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Panorama de Almodóvar

O método Almodóvar através de seu último filme – Julieta (2016)


João Eduardo Hidalgo [1]


O termo La Movida foi criado para nomear o movimento de contracultura que aconteceu em Madri no final dos anos 1970 e no começo da década seguinte. Nele surgiu o jovem diretor Pedro Almodóvar Caballero. Na realidade, La Movida aconteceu em várias capitais espanholas: em Vigo e Bilbao, com seus grupos de rock; em Barcelona com seus cantautores Joan Manuel Serrat e Lluís Llach; em Sevilha com Triana e Paco de Lucía. La movida marca um renascimento cultural depois de quatro décadas de uma existência cinza e antiquada. O ditador Francisco Franco morreu depois de causar muitos danos ao povo e ao país, e em 1975 a Espanha era uma nação pobre, atrasada e perdida numa realidade que remontava ao início do século XX. O nome e a definição do movimento não eram preocupação de nenhum dos implicados nele, nunca houve um manifesto, diziam “estamos en el Rollo” ou “yendo de movida”, criando um vocabulário que parece ter vindo da experiência de sair de casa para comprar substâncias alucinógenas, ou para meter-se em espaços underground (bares, cafés-concerto e congêneres).O movimento é herdeiro da Pop Art americana, e os grandes centros como Nova York e Londres são irradiadores de uma cultura que valoriza a trivialidade, o efêmero e o estereotipado, os subgêneros, as ex-estrelas e os produtos da sociedade de consumo.

Costuma ser apontado como um dos primeiros sinais do movimento a criação, em Madri, do grupo pop Kaka de Luxe, em 1977, liderado pela cantora Alaska, figura chave de La Movida. Essa nova onda trouxe um grupo de pessoas que não tinham experiência com a música, mas estavam dispostas a montar uma banda e dar shows-happenings por Madri e pelos outros centros urbanos da Espanha. O outro eixo (eram dois fundamentais – a música em primeiro lugar) de La Movida foram as artes visuais, principalmente a pintura e a fotografia, em que foram significativas as presenças dos pintores Sigrifido Martín Begué (1959-2011) e Guillermo Perez Villalta e dos fotógrafos Alberto García-Alix e Pablo Pérez-Mínguez (1946-2012). A grande promotora do movimento foi a galerista Blanca Sánchez (1948-2007), que incentivou muitos dos artistas a produzirem, fez uma imensa exposição comemorativa no início de 2007 e partiu tranquila.

Nesse cenário New Wave e, como eles dizem, Rocanrol (Rock & Roll), Pedro Almodóvar juntou-se a uma figura indefinível, Fabio de Miguel (ou Fanny McNamara, ou Patty Diphusa), nascido em 1957 em Madri, que frequentava a Casa das Costus – diminutivo de Las Costureras, formada pelos pintores Juan Carrero (1955-1989) e Enrique Naya (1953-1989) – e circulava pela cidade assustando os franquistas semiapodrecidos e os conservadores em geral. Fábio não era músico e, como Almodóvar, não tinha voz alguma, mas a ideia era mais uma questão estética, de parecer, do que realmente ser. A dupla dinâmica lançou um LP de vinil chamado Como está o banheiro de senhoras!

Sobre o enredo de Julieta, o filme mais recente de Almodóvar, um post de 18 de novembro de 2015 no site de El Deseo (a produtora de Almodóvar) informa que se baseia no livro Silêncio, de Shusaku Endo (1923-1996), e que o título foi alterado para evitar confusão com a nova obra de Martin Scorsese. Mas na entrevista de 20 de março para El País Almodóvar diz que se baseou em três contos de Alice Munro, escritora prêmio Nobel em 2013, que são “Chance” (“Destino” em espanhol), “Soon” (“Pronto” em espanhol) e “Silence” (“Silêncio”), três narrativas que têm como personagem central Juliet e que fazem parte do livro de contos Runaway (A fuga, em português, e Escapada em espanhol). Para os mais atentos devo lembrar que a personagem Vera Cruz (atentar para o nome, La vera cruz em espanhol significa “a verdadeira cruz”) de La piel que habito está lendo, no seu quarto-prisão, Escapada de Munro. E Almodóvar sugeriu que Elena Anaya lesse o livro para inspirá-la na criação da personagem – na época, divulgou-se que Almodóvar tem os direitos de Escapada desde 2009.

Em Julieta, novamente as artes visuais têm papel central – a escultura O homem sentado do artista Miquel Navarro é um fio condutor na trama. Também aparecem quadros do pintor galego Seoane, de Lucien Freud, Richard Serra e de Dis Berlin, que também desenha a tatuagem de Xoan. Na parede do novo apartamento de Julieta, logo no início do filme, vemos o cartaz do espetáculo teatral The old woman de Robert Wilson e uma fotografia da esquina da Calle Alcalá com a Calle Sevilla (do Palacio de la Equitativa), que dialoga com a “esquina Almodóvar” (Alcalá com Gran Vía), tão amada e fotografada pelo diretor.

Quanto ao método de criação, faz parte do universo Almodóvar retomar personagens e histórias da sua própria obra, de outro ponto de vista ou com outro tratamento, recurso que chamo de autocitação paródica. A história de Volver (2006) é o resumo do livro da escritora Amanda Gris (Marisa Paredes), rejeitado por sua editora no filme La flor de mi secreto (1995). A enfermeira Manuela aparece como personagem secundário nesse mesmo filme, para voltar como protagonista de Todo sobre mi madre (1999). O cinema e em segundo lugar a literatura sempre foram fontes fundamentais na criação de Pedro Almodóvar. Elas podem ser somente uma estrutura, que quase não se percebe, como quando em Átame! Ricki (Antonio Banderas) apresenta a sua vida como pontos num mapa para Marina (Victoria Abril) e depois se declara dizendo que só tem 50 mil pesetas no bolso e quer ser um bom pai para os filhos dela. Essa estrutura repete a do filme Bus Stop (Nunca fui santa, 1956), da fala de Cherie (Marilyn Monroe) para a sua camareira, mostrando onde estava e para onde queria ir (pontos num mapa), e da declaração do apaixonado Bo (Don Murray) para ela, e devemos lembrar que a personagem de Almodóvar, Marina (Victoria Abril), era uma ex-atriz pornô, que agora entrava no mercado de filmes sérios, os mesmos boatos que pesavam sobre o passado de Marilyn Monroe.

Nos últimos anos, principalmente depois de La piel que habito (2011), as artes visuais voltaram a ter importância central na narrativa almodovariana; em Julieta o diálogo é com a obra de Louise Bourgeois (1911-2010), Guillermo Pérez Villalta, Goya, Velázquez e também com um quadro de Tarsila do Amaral, que Almodóvar deve ter visto na grande exposição Tarsila do Amaral realizada pela Fundação Juan March, em Madri, de fevereiro a maio de 2009 (a fundação fica a cinco ou seis quarteirões da produtora El Deseo).

Los amantes pasajeros (Os amantes passageiros), de 2013, é uma grande enciclopédia almodovariana de citações e referências a personagens e situações dos seus 18 filmes anteriores. Temos aqui um casal que se separa, com a mulher jogando a mala pela janela e tentando matar-se por amor, além da virgem que é sensitiva (elementos de Mujeres al borde de un ataque de nervios, 1988). Cecilia Roth faz seu mesmo papel de 1982 em Laberinto de pasiones, uma viciada em sexo que monta um negócio e aproveita muito. O número musical enlouquecido volta como em Átame! e Tráiler para amantes de lo prohibido (1984), e a receita do coquetel “Valencia” lembra muito a do “Gazpacho” de Mujeres al borde de un ataque de nervios.

Uma estratégia que não deu certo foi a inclusão de cacos com sons parecidos: quando um passageiro diz que quer “una llamada” (uma chamada), o comissário entende “una mamada” (sexo); Norma (Cecilia Roth) se descontrola quando lhe dão o coquetel com drogas e diz que “esto es cosa de CNI”, que soa como “isto é coisa de cine(ma)”. Por estarem muito ligados ao idioma espanhol, não funcionam na tradução.

Outra citação, marca de estilo, é o travelling (passeio da câmera) pelos espaços vazios do aeroporto, que expõe a maestria de Almodóvar na construção dos planos do filme. Ele gosta de usar a técnica do travelling por máquinas, como do projetor de cinema em Mujeres al borde de un ataque de nervios e pelas máquinas do hospital em Todo sobre mi madre.

Das citações de obras de outros autores podemos ver pelo menos duas: a de um episódio de CSI: Crime Scene Investigation (1ª temporada, episódio 9, “Unfriendly skies” [Céu inimigo]), em que um passageiro de voo entra em pânico e é sufocado por todos os outros da primeira classe. O mesmo aconteceu com o comissário de bordo Joserra (Javier Cámara), que a partir dessa morte acidental decidiu não mentir nunca mais e, por isso, responde tudo o que lhe perguntam, para o mal ou para o bem. A segunda citação é do livro que o passageiro mexicano sr. Infante (José María Yazpik) está lendo: 2666, de Roberto Bolaño, na realidade um livro composto por cinco romances, dois dos quais falam de assassinatos de mulheres numa região do México, para onde vai o avião, e a missão de Infante tem a ver com esse assunto. Atentar para os nomes: a cafetina é Norma Boss (Normal e Chefe), o piloto é Acero (Aço, tem mulher e namorado), o ator é o sr. Galán (o que se espera de um ator), o empresário desonesto sr. Más (quer sempre mais) e o copiloto é o sr. Morón (idiota, retardado).

No filme recente o personagem central é uma mulher, Julieta, retratada em dois momentos de sua vida, aos 20 e aos 40 anos. A relação mãe e filha é central na trama – o que não é novidade em Almodóvar, basta lembrarmos Tacones lejanos (De salto alto, 1991), que trata da doentia relação de Rebeca (Victoria Abril) e Becky (Marisa Paredes), e Volver (2006), da mãe Irene (Carmen Maura) com sua filha Raimunda (Penélope Cruz) e com a filha desta, Paula (Yohana Cobo), que mata o pretenso pai.

Em Julieta (2016) as citações, paródias e o que chamo de autocitação – que são a marca central do estilo Almodóvar – estão pelo filme todo, por mais que pareça um novo Almodóvar, que agora adapta histórias alheias (ledo engano) e não mais oferece ao público um filme original. Já na primeira imagem vemos uma tela vermelha, que lembra a tela de teatro que baixa no final de Todo sobre mi madre (1999) e sobe no início de Hable con Ella (2001). A seguir, somos apresentados a um conjunto de materiais que vão definir e estar presentes durante o filme: dentro de uma caixa de papelão, típica de mudanças, vemos a protagonista colocar uma estátua de um homem sentado (com leves traços de O pensador de Rodin), um livro de arte com essa escultura na capa e o autor Lorenzo Gentile (personagem do filme), uma caixa de CDs Playing the piano e Out of noise (2009) de Ryuichi Sakamoto, compositor e pianista de música techno (que fez a trilha sonora de Tacones Lejanos, 1992, de Almodóvar).

Julieta prepara sua mudança para Portugal, com Lorenzo Gentile, e na estante à sua frente pega o livro El amor (1971) de Marguerite Duras, que fala de três personagens: uma mulher grávida, um viajante e um homem que sempre caminha (oposição óbvia ao “hombre sentado”), os quais se isolam numa ilha, sempre frente ao mar (alguns elementos que aparecem em Julieta). Na parede, o cartaz da peça The old woman – adaptação de Robert Wilson da obra do russo Daniil Kharms (1905-1942), em que um escritor é assombrado pelo fantasma de uma velha mulher. Julieta é atormentada por dois fantasmas, o homem do trem e Xoan, seu marido. Há, ainda, uma foto da esquina das calles Alcalá com Sevilla no centro de Madri, que faz uma paródia da “Esquina Almodóvar”, assim nomeada por ele, que é a esquina de Alcalá com La Gran Vía. Nessa esquina do edifício Metrópolis (1911) Esteban de Todo sobre mi madre é atropelado e morre, e Isabel (Penélope Cruz) quase dá à luz seu filho Victor, em Carne Trémula (1996).

Julieta abre uma gaveta e vemos uma coleção de recortes de jornal, método de Leo em La flor de mi secreto (1995) e Enrique de La mala educación (2004), e que Almodóvar já disse ser o seu para encontrar histórias. Um recorte chama atenção, seu título é “Esquilmando el mar” (esgotando o mar). E no fundo da gaveta há um envelope azul que Julieta abre levemente e joga no lixo, sem que vejamos o conteúdo. Esse cesto de lixo Almodóvar diz (no Pressbook) ser o dele, não sei se de sua casa ou da produtora El Deseo.

Nesse filme convivem três etapas na vida da protagonista, a atual (de 2016), as de 1985 e de 1998, lembrando a estrutura de La mala educación (2004). No presente (2016), Julieta andando por Madri encontra Beatriz, amiga inseparável de sua filha Antía, e o encontro que detona o filme acontece na esquina das calles Monte Esquinza e Marqués de Riscal, no bairro de Salamanca, moradia da alta burguesia madrilena. Acredito que Almodóvar tenha buscado mostrar o lado moderno de Madri filmando em frente a um edifício arquitetonicamente atual e criativo. Beatriz vem acompanhada de dois rapazes e um trans masculino – uma mulher no processo de transformação em homem –, também este uma autocitação. O trans é vivido por Bimba Bosé (1975-2017), sobrinha de Miguel Bosé, o transformista Letal de Tacones lejanos (1991), e Bimba aparece com os cabelos laranja e um batom excessivamente róseo na boca, que é circundada por impúberes fios de barba. E mais, temos de lembrar que durante La Movida a calle Monte Esquinza era um dos polos de reunião do grupo. Nessa rua ficava a Casa-estúdio de Pablo Pérez-Minguez (1946-2012), fotógrafo quase que oficial do período (com Alberto García Alix), e onde foram rodadas algumas cenas de Laberinto de pasiones (1982), segundo filme de Almodóvar. O primeiro, Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón (1980), teve cenas rodadas na Casa-convento dos artistas plásticos conhecidos como Costus, os já citados Enrique Naya e Juan Carrero. A dois quarteirões dali fica a Almagro, rua onde vivia Lucía (Julieta Serrano), antagonista de Pepa (Carmen Maura) em Mujeres al borde de un ataque de nervios (1988). Autocitações em abismo, que criam uma trama complexa e possibilitam múltiplas leituras. É incrível como Madri é um personagem forte e constante neste novo filme de Almodóvar; suas ruas, praças, parques e bairros são o cenário que prevalece no filme todo, presença que se notou pela última vez nos filmes de Almodóvar em Carne trémula (1997).

Julieta descobre que sua filha, que ela não vê há 12 anos, vive perto do lago Como, na Suíça, e tem três filhos – dois meninos e uma menina. Essa informação é suficientemente chocante para causar uma mudança brusca em sua vida. Ela termina a relação com Lorenzo e resolve voltar ao antigo bairro onde vivia com a filha, antes do rompimento. Pega o cesto de lixo (o de Almodóvar) e abre o envelope azul, dentro do qual existe uma foto toda rasgada, dela com sua filha Antía, que ela cola; atrás dela o autorretrato (Reflection, 1985) de Lucien Freud, pintor que tem como principal característica mostrar os defeitos (físicos e emocionais) de seus modelos, que às vezes ninguém mais percebe, e a incomensurável passagem do tempo. Uma grande mostra de Freud aconteceu em Viena, de outubro de 2013 a janeiro de 2014, no Kunst Historisches Museum, na qual essa tela estava presente. Nesse autorretrato Freud está com olhar triste, amargurado, e a expressão de seu rosto mostra descontentamento com a vida, exatamente como está Julieta no presente.

Nesse momento Julieta começa a escrever um diário onde promete contar tudo o que jamais dissera para a sua filha Antía. Promete contar sua história, que inclui o nascimento da filha, e assim voltamos para 1985, quando Julieta era uma jovem professora de literatura clássica e, dentro de um trem que ia para Madri, conheceu Xoan (Daniel Grao, de longe o melhor ator do filme), um pescador da Galícia, de origem cubana, que ia comprar um motor para um de seus barcos. Na passagem para o passado a cena começa com um galho de árvore batendo violentamente na janela do trem e assustando Julieta, adiantando assim que a história será misteriosa e envolverá algumas mortes. Na mesma cabine de Julieta está um senhor de uns 60 anos com aspecto triste e solitário, o qual tenta puxar conversa com ela, que sai da cabine sem responder. Julieta foge para o vagão-restaurante e conhece Xoan, com quem começa um jogo de sedução. Os dois veem juntos um cervo que corre perto do trem. Julieta diz que o animal está procurando uma companheira, Xoan diz que sua mulher está em coma há 5 anos (lembrar de Alícia de Hable con Ella) e a convida para passear na plataforma quando o trem para, por alguns minutos, em uma estação. Ela não está vestida para sair na neve e fica onde está, lendo La tragédia griega de Albin Lesky. Quando o trem começa a se movimentar, dá uma freada brusca, derrubando pessoas e objetos, e Julieta volta para sua cabine, que está vazia, e teme pelo pior quando vê pessoas correndo pela neve fora do trem. Ao pegar a mala do homem, descobre que ela está completamente vazia. Xoan está com um grupo que traz algo em uma maca, e para desespero de Julieta é o homem triste da sua cabine. Consolada por Xoan, que fica com ela na cabine, iniciam um caso amoroso, citando a posição dos amantes de Carne trémula; abraçam-se, estando cada um com a cabeça alinhada com os pés do outro. Cada um segue seu caminho. Julieta dá aulas em Madri, em que fala de Ulisses, o grande herói e marinheiro que segue o caminho da aventura e do desconhecido quando abandona sua Ítaca e, depois, quando Calipso lhe promete a vida eterna, prefere o mar e enfrentar seu destino. A Ítaca de Xoan é Redes – o povoado da Galícia onde ele mora –, e a eternidade lhe é dada por Ava, que o eterniza na escultura do homem sentado.

Passados 6 meses, termina o período de contrato de Julieta e ela recebe uma carta-surpresa de Xoan: tudo segue igual, sua mulher Ana continua vegetando. Julieta decide ir até Redes e chega no dia do enterro de Ana. É recebida por Marian (Rossy de Palma), uma empregada que já se fez dona da casa e decide tudo, interfere em tudo e, mais, sabe de todas as histórias. Xoan chega e a encontra adormecida, fazem amor e ele lhe pede que fique. Na manhã seguinte Xoan assiste ao sono de Julieta sentado, como a estátua O homem sentado (lembrar que Ava – já direi quem ela é – dá a estátua para Julieta somente quando está no hospital, morrendo). Xoan diz que vai lhe apresentar Ava, que é artista como ela, mas Julieta responde: “não sou artista, dou aulas de literatura clássica”. Julieta se torna amiga de Ava, a escultora, e gosta de lhe contar lendas e mitos enquanto trabalha e fuma (como a personagem Huma de Todo sobre mi madre). Em um dia especial no ateliê de Ava Julieta diz que “os Deuses criavam os seres e lhes davam dons, como o pássaro que pode voar, mas quando criaram o Homem notaram que todos os dons tinham acabado, por isso o homem nasce nu e sem dons”. Em seguida, anuncia: “estou grávida”.

Julieta tem a filha e a chama de Antía, nome típico da Galícia, vai apresentá-la à família na Andaluzia, e aqui temos duas elipses (salto para o futuro) juntas: ela apresenta a neta e, depois, volta com a menina já com 9 anos, recurso duplo que quebra um pouco o ritmo do filme. Nessa visita Julieta vê a mãe bem debilitada, com alguma doença degenerativa cerebral, que lhe dá momentos de lucidez dentro de uma letargia. Julieta vê seu pai interessado na empregada, chamada Sanáa (atentar para o nome), que conheceu num festival de música sacra de Fez. Esta parte da história familiar de Julieta não acrescenta nada ao filme e desvia a atenção para personagens que não têm nenhuma importância na trama – deveria ter sido eliminada na edição, é um apêndice dramático inútil.

Quando Julieta volta dessa viagem a parte alguma, vê que Xoan fez outra tatuagem com o desenho de um A&J e exclama alegre “Antía e Julieta”, mas poderia ser “Ava e Julieta”, as duas mulheres que disputaram o amor de Xoan/Ulisses. O desenho da tatuagem é de Dis Berlin (pseudônimo de Mariano Carrera, pintor e ilustrador espanhol nascido em Soria em 1959), artista que participou de La Movida e é colaborador habitual de Almodóvar, e do qual aparecem dois quadros no filme. Logo depois dessa volta o clima entre Marian e Julieta fica insustentável. Marian vai aposentar-se e Julieta quer voltar a trabalhar; Marian alerta que “a profissão de uma mulher é sua família”, e acrescenta: “é quando as coisas acontecem”. Como uma harpia Marian está pronta a exercer papel de ave de rapina e contar a traição de Xoan e Ava no passado. Julieta tem uma grande discussão com Xoan e sai para andar; este, abandonado com a palavra na boca, transforma-se no segundo fantasma de Julieta, pois sai para o mar e uma tormenta épica o engole e o devolve em pedaços para ela.

Como em qualquer tragédia grega a vida continua, por isso Antía está em um acampamento enquanto tudo acontece. Lá conhece Beatriz, com quem desenvolve uma amizade e depois uma ligação muito forte. Antía não volta para Redes, mas vai a Madri, para onde também vai Julieta. Quando elas se encontram na casa de Beatriz, ficam diante de uma gravura de Richard Serra chamada Reykjavik (1991), pertencente à coleção do Reykjavík Art Museum, que realizou uma grande mostra do artista de maio a setembro de 2015. A obra parece original, pois é possível notar a assinatura e a numeração da versão no canto direito (a gravura tem 46 versões numeradas). Ela se compõe de dois blocos negros retangulares que não chegam a se tocar. Lembram estacas fixadas à beira-mar, para amarrar barcos nos portos. É assim que Julieta e Antía estão – vivendo momentos diferentes –, e não chegam a se conectar. Pela vontade de Antía ficam morando em Madri, e ela vai até Redes fechar a casa e volta mais distanciada da mãe, por mais que esta não perceba. Nesse novo apartamento em Madri a nova Julieta madura (Emma Suárez) é revelada no banho, imitando o gesto de Verônica ao estender o sudário onde aparece o rosto de Cristo, e a cena imita a pintura do Meister der Heiligen Veronika, mestre alemão ativo entre 1400 e 1420.

Quatro anos se passam. Bea vai estudar nos Estados Unidos e Antía decide fazer um retiro espiritual nos Pirineus. Antía reúne seus pertences, entre eles uma foto de seu pai e uma da cantora Chavela Vargas (1919-2012) especializada em rancheras, uma paixão musical de Almodóvar. Quando Antía sai pela porta Julieta vê o homem do trem e Xoan, seus fantasmas, sem saber que Antía se tornará mais um deles. Três meses depois Antía deveria voltar do retiro, mas manda uma responsável informar Julieta que ela decidiu dar outra direção para a vida, e que a mãe não faz parte desta nova trajetória. Parece uma crítica de Almodóvar aos novos movimentos sectários que surgiram no mundo e especialmente na Europa, os quais envolvem religião ou ideologia e isolam o indivíduo.

Em todos os aniversários de Antía Julieta compra um bolo e espera pelo cartão de “Feliz Aniversário”, que chegará invariavelmente sem remetente para “Julieta Arcos, Calle Fernando VI, n. 19, 3º Piso, Madrid, CP 28004”. Depois de três aniversários assim, Julieta se cansa, resolve mudar de apartamento e vai para uma área de Madri que não tem relação alguma com Antía. Antes da mudança, no antigo quarto da filha nota-se em cima da cama um mapa-múndi deslocado, como o mapa-múndi na sala de Pepa em Mujeres al borde de un ataque de Nervios, o mapa da Espanha no quarto de Leo em La flor de mi secreto e o mapa-múndi na sala de Marco em Hable con Ella. Mas lembremos que em 2016, 13 anos depois do desaparecimento voluntário de Antía, Julieta encontra por acaso Bea e fica sabendo que ela tem três filhos – dois meninos e uma menina –, vive perto do lago Como, na Suíça, e assim tudo muda.

Temos então uma apresentação em flash-back da relação de Julieta com Lorenzo Gentile, um crítico de arte amigo de Ava, que sai do elevador prestando muita atenção em Julieta na última visita desta a Ava, agora internada com esclerose múltipla. Lorenzo acaba se apresentando para Julieta no enterro de Ava, e ela diz que Ava o deixou de presente, com a escultura do homem sentado. Julieta e Lorenzo começam uma relação adulta que não contempla a existência de Antía; vemos os dois se conhecendo e passeando por Madri, onde vão aos Cines Princesas, que produziram o segundo longa de Almodóvar, Laberinto de Pasiones (1982). No presente (2016) Julieta encontra Beatriz uma segunda vez e, finalmente, se inteira da relação de amor que sua filha e Beatriz tiveram e da fofoca/confissão feita por Marian em Redes, sobre a circunstância da morte de seu pai, Xoan. Todas essas revelações deixam Julieta atordoada. Ela sai caminhando pelas ruas de Madri e acaba atropelada sob o olhar de Lorenzo, que a tem seguido pela cidade, depois de voltar de Portugal – como ele mesmo confessa – como um personagem de Patricia Highsmith (1921-1995). Nesse reatar Lorenzo vai ao apartamento de Julieta e recolhe a correspondência e os diários que ela começou a escrever para Antía. Ela lhe pergunta se ele leu o diário, Lorenzo diz que não. Ela percebe a carta e, ao virá-la, emociona-se com o remetente: “Antía Feijóo, Mix-Parking Cioss, Cioss, 6637, Sonogno, Suiza”. Julieta chora muito e ouvimos a voz da filha em off dizendo que ela tem três filhos, que o mais velho, Xoan, se afogou em um rio, e que desde então ela imagina a dor que a mãe sofreu com a sua desaparição. No carro, a caminho da Suíça, Julieta diz ao fiel Lorenzo que não vai perguntar nada, que tudo deve acontecer naturalmente. O carro nos deixa na beira da estrada, avistamos os Pirineus e ouvimos a forte voz de Chavela Vargas cantando Si no te vas (Se você ficar):


Si no te vas, te voy a dar mi vida
si no te vas, vas a saber quién soy
vas a tener lo que muy pocas gentes
algo muy tuyo
mucho, mucho amor
Hay cuanto diera yo por verte una vez más
amor de mi cariño
Por Dios que si te vas
me vas a hacer llorar
como cuando era un niño
Si tú te vas
se va a acabar mi mundo
el mundo donde solo existes tú
no te vayas, no quiero que te vayas
por qué si tú te vas
en ese mismo instante
muero yo
Hay cuanto diera yo
por verte una vez más
amor de mi cariño
Por Dios que si te vas
me vas a hacer llorar
como cuando era un niño
Si tú te vas
se va a acabar mi mundo
el mundo donde solo existes tú
no te vayas no quiero que te vayas
por qué si tú te vas
en ese mismo instante
muero... muero yo

Como em muitos filmes de Almodóvar a música acrescenta e descreve com mais precisão sentimentos e personagens que não estavam tão delimitados a princípio. Chavela fala da tristeza e da solidão que Julieta sentiu com o desaparecimento da filha, da destruição de seu mundo através das lágrimas e do sofrimento.

Quando vi o filme pela primeira vez, em São Paulo, em junho de 2016, em um cinema frequentado por cinéfilos e por amantes de cinema em geral, ouvi: “isto não é mais Almodóvar, como ele mudou!”. Nada mais equivocado. Almodóvar está cada vez mais orgânico, seu método está presente na estrutura do filme, e sua amada e idolatrada Madri, aliás com alusão à “Esquina Almodóvar”, está mais óbvia que nunca. A evolução de um autor com a idade é óbvia e esperada, o que podemos discutir é o resultado do filme como um todo. Considero Julieta um bom filme, mas vejo alguns problemas no roteiro. A família de Julieta não tem nenhuma função dramática, fica perdida entre uma sequência e outra. As duas elipses para o futuro, com as duas visitas de Julieta e Antía aos pais dela, confundem e não estão bem pensadas. É um erro às vezes repetido por Almodóvar: em Kika, logo no início, quando Ramón (Alex Casanovas) desperta da catatonia da falsa morte, temos uma elipse para o futuro e em seguida um flash-back, e ficamos procurando descobrir onde estamos na história. Outro dado: a Julieta jovem (Adriana Ugarte) é contida, intensa, ao passo que a madura (Emma Suárez) é over e histérica o tempo todo, até quando sorri – não parecem a mesma pessoa. A interação Julieta jovem e Xoan é fantástica, e mesmo quando se passa uma década, Xoan, vivido por um só ator, convence como o pai que agora entra na maturidade, diferentemente das duas Julietas. Mas o resultado geral é bom, o roteiro mostra-se competente em unir elementos que vêm de várias fontes – literatura, teatro, artes visuais e música –, apesar de os créditos dizerem que se trata de uma adaptação da obra de Munro. O conjunto é bem diferente da simples adaptação para o cinema de seus contos. Ava é um personagem muito bom e Inma Cuesta o defende bem, mas aparece como um cometa; a segunda Antía (Blanca Parés) tem rosto e voz muito expressivos, mas fica pouco em cena.

Também estão presentes em Julieta os “personagens visitantes” dos filmes de Almodóvar, Agustin Almodóvar é o comissário do trem, que avisa o tempo de parada na estação, “diez minutos de parada”; Esther García conversa com Julieta no cemitério, no enterro de Ava, e Fernando Iglesias está na porta do ônibus, na ida de Antía para o acampamento. Quem tem boa memória lembra-se da cena de Fernando Iglesias nadando submerso na piscina em Hable con Ella, enquanto ouvimos o violão de Caetano Veloso dedilhando os primeiros acordes de Cucurrucucu paloma, e ele sai da piscina até a cintura e abre um grande sorriso sedutor, para a câmera que tem por trás Almodóvar.

Almodóvar revela-se maduro neste vigésimo longa-metragem, com uma narrativa refinada e, principalmente, com um método de criação desenvolvido nos últimos 40 anos, a que ele está ontologicamente ligado. Em Julieta o final, além de aberto, parece um pouco brusco, mas era a hora de terminar, pois a relação de Julieta e Antía agora, depois de todos os traumas, já é outra história, que não tem lugar nesta obra. Esperar somente obras-primas de um diretor, escritor ou pintor é injusto. Cada obra tem o seu lugar na carreira de seus criadores, e altos e baixos, sucessos e fracassos fazem parte da trajetória de todos. Julieta é um filme eficiente, com qualidades e defeitos, fiel ao estilo de Almodóvar. Não tem a maestria de Todo sobre mi madre ou a inventividade de Hable con Ella, mas vale a pena ser visto e revisto.

REFERÊNCIAS

CERVERA, Rafael. Alaska y otras historias de la movida. Barcelona: Plaza & Janés, 2002.

GALLERO, José Luis. Solo se vive una vez: Esplendor y ruina de la movida madrileña. Madrid: Árdora, 1991.

GARCÍA FERNÁNDEZ, Emilio C. Historia ilustrada del cine español. Barcelona: Planeta, 1985.

LECHADO, José Manuel. La movida: Una crónica de los 80. Madrid: Agaba, 2005.

PÉREZ PERUCHA, Julio. Antología crítica del cine español 1906-1995: Flor en la sombra. Madrid: Cátedra/Filmoteca Española, 1997.

SÁNCHEZ, Blanca. La Movida. Madrid: Comunidad de Madrid, 2007.

SÁNCHEZ NORIEGA, José Luis. Historia del cine. Madrid: Alianza, 2006.

STRAUSS, Frederic. Conversaciones con Almodóvar. Madrid: Akal, 2002.




[1] Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) e pela Universidad Complutense de Madrid. Professor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), Campus de Bauru.




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Visitação: de terça-feira a domingo, das 10h às 18h.
Atividades culturais e educativas: de terça a sexta-feira, das 19h às 21h, e aos finais de semana, das 10h às 19h
(consultar programação).

CASA GUILHERME DE ALMEIDA
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