; na Europa, alguns lugares respondem e outros não, mas existe essa cultura do artista estar em contato, à frente do próprio trabalho e do gerenciamento total. Não acho isso bom, exatamente, mas é uma necessidade atual; os produtores, os agentes, estão muito sobrecarregados, eles cuidam de muitos artistas ao mesmo tempo e são muito raros os artistas que têm um agente que trabalhe exclusivamente para eles. No Brasil, muita gente faz o próprio agenciamento, e isso vai forçar o mercado a mudar esse ponto de vista. Porém, ao mesmo tempo, ainda sinto que o artista se sente um pouco superior: “sou artista, não mexo, não escrevo e-mail... sou especial, preciso de alguém para responder os e-mails e fazer o meu twitter”. Tem aquela mentalidade de que o artista não trabalha, como se o trabalho dele não fosse braçal, de todo dia.

Tem que ter alguém para servi-lo...

Tem. Percebo que essa mentalidade não existe só no meio artístico, é em tudo. No Brasil, as pessoas não limpam as próprias casas, entendeu? Tudo começa aí, precisa ter uma empregada para fazer isso por você. Outra coisa, também mais no Brasil, é que existe o mito sobre o artista, “o nosso dom, o dom, o dom, nossa que voz! Você nasceu com o dom”. Não, estudei muito e continuo estudando e trabalhando, todos os dias! Vou ao piano e fico fazendo vocalises, é uma coisa mecânica. O Nelson Freire também, se ele parar de estudar vai cair o rendimento; qualquer músico, se parar de estudar vai perder qualidade. É igual ao atleta, só que as pessoas não entendem isso bem e colocam o artista nesse lugar superior, que é uma concepção romântica do que é o artista, uma concepção do século XIX. Aqui, ainda existe isso de colocar o artista nesse lugar, e ele próprio acaba se colocando nesse lugar também, muitas vezes, inatingível.

A Elis Regina falou algo sobre isso, em uma entrevista ótima [TV Cultura, 1982]: “o que as pessoas imaginam o que é ser uma estrela (...) as pessoas acham que você toma banho em banheiras de champanhe ou leite de cabra, entendeu? Que você anda com vestidos de gala e é puxada por galgos russos em carruagens pela Avenida Paulista às duas da tarde e não é bem assim, é um pouco diferente o lance (...) Eu sou uma operária da canção popular!”
.

A Elis, para mim, é uma das cantoras mais lúcidas que o Brasil já teve – que eu já vi, pelo menos. Porque ela era de uma inteligência, uma consciência, e uma noção do espaço que o artista ocupa, dessa coisa de ser o operário da música, que a gente fala; a gente está ali, todo dia na labuta, é trabalho.

E uma consciência, assim: “estamos todos trabalhando em prol de uma obra. Estou lá na linha de frente, mas tenho o
roadie, a secretária, o produtor... e não sou diferente deles, é só a minha função que muda”. Confesso que eu, às vezes, não tenho certeza dessa consciência entre os artistas, de fato. Essa conversa tem ampliado um pouco minha visão das coisas. Mudando um pouco, como você chegou ao Arrigo Barnabé?

Eu canto com ele desde 2008, época da faculdade; o Arrigo fazia uma residência artística na Unicamp, dava aula de composição. Isso culminou num espetáculo em que fui cantar como membro de um grupo de vários cantores. Era um projeto supercênico, que se chamava Salão de Beleza e envolvia vários grupos de dentro da universidade. Era um grande espetáculo, com vários esquetes, tinha até dança. Tudo com esse tema do salão de beleza. Os alunos também compuseram peças para esse espetáculo e, no final de tudo, havia uma peça do Arrigo. Cantei toda essa parte de composição dos alunos e o final com o Arrigo, que era com uma big band. Como era um espetáculo que tinha um tema, um personagem, tinha também figurino, e foi aí que comecei a me dar conta do quanto isso era legal de explorar. Isso mudou minha perspectiva sobre essa questão da performance. Antes, eu estava muito focada na parte instrumental, da voz como instrumento, de estudar a técnica; ali, percebi que não é só isso, que tem essa outra dimensão do corpo em cena.

Seria uma atriz, além de ser cantora...

É, exatamente. Essa coisa de teatro, que não é minha formação; mas na música é bom lidar com isso. Como transportar tudo de uma maneira mais sutil para quando se está fazendo outro tipo de repertório que não é tão cênico, nesse sentido, de ter um personagem? Muda-se a perspectiva para a persona artística, mesmo que não se chegue a isso de ser uma persona, mas é como se trabalhar a cena de uma forma sutil, pessoal, não caricata, e que ajude o público a entrar no universo que está sendo proposto.

E a sua história musical com o Luiz Tatit?

A partir do Salão de Beleza, o Arrigo começou a me chamar para fazer outras coisas com ele e fomos desenvolvendo uma relação, que culminou no projeto com o Tatit, o De nada a mais a algo além, em 2014. Na verdade, gravamos em 2013 e lançamos em 2014.
Em 2011, o Arrigo completou 60 anos e a gente estava fazendo um show comemorativo, que era uma remontagem do Clara Crocodilo. Ele chegou com uma canção para mim e falou: “olha, Lívia, estou fazendo umas parcerias com o Tatit, saiu uma música aqui, queria que você cantasse, vê aí”. Aprendi a música e a gente tocou, algumas vezes, nesse show. Eles nunca tinham feito parcerias, embora sejam associados ao mesmo movimento, dos anos 1980, a Vanguarda Paulista, e essa foi a primeira composição: Cabeça Coração. Depois mudou de nome e virou De Cor. É uma música incrível, uma nova fase do Arrigo, muito diferente dos outros letristas que ele tem como parceiros, ou dele próprio, quando escreve letras. Depois, ele me disse que tudo isso que estava sendo feito ia virar um projeto e defendeu a bandeira de que eu deveria ser a cantora, porque o Tatit já tinha ouvido falar de mim – ele me viu no show comemorativo e achou bom que fosse eu. Talvez o Tatit tenha ficado em dúvida, em alguns momentos, porque tinha cantoras muito mais conhecidas do que eu, naquela época. Nesse processo, o Arrigo me mandou umas quatro, cinco músicas, e teve a ideia de gravarmos uma demo para ver como ia soando. Ele fez alguns arranjos no computador e gravamos na casa do Tatit, no estúdio do Jonas [Tatit]. Acho que, a partir daí, o Tatit realmente confiou que estava tudo certo. Fomos nos conhecendo assim, e foi tudo maravilhoso a partir dali.

Ótimo disco. Importantíssimo para a história da música brasileira, em especial, de São Paulo. Parceria inédita, depois de décadas em um mesmo “movimento”, entre Arrigo Barnabé e Luiz Tatit. Boa novidade. Como foi a repercussão? Teve algo do tipo: “Vanguarda Paulista de volta, uma nova cantora”, esse lugar de continuação?

Esse disco foi pouco divulgado; uma grande frustração para mim, na época, porque eu estava com 25 anos e fui cantar com esses grandes artistas, grandes referências, em um projeto tão lindo, inusitado, bonito, bem feito... tão interessante e atual! Como as pessoas não sabem desse projeto? Ele tem esse lado interessante de ser uma nova geração cantando essas músicas, com uma pegada diferente. Não é a Vânia Bastos nem a Tetê Espíndola, é outra coisa, outra linguagem, são novas referências; é diferente. Com a pequena divulgação desse projeto, fizemos poucos shows, também porque era uma banda grande, uma equipe, e tudo isso vai na contramão do que as pessoas têm feito – cada vez mais, formações menores, por ser mais barato. Eles quiseram fazer esse projeto grande, com cordas, com uma banda de 11 pessoas, e aí tem que ter produtor, roadie... é muita gente. Um projeto caro que foi subaproveitado pela mídia, pouco falado mesmo. Uma pena. Não estou dizendo por mim, como artista, mas sim pelo projeto em si, que é incrível. Enfim, acho que é muito especial e foi pouco explorado.

Sobre o projeto Duo, desde quando você está fazendo?

Começou em 2006, 2007, mas era um projeto que não tinha nenhuma intenção de virar o que acabou virando, e agora esse é o projeto de linha de frente, que estamos [eu e Fred] sempre fazendo, viajando. Este ano [2017], fomos duas vezes aos Estados Unidos. Há pouco tempo, fizemos uma turnê na Europa, de um mês e meio, e pretendemos voltar. E ir, também, para um pouco além da Europa, talvez o Oriente Médio. Veremos o que acontecerá. Mas estamos sempre tocando.

Como é a escolha de repertório?

Vai sempre mudando, é um processo lento. O Duo é um projeto muito experimental, no sentido do repertório, dos arranjos, da linguagem, da sonoridade. Às vezes, demoramos um ano para deixar um arranjo pronto, porque vamos testando. Levamos para o público uma vez, e vamos mudando, experimentando conforme as reações etc., até chegar a um entendimento de que o arranjo está incrível para “aquela música”, que está comunicando o que queremos e está no lugar certo do show (pensamos o show como um espetáculo, mesmo), e a ideia é que seja uma experiência para o público, também. Não é, simplesmente, um conjunto de canções em ordem aleatória, músicas interessantes; não, escolhemos sempre músicas que estão conversando entre si de algum jeito, mesmo que seja de uma forma muito abstrata. Não é um show temático nem uma narrativa, literalmente falando, mas um show que pensamos como uma experiência em que queremos levar afetos diferentes para o público, naquela ordem específica.

Composições suas e do Fred ou de outras pessoas?

De outras pessoas, às vezes de amigos, compositores atuais. Tem também as clássicas: Tom Jobim, Milton Nascimento, compositores conhecidos, famosos, canções conhecidas, mas feitas de forma diferente; tem também canções de outras partes do mundo, de outras épocas. Às vezes entra uma peça da música erudita no meio...

Eu ia perguntar mesmo sobre a música erudita, se entra nessa relação.

Entra, mas como música popular. Não vou cantar música clássica com impostação nem nada disso. Pegamos canções que acreditamos funcionar nesse ambiente de música popular, é outra proposta, mesmo.

Além do
Duo, você tem algum outro projeto formatado?

Estou sempre cantando com o meu pai. Lançamos um disco no ano passado [Pós Você e Eu, 2016], e fazemos concertos esporádicos. E esses projetos paralelos que eu e o Fred somos convidados a fazer, sempre. Por exemplo: fizemos um show sobre tradução, lá na UFF [Universidade Federal Fluminense]; estreamos na FLIP [Festa Literária Internacional de Paraty], com um show encomendado pela Casa de Jorge Amado e pela Fundação José Saramago – era o lançamento de um livro de correspondências entre os dois, e nos chamaram para fazer o show, duas vezes. Estamos sempre fazendo esses projetos, muitas vezes ligados à Literatura, em colóquios de tradução. Fomos a Portugal fazer no Fólio, que é uma espécie de FLIP de lá. São encomendas que recebemos e adoramos fazer. Mas sem tanto alarde, apesar de fazermos muitos, muitos projetos.
Além disso, apesar de o Duo ser, sempre, o carro-chefe, eu e o Fred estamos em um coletivo, o Rosa e a Orquestra Diaba, liderado pelo Márcio Bulk (que montou o projeto Tramundo, no Rio de Janeiro). Somos eu, o Fred, o Zé Manoel (compositor, cantor, pianista de Pernambuco), a Cláudia Castelo Branco (pianista), o Marcos Campello (guitarrista e compositor) e o Mário Ferraro (compositor, pianista, da música erudita e contemporânea). Em algum momento vamos entrar em estúdio. É um projeto que tem só composições inéditas, poemas e letras do Márcio. Um trabalho primoroso, com vários parceiros de música. Estou bastante animada com esse projeto, mas ele ainda não começou, de fato.

Esse projeto traz algo mais, além da música?

É um projeto de colagens, também, porque o Márcio Bulk é artista plástico. É lindo, espero que saia em breve.

Você também trabalhou com o José Miguel Wisnik, sim? É mais um nome dentro desse grupo da Vanguarda Paulista e afins. Como foi, também, com ele? Tem a ver com a relação que o seu pai tem com essas personalidades?

Conheci o Zé, especificamente, por intermédio de meu pai, diferentemente do que foi com o Arrigo. O Arrigo me levou para o Tatit e acabei sendo associada a esse grupo de compositores. Conheci a Ná Ozzetti, a Tetê Espíndola, mas foi tudo via Arrigo. O Zé Miguel já foi pelo meu pai, porque eles trabalham juntos há anos e foram fazer um show em Portugal. Resolvi ir de férias e acabei fazendo uma participação especial, de última hora, sem planejar. Isso gerou um convite para montar um show para a Fundação Gulbenkian, e esse show virou o Mortal Loucura. Daí comecei a conhecer melhor o Zé, porque eu já sabia quem ele era, musicalmente, ouvia na minha adolescência e achava maravilhoso aquilo tudo. Ele também começou a me dar umas coisas inéditas para cantar, e espero que venha um disco por aí também.



[1] Entrevista concedida em 27 de agosto de 2017, na Casa Guilherme de Almeida.

 

 

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