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Entrevista com Leo Cunha

Não existe uma tradução perfeita ou intocável”

Entrevista com Leo Cunha, professor e tradutor de Balada da estrela e outros poemas, de autoria da chilena Gabriela Mistral, Prêmio Nobel de Literatura, e com ilustrações de Leonor Pérez.


Por Danielle Mendes Sales

Danielle Mendes Sales: Antes de traduzir este livro para a Olho de Vidro, você já havia tido contato com a obra da Gabriela Mistral?

Leo Cunha: Sim, já tinha lido alguns de seus poemas em espanhol e também alguns traduzidos pela Henriqueta Lisboa.

Apesar de ter ganhado um Prêmio Nobel, ela não é muito difundida no Brasil. Acha que existe algum fator especial para tanto?

Acredito que são vários fatores. Primeiro o fato de o Brasil conhecer pouco da literatura latino-americana, em geral. Segundo, o fato de se tratar de poesia, gênero que, por si só, já conta com um público mais restrito. Neruda (que também é poeta, também chileno e também laureado com o Nobel) é um pouco mais conhecido do que a Gabriela porque houve dois ou três filmes sobre ele, nas últimas décadas. Em terceiro lugar, pelo fato de Gabriela ter morrido há mais de 60 anos, em 1957. Todos estes fatores, em conjunto, ajudam a explicar.

Como surgiu o convite para traduzir a obra?

O Marcelo Del Anhol, da Olho de Vidro, já tinha publicado vários livros meus, quando trabalhou na editora Positivo. Tanto livros que escrevi, de poesia, quanto livros de outros poetas, que eu organizei (Múcio Góes e Ruy Espinheira Filho), e também um livro teórico que organizei (Poesia para crianças: conceitos, tendências e práticas). Temos uma admiração mútua e uma boa sintonia. Daí o convite.

Além da tradução, você também fez a seleção dos poemas. Como foi este trabalho? Que critérios utilizou na seleção?

O processo foi bem interessante. O livro Balada da estrela e outros poemas não existe em outros países. Este conjunto de poemas foi selecionado especificamente para esta edição brasileira. O Marcelo me enviou um exemplar com a obra completa da Gabriela e me provocou: "Encontre aí um livro para crianças". Ou seja, eu li todos os poemas (algumas centenas) e fui escolhendo segundo alguns critérios: aqueles que eu mais gostava, claro, mas que também me parecessem adequados ao público infanto-juvenil, e ainda que tivessem uma variedade entre si. Alguns atendiam todos estes critérios, mas me pareciam particularmente difíceis de serem traduzidos a contento.

Traduzir poesia é considerado algo difícil e, para alguns teóricos, até impossível. Esta também é sua opinião? Qual a justificativa para sua resposta?

Concordo. Alguém já disse que poesia é o que se perde na tradução. Uma definição cruel e provocadora, mas também um desafio para o tradutor. Ao traduzir um texto em poesia, várias camadas devem ser contempladas: os sentidos evidentes e os sugeridos, o ritmo, a métrica, as rimas, os jogos de palavra. A prosa nem sempre apresenta todas essas camadas. 

Durante seu processo tradutório, no caso específico deste livro, você optou por privilegiar forma ou conteúdo? Por quê?

Como expliquei na resposta acima, as camadas são mais variadas do que somente forma e conteúdo. Às vezes, no momento da tradução, temos que privilegiar algumas camadas em detrimento de outras. No caso da tradução da Gabriela Mistral, sempre que possível mantive o ritmo e as rimas, pois ela era uma poeta muito musical (vários de seus poemas viraram canções, no Chile). Não cometi nenhum "abuso" em termos dos sentidos, mas adotei uma certa liberdade poética, para manter, na medida do possível, os aspectos musical e lúdico da poesia da Gabriela.

Acredita que houve algum tipo de “perda” na tradução, por conta de efeitos sonoros, rimas ou métrica?

Acredito que respondi acima. Detalhando um pouco mais: algumas vezes me vi diante do dilema entre alterar um elemento formal (ritmo, métrica, rima) ou alterar levemente o sentido. Preferi, geralmente, a segunda opção, mas não de forma absoluta. Em alguns casos, porém, achei que uma pequena alteração no ritmo era a melhor saída. São decisões delicadas, e debati muitas delas com o editor. No final, acredito que chegamos a uma solução muito boa. 

No livro, você diz que “(…) um dos desafios da tradução foi manter o lirismo e a linguagem da autora chilena sem comprometer a estrutura dos poemas, pois vários deles foram musicados e têm uma cadência própria”. Gostaria de comentar algum poema em especial?

O poema que traz uma criança conversando com Papai Noel e fazendo alguns pedidos para a noite de Natal é belíssimo, um dos meus favoritos do livro. Ele traz, porém, vários desafios em termos de métrica. Vale lembrar que a métrica na língua espanhola funciona de forma um pouco diferente da que usamos em português. A própria forma de contar as sílabas pode ser diferente, em alguns casos, o que traz um desafio extra. como neste poema. A cada verso deste poema eu tive que refletir a métrica e fiquei feliz com o ritmo adotado, ainda que não espelhe exatamente aquele do poema original.

Houve algum ponto especialmente desafiador nesta tradução, levando-se em conta o público-alvo, que é composto majoritariamente por crianças? Quais foram as suas soluções para esta questão? Como chegou a este resultado?

Parto do princípio de que a criança é inteligente e sensível, para fazer suas interpretações. Além disso, penso que nem tudo precisa necessariamente ser "compreendido", em um poema. Algumas metáforas, alusões, referências são propositalmente abertas, para deixar que cada leitor faça sua leitura, a partir de seu repertório e sua vivência com textos poéticos.

Você teve acesso às ilustrações enquanto traduzia? Elas te auxiliaram em algum momento na tradução?

Não. As ilustrações foram feitas separadamente. A Leonor recebeu a lista dos poemas selecionados e foi criando as ilustrações ao mesmo tempo em que eu concluía a tradução.

Em algum momento, você lê sua tradução para si mesmo? O que acha dessa prática?

Ao longo do processo, leio várias vezes, em silêncio e em voz alta. Depois do livro pronto, reli também algumas vezes. Considero um exercício rico, até para ver possíveis possibilidades. Não existe uma tradução perfeita ou intocável. Certamente um mesmo poema receberá dez traduções diferentes, de dez tradutores.

Para você, qual é a diferença entre traduzir poesia para adultos e para crianças?

Os desafios são praticamente os mesmos. No caso das crianças, acho que devemos ter um cuidado extra em evitar, se possível, palavras muito estranhas ao seu vocabulário. Entre duas palavras – se não há interferência na métrica ou na rima – provavelmente optarei por aquela mais próxima do universo infantil.

Alguma especificidade da tradução do espanhol que gostaria de ressaltar durante o trabalho nesta obra?

São várias especificidades. Por exemplo, a questão da métrica, que citei acima. Mas também temos o caso de palavras específicas. Um poema como "Todo es ronda" já traz, de saída, uma armadilha para o tradutor, porque as duas palavras mais presentes no texto são "ronda", "niños" e "niñas", que em português têm mais sílabas ("ciranda", "meninos", "meninas"). Isso complica todo o processo.  

Há algum comentário adicional que gostaria de fazer sobre a obra ou seu processo tradutório?

Gostaria de dizer que a internet ajuda muito o tradutor a encontrar parâmetros. Durante a tradução deste livro, pude encontrar traduções dos poemas da Gabriela para o inglês e o francês, por exemplo, que me ajudaram a escolher os caminhos que eu iria (ou não) tomar. Há tradutores que dão uma banana para o ritmo e grudam no sentido do poema. Outros fazem o oposto. Eu tentei, na medida do possível, ficar no meio do caminho, tentando ver o que cada poema me sugeria.


Leo Cunha nascido em Bocaiuva, no interior de Minas Gerais, vive atualmente em Belo Horizonte. É autor de mais de cinquenta livros para crianças e jovens. Sua obra recebeu diversos prêmios. Ele ainda traduziu livros de diversos escritores, como Julio Cortázar, Antonio Skármeta, Robert Louis Stevenson, David McKee e Jon Scieszka. Com doutorado em Cinema, mestrado em Ciência da Informação e graduação em Jornalismo e em Publicidade, Leo é também professor universitário.

Danielle Mendes Sales é bacharel em Letras, Tradutor e Intérprete, Inglês e Português, além de licenciada em ambas as línguas. Fez mestrado em Literatura Infantil e Juvenil na Universidade Autônoma de Barcelona e atua no mercado editorial há mais de vinte anos. Em 2020, participou da primeira turma do Programa de Aprimoramento em Tradução Literária da Casa Guilherme de Almeida.

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