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Desafios da crítica cinematográfica atual

Daniel Fontana [1]


Críticos, os inúteis...

Falar do trabalho dos outros tem um lado inglório. Exatamente por isso, desde sempre, o senso comum sobre os críticos, de qualquer tipo, não é exatamente favorável. A imagem da pessoa que é simplesmente “do contra”, que só gosta de filmes desprovidos do fator entretenimento e que busca subjetividade onde não há nada, entre outros defeitos, persiste. Por senso comum, vamos salientar que não se trata das pessoas que não procuram ir além do casual na apreciação de qualquer coisa. Porém, como pregar para convertidos é fácil demais, cada profissional que comenta obras alheias faz um favor ao seu objeto de estudo, e a si mesmo, mantendo a formação de público entre seus objetivos.

Hoje, entretanto, formar público é um empreendimento digno de qualquer semideus grego. Não importa qual a frente de batalha escolhida, são inúmeras as barreiras a enfrentar em um mundo que segmenta cada vez mais os consumidores. Com a grande indústria cultural arriscando cada vez menos ao entupir o mundo com fórmulas de lucro certo, é muitíssimo pertinente refletir sobre o papel atual da crítica em geral. Sob um ponto de vista muito específico, ela realmente perdeu sua razão de existir. Antes que você expresse alguma decepção, calma, continue lendo.

Em um momento difícil até para advogar pela Filosofia dentro do currículo escolar, comentar arte em geral é uma tarefa complicada. Se a arte em questão for Cinema, a coisa piora um pouco, já que existe uma enorme fatia do público que pensa nos filmes apenas como um entretenimento regado a pipoca e refrigerante, até sem muita necessidade de atenção ou mesmo silêncio. Mas, além da falta de educação e péssima formação cultural, um processo gradual de desvalorização da crítica especializada foi deflagrado em consequência de uma nova mentalidade comercial de Hollywood, atingindo o ofício naquele quesito específico já citado. Há cerca de quarenta anos, por sinal.

Paranoia? Mimimide uma panelinha metida a cult? Longe disso, e a explicação é bem simples, na verdade. Abordar o cinema norte-americano da década de 1970 é também falar sobre mudança de paradigmas comerciais. Mudou a publicidade, mudou a distribuição e encurtou muito o tempo médio em que um filme permanece em cartaz, junto com a disposição dos investidores em esperar pelo retorno. Assim, aos poucos, a possibilidade de um filme crescer em público graças às boas críticas e ao boca a boca tornou-se nula. Já na era digital, devemos calcular o impacto das redes sociais e das ferramentas de marketing que medem o alcance das marcas no universo virtual.

Em termos de Brasil, sobre as produções fora do eixo estadunidense e as nossas próprias, as poucas que estreiam também quase não têm oportunidade de encontrar seu público. O advento dos multiplexes, nos anos de 1990, trouxe uma lógica simples, onde o exibidor que conta com um espaço de várias salas vai apostar nas grandes franquias hollywoodianas, ocupando mais de uma sala com o grande lançamento da temporada. Nem é uma questão de condenar a prática, já que o proprietário está apenas fazendo seu negócio girar. Exceto por um ou outro cinema de rua que ainda resiste bravamente, a rotatividade é frenética.

Como se não bastasse essa perda de influência na esfera comercial, ainda há agravantes. A internet e as redes sociais trouxeram uma massa de pessoas que se acha qualificada para falar de Cinema e vomita todo tipo de “opinião” na rede. Quem trabalha com textos perde ainda mais espaço, ofuscado pelo formato vídeo. Enfim, hoje é muito fácil para qualquer um denominar-se “crítico”, aviltando a função e confundindo pessoas que procuram um discurso embasado em conhecimento técnico e bagagem cultural variada.

Ainda não fui suficientemente eloquente no discurso? Pois bem, vamos ilustrar melhor para quem não é um profissional do meio. Imaginando que você tenha um mínimo de intimidade com Cinema, pense em quando a Disney assumiu a franquia Star Wars, iniciando uma nova trilogia em 2015, depois de um intervalo de dez anos. Com as vendas antecipadas, algo que a internet também agilizou, o primeiro filme da retomada da marca já fez um caminhão de dinheiro antes mesmo de estrear. Assim sendo, fica absolutamente claro que, para o estúdio, tanto faz se existe uma imprensa especializada para falar do filme. As exibições dos lançamentos para os críticos passam a existir por formalidade ou mera cortesia.

A saga espacial de George Lucas é perfeita para seguir no raciocínio. Não apenas por ela mesma, já em seu surgimento, em 1977, carregar uma grande responsabilidade pela metamorfose na relação estúdio/imprensa/público, mas por motivos um pouco menos lisonjeiros. Quando Lucas resolveu voltar ao seu universo em outra trilogia prelúdio, entre 1999 e 2005, entregou filmes que não são exatamente um primor como realização fílmica, algo observado por críticos honestos e imparciais, aparecendo como resistência no momento em que o fanatismo nostálgico começava a comprometer opiniões. No entanto, o sucesso comercial deles foi avassalador e inquestionável.

Um cenário sombrio, sem a menor dúvida. Imaginar que um trabalho é realizado com pouca valorização e reconhecimento das plateias em peso já é ruim, ainda mais aceitando que não se exerce mais influência nas bilheterias. No entanto, confrontado com a realidade das redes sociais, blogs e Youtube, então temos uma verdadeira tragédia com proporções de um blockbuster dirigido por Michael Bay, com o sucateamento da crítica cinematográfica em níveis alarmantes de imbecilização. São pouquíssimos os refúgios desta loucura, em comparação com a avalanche de conteúdo sem propósito.

Quem poderia imaginar que chegaríamos a uma época em que pessoas se propõem a analisar trailers, criando toda sorte de teorias e conversas vazias baseadas em  algo que é apenas uma peça de publicidade, cuja divagação tem a data de validade da estreia do filme? Que a simples adjetivação pura, sem aprofundamento algum, de determinados veículos serviriam como parâmetros para um público considerável?  Lembrando, inclusive, que os mesmos seguidores destes veículos se revoltam sem muito critério, caso venham a discordar do que foi dito sobre a obra em questão.


Gosto ≠ Qualidade

Também precisamos falar sobre dois tópicos que permeiam o senso comum sobre o crítico: imposição e gosto. Algumas pessoas parecem ter um problema com o termo “crítica”, o que contribui muito para a impressão errada sobre a categoria. Falta reflexão sobre a nossa própria língua, entendendo que a palavra também abarca o sentido de análise, o que não é novidade para qualquer um mais próximo da Filosofia ou que se disponha a pensar um pouco mais. Desde sempre, uma das nossas dificuldades é nos fazer entender dentro deste caráter de apreciação, enquanto lutamos com outra frase cunhada sob medida para uma maioria preguiçosa: “Gosto não se discute”.

Ainda que devamos concordar com a máxima da sabedoria popular, ela é quase sempre utilizada de forma ingênua ou mal-intencionada por quem não tem argumento. Embora seja um princípio nebuloso, é preciso separar gosto de qualidade, esta que deve, sim, ser discutida sempre. Qualquer um que produza conteúdo sério sabe que é preciso colocar seu conhecimento técnico e poder de análise em primeiro plano, acima de suas preferências pessoais. Independente de dois críticos discordarem na apreciação do mesmo filme, ambos podem manter o foco e a honestidade se assim quiserem.

Do outro lado, infelizmente, existem aqueles que buscam uma mera direção para o que assistir, querendo apenas saber se este ou aquele filme é bom – como se isso fosse um conceito totalmente objetivo. Trocando em miúdos, muita gente quer duas coisas do crítico. A primeira é que ele recomende algo muito bom - sem qualquer margem de erro ou interpretação - e a segunda, que costuma gerar mais revolta, é que ele chancele a qualidade de um filme que a pessoa já tenha visto. Pois, afinal de contas, para algumas pessoas, não basta gostar de algo, é necessário que o mundo inteiro avalize essa “opinião”.

Quando o que foi dito sobre a obra não corresponde a uma expectativa exagerada ou entusiasmo desesperado, o preço da ignorância alheia é pago pelo crítico, recebendo até comentários maldosos e covardes. Mais uma contradição da Era Digital, que facilita a interação na dinâmica entre a produção de conteúdo e o consumo, mas deixa as pessoas mais vulneráveis a esse tipo de agressão. Deixando de lado certos fenômenos sociológicos que transcendem nosso assunto aqui, a percepção de que esse tipo de jornalismo seria um guia de compras atrapalha demais as discussões sobre Cinema atualmente.

Percebe-se por aí que essa intransigência é um problema de mão dupla. O trabalho sério da crítica acaba espremido entre macaquices internéticas e um público que, em sua maioria, não compreende sua função. Mesmo que esta fosse compreendida pela massa, hoje é difícil disputar com quem faz tudo por atenção e sacrifica qualquer traço de integridade intelectual que supostamente teria ou poderia ter. E o detalhe mais doloroso é que muitos fazem isso de graça.

Pois bem, o texto já percorreu um caminho relativamente longo nesta argumentação. É bem provável que essas palavras tenham desanimado cinéfilos minimamente interessados em investir no ramo, agora refletindo por quanto tempo mais haverá sentido na existência de tais jornalistas da área de cultura. E nem consideramos a explosão dos serviços de streaming nesta equação. Mas o verdadeiro crítico de Cinema é mesmo um pobre-diabo na iminência do limbo da insignificância, desesperadamente tentando manter sua pureza à beira do abismo?  A boa notícia é que, fora do espectro mercadológico, existem argumentos para negar esse óbito anunciado.


Criticar é preciso!

Apesar de tudo, o exercício da verdadeira crítica cinematográfica é e sempre será necessário. Mesmo que a avassaladora maioria do público não veja o Cinema como ARTE, é exatamente isso que ele é. Independente do gênero e dos envolvidos, a realização fílmica merece respeito como obra artística. Essa é uma verdade que os críticos – os reais merecedores desse título, pelo menos – já carregam consigo, fazendo sua parte para mudar esse paradigma ignorante hoje cristalizado. E isso não tem absolutamente nada a ver com aquilo que o espectador gosta de assistir, mas com sua percepção geral sobre o assunto.

A arte em si sempre deve ser discutida, analisada e comentada com a maior participação do público possível. Entendendo a produção artística como parte da manifestação de um momento e de um inconsciente coletivo, o assunto nunca é apenas Cinema. Do entretenimento mais vazio e comercial às reflexões mais ambiciosas que podem ser projetadas em uma tela grande, a crítica cinematográfica bem fundamentada é um excelente acessório dentro do processo de compreensão das épocas. Os filmes são construtos de seu tempo e a reflexão em torno deles é inevitável, não importando o quanto a prática é banalizada hoje nem mesmo o número de pessoas interessadas em ler/assistir/ouvir boas análises sobre eles.

Insistindo na importância do ofício, podemos ir além na pluralidade útil da crítica. Uma melhor percepção sobre o Cinema como linguagem e arte, na maior parte dos casos, começa quando conhecemos o trabalho dos bons jornalistas da área. Todo cinéfilo compartilha uma experiência em que leu algum texto ou ouviu uma observação a respeito de qualquer filme, espantando-se com a solidez de uma argumentação a qual, até aquele exato momento, ele não fazia a menor ideia. Qualquer um que refine seu olhar e entenda como essas engrenagens funcionam não adquire perspicácia apenas no que se refere a obras ficcionais.

Os recursos narrativos do audiovisual também são empregados em documentários ou produções televisivas jornalísticas. Entender esses meandros não é apenas tornar-se um espectador mais preparado para a análise, mas alguém menos propenso a ser enganado pela veiculação tendenciosa e mal-intencionada de notícias pela televisão, por exemplo. A distorção ou relativização de fatos nas telas domésticas não é uma novidade por aqui, o que acaba aumentando a importância de uma “educação audiovisual”, na falta de um termo mais adequado.

Independente de quantas pessoas já refletiram sobre a importância desse trabalho nesses termos, esta linha de pensamento leva a uma constatação cujo sabor pode ser amargo demais para alguns. Então, o crítico é um Sísifo moderno tentando construir um cenário utópico que ele nunca verá concretizado? Não temos como reprovar quem vê a situação desta forma, criando a deixa para um clichê consolador. Recomendar vagamente que se procure o lado positivo da situação poderia ser dito por qualquer um, o que seria prontamente ignorado. Felizmente, os críticos são especialistas no uso de clichês!

Se a função da difusão da arte ou o serviço de utilidade pública não é o bastante, depois de tantas dificuldades argumentadas aqui, ainda nos resta um privilégio que não tem preço. Não há muito tempo, um amigo definiu um traço fundamental da crítica cinematográfica de uma forma belíssima, reflexão a qual me aproprio nestas linhas finais. Escrever, debater ou palestrar sobre filmes com profundidade é a oportunidade de reviver uma experiência que as plateias só têm quando assistem ao filme pela primeira vez. Mergulhar nestas obras e dividir nossas impressões com o mundo é revisitar aquele prazer da descoberta, chegando aos reais valores.

Para um verdadeiro cinéfilo, isso vale todo o esforço...


[1] Sócio-fundador e editor-chefe do site Formiga Elétrica. Crítico de Cinema, também escreve sobre HQ’s, seriados e Literatura, um trabalho que se estende em vídeos semanais no Youtube com seus sócios e convidados, além de um podcast quinzenal. Formado em Design, com habilitação em programação visual, o envolvimento com Cinema em geral e seus assuntos correlatos trouxe oportunidades de ministrar cursos e palestras sobre o assunto.

 

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